Curso de Bíblia
Por José Haical Haddad
Capítulo 2
GÊNESIS
A Aliança
"O Senhor disse a Abrão, depois que Ló se separou dele: “Levanta os olhos e, do lugar onde estás, contempla o norte e o sul, o oriente e o ocidente. Toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendência para sempre. Tornarei tua descendência como o pó da terra. Se alguém pudesse contar o pó da terra, contaria também tua descendência. Levanta-te e percorre este país de ponta a ponta porque será a ti que o darei”. Abrão levantou as tendas e foi morar junto ao carvalho de Mambré, perto de Hebron, onde construiu um altar para o Senhor" (Gn 13,14-18).

"...e à "tua descendência" para sempre" - São Paulo revela a existência neste trecho de um anúncio de Cristo:

"Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à descendência dele. Não diz: “e a teus descendentes”, como se fossem muitos, mas fala de um só: e a tua descendência que é Cristo" (Gl 3,16).

Já se percebe que na realidade Cristo é a razão primeira e única das Escrituras Sagradas, e que o Antigo e o Novo Testamentos na verdade não passam de um só, o anunciado naquele é cumprido neste, além da clara presença de dificuldades inúmeras advindas dos desencontros causados pelas con-seqüências do pecado em toda a criação que irá sanar:

"Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa da-quele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora" (Rm 8,19-22).

Abrão se depara com outra situação de fato, uma guerra entre cinco cidades em virtude do que Ló com as suas posses é levado como parte do saqueado de Sodoma e Gomorra pelos vencedores (Gn 14,1-12). Avisado, Abrão vai em socorro do sobrinho, com um grupo de apenas trezentos e dezoito homens, liberta-o e a todos os prisioneiros bem como recupera todos os bens saqueados. Aparece aqui o justo em luta com o mundo que lhe é totalmente avesso, onde não se porta como um covarde nem foge à luta. Numa espécie de guerrilha ("à noite") vence e liberta tudo e todos, além do seu sobrinho com seus pertences (Gn 14,15-16). O rei de Sodoma lhe dá todos os bens e reclama as pessoas liber-tadas. Aparece então uma figura misteriosa por demais:

"Ora, Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus Al-tíssimo; e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Cria-dor dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14,18-20).

 Porém, o fato de Abrão receber dele uma bênção e pão e vinho, como oferendas de sacrifício, e entregue o dízimo dos despojos advindos pela vitória, evidenciam a identidade de uma fé comum:

"Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. (...) Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. (Sl 110,1-4).

"Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando este regressava da matança dos reis, e o abençoou, a quem também Abraão separou o dízimo de tudo sendo primeiramente, por interpretação do seu nome, rei de justiça, depois também rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhan-te ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre. Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo dentre os melhores des-pojos (...) Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior". (Hb 7,1-7).

Vê-se que o Antigo Testamento transborda Cristo desde as primeiras narrativas, prefigurando-O em quase todos os personagens que aparecem. Assim Melquisedec "é feito semelhante ao Filho de Deus", e tal como Ele "permanece sacerdote para sempre". É que a família ou tribo a que Jesus per-tencia, Judá, segundo a sua genealogia, não fora destinada ao exercício do sacerdócio, mas a tribo de Levi (Ex 29 / Nm 3,5+ e 8,14+). Isso é o que diz a Epístola aos Hebreus:

"E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar os dízimos do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que estes também tenham saído dos lombos de Abraão; mas aquele cuja genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou ao que tinha as promessas" (Hb 7,5-6).

"e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14,19-20).

 Prosseguindo a narrativa vê-se Abrão novamente se colocando em contradição com o mundo, rejeitando os despojos a que tinha direito e de boa vontade oferecidos, num claro reconhecimento de que os merecera.

"Então o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas; e os bens toma-os para ti. Abrão, porém, respondeu ao rei de Sodoma: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio, nem uma correia de sapato, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somente o que os mancebos comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; que estes tomem a sua parte" (Gn 14,21-24).

Não há dúvida alguma de que os fatos acontecidos geraram séria dificuldade em Abrão, que acontecem sempre com aqueles eleitos de Deus, colocados que são em posição não muito sintonizada com o mundo que os cerca, pelo que o próprio Deus o busca fortalecer:

"Depois destes acontecimentos veio a palavra do Senhor a Abrão numa visão, dizendo: Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo, o teu galardão será grandíssimo. Então disse Abrão: Ó Senhor Deus, que me darás, visto que morro sem filhos, e o herdeiro de mi-nha casa é o damasceno Eliezer? Disse mais Abrão: A mim não me tens dado filhos; eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro" (Gn 15,1-3).

Abrão está livre e desapegado dos bens materiais, é o que demonstram a sua atitude com refe-rência às pastagens reclamadas por Ló e aqui aos despojos a que tinha direito, mas está consciente de sua eleição e a quer ver realizada. Mescla ainda à Obra de Deus suas providências humanas e não se curva a nada, buscando apenas a vontade de Deus. Nem mesmo se deixa dominar pela cobiça e ambi-ção, já se manifestando livre de uma das primeiras conseqüências do rompimento do Homem com Deus, fruto do primeiro lance do orgulho humano. Já se libertara por primeiro do apego aos bens como um sentimento de segurança, deixando-o repousar apenas em Deus. Demonstra a sua condição de livre, libertando os seus semelhantes e não se apegando aos despojos, nem humanos nem materiais. Só quem é livre liberta. Só liberta da cobiça e ambição quem é livre da cobiça e ambição. Só liberta do pecado quem é livre do pecado. Ai Abrão é "pré figura" de Cristo, eis que Cristo liberta do pecado por ser livre do pecado.

A própria Bíblia quase sempre fornece os subsídios para se compreender alguma obscuridade que apareça, tal como aqui a causa da reclamação de Abrão. Num mundo que lhe era terrivelmente hostil, lutando com todas as suas energias e usando de toda a paciência e controle possíveis, ainda não vira se concretizar a Promessa que Deus lhe havia feito de que "toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendência para sempre" (Gn 13,14-18). Abrão não fora assaltado por aquela dúvida que contradiz a fé. Nunca! Foi uma espécie de indecisão que lhe imprimiu a natureza, confusa ao avaliar apenas as condições humanas, enfraquecidas pelas conseqüências do pecado original, em confronto e em avaliação real em face da entrega incondicional nas mãos de Deus que operava.

Tendo Deus lhe prometido dar e à descendência dele a terra em que peregrinava, viu que nessa promessa estava embutida a geração de filhos dele com sua mulher Sarai, e até aquele momento não vieram. É claro que sentiu dificuldades em compreender a situação e assim "temeu", vindo Deus em seu socorro, após ouvir que "morro sem filhos", e a quem deixar a herança de Deus:

"Ao que lhe veio a palavra do Senhor, dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas entranhas, esse será o teu herdeiro. Então o levou para fora, e disse: Olha agora para o e conta as estrelas, se as podes contar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência" (Gn 15,4-5).

Era a recompensa da renúncia, daquela renúncia de si mesmo que convulsionou e impulsionou a História da Salvação, dessa História que foi e está sendo escrita exclusivamente por Deus, que pela Aliança refaz o mesmo apelo do Éden ao coração do Homem. Ao chamado de Deus, Abrão responde, após tão convulsionada esperança, mostrando o sinal indelével que marcará a Obra da Redenção, a FÉ:

"Abrão creu em Deus, e isto foi-lhe creditado como justiça" (Gn 15,6).

O sentido aqui é o que se lê: pela fé que teve a sua conta com Deus foi quitada. Assim, a Fé de Abrão que lhe valeu a "justificação" e o tornar-se "o Pai de todos os crentes" (Rm 4,11), serve de mo-delo perene para todos os fiéis de todos os tempos

"Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaac e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidade que tem os fundamentos, da qual o arqui-teto e edificador é Deus" (Hb 11,8-10).

Também São Tiago na sua Epístola vai a ela se referir, para vinculá-la à necessidade de expres-são em obras para não ser uma "fé morta":

"Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada; e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus" (Tg 2,22-23).

3. A ALIANÇA ESBOÇADA

Abrão prossegue apresentando as suas dificuldades a Deus com toda a franqueza e liberdade que caracterizam uma amizade profunda e Deus por sua vez o vai robustecendo e amadurecendo na fé:

"Disse-lhe mais: Eu sou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra em herança. Ao que lhe perguntou Abrão: Ó Senhor Deus, como saberei que hei de herdá-la? Respondeu-lhe: Toma-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. Ele, pois, lhe trouxe todos estes animais, partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas as aves não partiu. E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as enxotava. Ora, ao pôr do sol, caiu um profundo sono sobre Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trevas. (...) Quando o sol já estava posto, e era escuro, eis um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre aquelas metades. Naquele mesmo dia fez o Senhor uma Aliança com Abrão, dizendo: Á tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates; e o queneu, o quenizeu, o cadmoneu, o heteu, o perizeu, os refains, o amorreu, o cananeu, o girgaseu e o jebu-seu" (Gn 15,7-12.17-21).

 Para melhor compreensão separamos os versículos 13-16 que anuncia um fato a que já nos re-ferimos no comentário anterior: a identidade de acontecimentos com o povo advindo de Abrão no Egito:

"Então disse o Senhor a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendência será peregri-na em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens. Tu, porém, irás em paz para teus pais; em boa velhice serás sepultado. Na quarta geração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia" (Gn 15, 13-16).

 Esse episódio de repartir animais em duas partes, nos é por demais estranho e incompreensível. Por isso dissemos acima e na Introdução que a Bíblia não foi escrita especificamente para nós, mas para pessoas que tinham familiaridade cultural com o acontecimento e conheciam detalhadamente to-dos os fatos. Vamos procurar esclarecer a situação partindo da própria Bíblia, segundo a qual, referin-do-se ao mesmo ritual:

"Entregarei os homens que transgrediram a minha Aliança, e não cumpriram as palavras da Aliança que fizeram diante de mim com o bezerro que dividiram em duas partes, passando pelo meio das duas porções - os príncipes de Judá, os príncipes de Jerusa-lém, os eunucos, os sacerdotes, e todo o povo da terra, os mesmos que passaram pelo meio das porções do bezerro, entregá-los-ei, digo, na mão de seus inimigos, e na mão dos que procuram a sua morte. Os cadáveres deles servirão de pasto para as aves do céu e para os animais da terra" (Jr 34,18-20).

 Verifica-se pelas palavras acima do Profeta Jeremias que se trata de um juramento a cujo sacri-fício eram entregues os que não o cumprissem, donde o pavor de Abrão, ouvindo uma referência futu-ra de Deus ao povo a que dará origem, pelo que teme supondo referir-se a ele, apesar de somente se evidenciar a presença de Deus significado no fogo a cruzar os animais oferecidos. É que naquele ceri-monial Deus realmente incluía "a sua descendência" (Gl 3,8), Jesus Cristo, que iria sofrer a punição pela original violação humana. Mesmo assim Abrão é partícipe da Aliança de Deus cujo início já se concretiza, com uso do fogo já representando a presença de Deus em várias etapas da História da Sal-vação (Ex 3,2; 13,21; 19,18). Fica-lhe claro pelo juramento a vontade de Deus em dar-lhe uma des-cendência numerosa como as estrelas do céu, e a quem daria aquela terra em que peregrinava.
Passam-se dez anos e fica positivado que Sarai era estéril, a quem naturalmente teria sido nar-rada esperançosamente a promessa, e ambos encontram então uma maneira de resolvê-lo com um arti-fício, como sói acontecer quando se pretende atender aos desígnios de Deus com uma solução huma-na:

"Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Tinha  ela uma serva egípcia, que se chamava Agar. Disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; talvez eu possa ter filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, sua serva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrão ter habitado dez anos na terra de Canaã. E ele conheceu a Agar, e ela concebeu..." (Gn 16,1-4a).

 Pelos costumes de então os filhos assim gerados eram considerados filhos de Sarai, com o que satisfar-se-ia a promessa de Deus, há dez anos passados. Após o engravidamento de Agar, vários fatos ocorrem, característicos da cultura da época, mostrando que apesar do "concubinato" de Abrão com ela, Sarai não perdera sua condição de legítima, chegando, conforme exigira de Abrão, a oprimir de tal forma sua escrava que ela fugiu. No deserto em desespero tem a visão do anjo que determina o seu retorno e submissão à Sarai, com a promessa de fazer de seu filho Ismael, como será chamado, um grande povo (Gn 16,4b-16).

4. A ALIANÇA ESTABELECIDA

Para Abrão e Sarai a condição básica para a grande posteridade dele ficara então satisfeita com o nascimento de Ismael (Gn 16,15-16). Deus então se manifesta e dá à Aliança uma nova dinâmica, até agora não vista:

"Quando Abrão tinha noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: Eu sou El-Shaddai (=o Deus Todo-Poderoso); anda em minha presença, e sê perfeito; e fir-marei a minha Aliança contigo, e sobremaneira te multiplicarei" (Gn 17,1).

 Até então a Aliança era unilateral, sem nada exigir da conduta e comportamento do Homem a não ser alguma forma de expressão ritual qual aquela de "não comer o sangue dos animais" da Aliança do Dilúvio (Gn 9,4). Desta vez exige e promete: "anda em minha presença, e sê perfeito; e firmarei a minha Aliança contigo, e sobremaneira te multiplicarei", e passa a ser um acordo entre duas vontades conscientes. Busca-se assim recuperar para o Homem a "imagem e semelhança de Deus" (Gn 1,26), que "deverá refletir como num espelho" (2Cor 3,18), a "perfeição" divina, que não se confunde com a "corrupção" advinda do mundo profano. "Andar na 'presença' de Deus", diferentemente de Adão e Eva que tiveram de se 'esconder' por causa da desordem que cometeram, é cumprir consciente e fielmente a Sua Santa Vontade, não causando motivo, por sua conduta, para dele se afastar. Ora, isso exige fé e tomada de consciência maiores que o instinto de sobrevivência num mundo hostil e des-viado do seu Criador. Estamos diante de uma das manifestações majestosas e solenes de Iahweh (="teofania") que aqui recebe o nome de El-Shaddai (Ex 6,3 = "O Todo Poderoso"), tanto que: "...Abrão se prostrou com o rosto em terra..." (Gn 17,3a). O tempo de treze anos decorrido desde o nascimento de Ismael faz admitir e supor algum motivo sério necessário à Aliança, apenas esboçada e no seu nascedouro. Tudo indica que a solução humana de Abrão e Sarai com a geração de Ismael exi-ge um amadurecimento de ambos no conhecimento de Deus, eis que demonstraram com seu gesto não compreender-LHE o desígnio, quanto às características e dimensões dela:
 
"...e Deus falou-lhe, dizendo: Quanto a mim, eis que a minha aliança é contigo, e serás pai de muitas nações; não mais serás chamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois por pai de muitas nações te hei posto; far-te-ei frutificar sobremaneira, e de ti farei nações, e reis sairão de ti; estabelecerei a minha aliança contigo e com a tua descendên-cia depois de ti em suas gerações, como aliança perpétua, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti. Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a ter-ra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus" (Gn 17,3b-8).

 Quando Abrão "prostra com o rosto em terra" (Gn 17,3) demonstra eficazmente a sua adesão e fé incondicional em Deus, bem como a aceitação dos termos da Aliança, agora com a firme e incondi-cional exigência de obediência, culto e adoração exclusivos, e pelo próprio Deus traduzido num sinal, o da circuncisão:

"Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, guardarás a minha aliança, tu e a tua des-cendência depois de ti, nas suas gerações. Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: todo varão dentre vós será circuncidado. Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal de aliança entre mim e vós" (Gn 17,9-11).

Tão fundamental é essa instituição que o não cumprimento dela determina que "...o que não se circuncidar na carne do prepúcio, será extirpado do seu povo; violou a minha aliança" (Gn 17,13b-14). Todos os homens estavam subordinados à exigência, até mesmo escravos e estrangeiros (Gn 17,12-14). Deus que lhe muda o nome de Abrão para Abraão (= "pai de uma multidão"), também muda nome de Sarai (= "minha princesa") para Sara (= "princesa"). Quando Deus dá o nome a alguém, elegendo-o para uma missão, assume-lhe o domínio, "...chamei-te pelo nome, meu tu és" (Is 43,1c):

"Disse Deus a Abraão: Quanto a Sarai, tua, mulher, não lhe chamarás mais Sarai, po-rém Sara será o seu nome. Abençoá-la-ei, e também dela te darei um filho; sim, abençoá-la-ei, e ela será mãe de nações; reis de povos sairão dela". "Ao que se prostrou Abraão com o rosto em terra, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara, que tem noventa anos?" (Gn 17,15-17).

A grande dificuldade de Abraão agora se concretizava, eis que o tempo passava, urgia e não acontecia, e agora, numa idade avançada por demais, quando não mais se podia esperar uma gravidez normal de Sara, Deus vem anunciá-la. Por isso Abraão ri! Não um riso de dúvida, riu crendo, possuí-do por grande alegria e achando graça pelo contraste com que os fatos se manifestavam. No máximo só poderia ocorrer aquela indecisão que lhe teria impresso a natureza confusa ao avaliar apenas ambas as condições humanas, enfraquecidas pelas conseqüências do pecado original em confronto com a rea-lidade. Renúncia de si que se acentua, indício de maturidade religiosa, no marco inicial da História da Salvação, história que foi e está sendo escrita exclusivamente por Deus, seu único Autor. São desses momentos em que Deus coloca os seus eleitos face a face com a realidade de Seus Planos e da Missão a que foram eleitos, provando-os e amadurecendo-os para tal. Pelos costumes de então Ismael era fi-lho de Sara, e sentindo-o como que rejeitado Abraão se preocupa, quer se esclarecer e pede por ele: "depois disse Abraão a Deus: Oxalá que viva Ismael diante de ti!" (Gn 17,18), como se pedisse que se lembrasse dele também, que era outro filho seu:

" E Deus lhe respondeu: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe chamarás Isaque; com ele estabelecerei a minha aliança como aliança perpétua para a sua descendência depois dele. E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e multiplicá-lo-ei grandemente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação. A minha aliança, porém, estabelece-rei com Isaque, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro. Ao acabar de falar com Abraão, subiu Deus diante dele" (Gn 17,19-22).

Deus insiste em seu desígnio ouvindo o pedido dele pelo filho e reafirmando a continuidade da Aliança com um filho de Sara, não com o da escrava. Pelo que Sara também rirá quando ouvir o mesmo anuncio de sua gravidez (Gn 18,9-15) e quando der à luz e o nome ao filho, significado no nome Isaac (Gn 21,6), que é derivado da raiz hebraica para a palavra riso. Assim explicado o riso ai mencionado, verifica-se que não se duvidou de Deus um instante sequer, tal como São Paulo esclare-ce, evidentemente da concepção tradicional israelita:

"...a fim de que a promessa seja firme a toda a descendência, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós. Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas na-ções, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência; e sem se enfraque-cer na fé, considerou o seu próprio corpo já amortecido, pois tinha quase cem anos, e o amortecimento do ventre de Sara; contudo, à vista da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estan-do certíssimo de que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para o fa-zer" (Rm 4,17-21).

Houvesse alguma dúvida, Abraão e Sara teriam recebido de Deus o mesmo tratamento dado a Zacarias, o Pai de João Batista, que ficou mudo como castigo de sua descrença (Lc 1,19-20). Por fim, Abraão imediatamente parte para o cumprimento da Aliança e circuncida a todos os homens, a partir de si mesmo e de seu filho Ismael (Gn 17,23-27). Essa instituição será observada pelos seus descen-dentes de maneira tão severa e séria que separar-se-á o mundo para eles em "circuncisos" e "incircun-cisos", e quando do advento do cristianismo será a causa das crises iniciais de conflito do judaísmo com a nova doutrina de Cristo.

A Aliança com o Homem é sempre um apelo de amor e comunhão de vidas que parte de Deus, pois que por si só o Homem se tornou totalmente impotente para fazê-lo, nada podendo conseguir por causa do abismo erguido entre ambos pelas conseqüências dramáticas ocasionadas pelo pecado origi-nal. Daí porque somente por ato livre de Deus é que se pode conseguir seu cumprimento e eficácia, donde ser obra exclusiva dEle. Amadurecido na fé e por ela justificado Abraão torna-se "Amigo de Deus" (2Cro 20,7; Jdt 8,22; Is 41,8; Dn 3,35; Tg 2,23), vivendo então em Sua intimidade e comunhão. Por isso, recebe a visita de três anjos e os reconhece (Gn 18,1-33), considerados pelos Santos Padres dos primórdios do cristianismo como "figuras" ou "anúncios" da Santíssima Trindade. É que, quando a tradução não é "melhorada" pelo tradutor (que infelizmente imprime à tradução sua opinião), os três são denominados ora em conjunto (Gn 18,1), ora dois (Gn 18,20-22), ora um deles (Gn 18,23-33) pelo singular "Meu Senhor", "tratando-os, de qualquer dos modos em que se apresentem, como a uma só pessoa". São dois os motivos para a visita: primeiro, ratificando os termos da Aliança contraída, o anúncio da gravidez de Sara para o ano próximo. É quando chega a vez de Sara rir, tal como já nos referimos acima, mais de surpresa e contentamento, nunca de dúvida de fé, apesar do anjo insistir que "não há nada difícil para Deus" (Gn 18,14). O segundo motivo foi comunicar a destruição de Sodoma e Gomorra, pois considera-o tão "amigo" que dele não pode esconder "o que estou para fazer" (Gn 18,17). Mas, tal comunicação tem outra finalidade, mais ligada à Aliança:

"E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e por meio dele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem fa-lado" (Gn 18,17-19).

É que a Aliança não se confinava a Abraão apenas, mas teria prosseguimento em todos os seus termos com os seus descendentes por meio dos quais "virá a ser uma grande e poderosa nação, e serão benditas todas as nações da terra", desde que "seus filhos e a sua casa depois dele guardem o cami-nho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado". Por isso a Aliança é conhecida também por Testamento, por causa da continuidade do "legado" nas gerações subsequentes. Já se anuncia o prosseguimento e a consecu-ção da Obra da Redenção do Homem na descendência de Abraão - Jesus Cristo (Gl 3,16 / Mt 1,1):

"Ora, a Escritura, prevendo que Deus havia de justificar pela fé os gentios, previamente anunciou a boa nova (= o "Evangelho") a Abraão, dizendo: Em ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são da fé são abençoados com o crente Abraão" (Gl 3,8-9).

 Dada a notícia, afirma Deus que "descerei para ver se as suas obras chegaram a ser como o clamor que chegou até mim, e, se não, o saberei", evidenciando pelo "descerei" o sobrenatural do quadro apresentado, tendo Abraão sido elevado até Ele. E é nesse estado sobrenatural que Abraão vai demonstrar a sua "elevação" espiritual (Gn 18,22-33), quando aparece que "quanto mais Amigo de Deus, mais amigo dos homens". É o efeito natural da caridade, "o Amor de Deus que se "derrama no coração do Homem pela Graça" (Rm 5,5), o estado da "elevação" de Abraão, "justificado pela sua fé". Vai regateando com Deus, paulatinamente se esforçando para salvar a tudo e a todos da punição iminente e justa. Intercede habilidosamente e com toda a humildade possível representada pelo modo de se expressar próprio do tempo, cuidadosa e lentamente vai decrescendo o número de pessoas boas que possivelmente possam existir nas duas cidades até um mínimo de dez, bem razoável, ficando claro que existisse uma pequena quantidade de justos nas localidades, Deus as pouparia por causa deles.
 Prefigura esse quadro a Redenção que será operada por Jesus Cristo com a Nova Aliança (Lc 22,20), unindo definitivamente o Homem a Deus na Sua Igreja, a comunidade de seus discípulos refle-tindo a Graça e a Misericórdia de Deus no mundo, que "perdoa a todo o lugar em atenção a eles" (Gn 18,26.28.30.31.32), "justificados" pelo Sangue do Cordeiro de Deus. Essa comunhão de afetos entre Deus e Abraão, entre Deus e um Homem, é o arquétipo da Caridade Cristã, tornada virtude humana na ação, mas de fonte impulsionadora divina. Tal com lá, a caridade é a presença de Deus entre os homens, em amizade e íntima comunhão de vidas, não mais entre Criador e Criatura, mas entre Pai e Filho, que se difunde por mediação e eleição dos "justos" a todos os outros, bons e maus. Repete-se sempre a presença do "justo", do que faz a vontade de Deus, vivendo nos "caminhos do Senhor, prati-cando a justiça e o direito" (Gn 18,19). Caridade é isso, é viver a vontade de Deus para o Homem; começa em Deus e explode radiante de beleza nos homens. O Homem não a cria, é fruto do amor e misericórdia de Deus, propagando-se entre os homens assim como a fé e a esperança. A caridade parte de Deus e não se confunde com nenhuma ação humana, não se exaure na esmola nem em nenhuma assistência social e supera qualquer atividade por mais humanitária que seja. A caridade é a expressão da Aliança de Deus com o Homem:

"Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio, de modo que o justo seja como o ímpio; esteja isto longe de ti. Não fará justiça o juiz de toda a terra?" (Gn 18,25)

 A confiante e diplomática intervenção de Abraão dá ao contexto a viva e colorida visão da in-timidade vivencial de ambos. Deus é o único autor do amor entre os homens, "justos e injustos, bons e maus" (Mt 5,45). Na prática quando Abraão se referia aos justos, conseguia a salvação "do justo e do ímpio". Não pediu que afastasse da cidade os justos nem pediu ao menos por seu sobrinho Ló. Pedin-do que nada destruísse por causa dos justos intercedeu pelos bons e maus, numa tentativa de salvá-los da destruição iminente. Sem Deus não há amor fraterno, não há fraternidade, falta um ponto comum de referência, eis que não há fraternidade sem um Pai comum.

5. A ALIANÇA E SODOMA E GOMORRA

Jesus nos revela que Sodoma e Gomorra, tal como o Dilúvio, é outra expressão das conse-qüências do pecado na Criação, e é um anúncio do quadro revolucionário a ser causado no mundo criado quando da revelação do Filho do Homem, ao erradicar definitivamente o pecado:

"Como aconteceu nos dias de Noé, assim também será nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiu a todos. Como também da mesma forma aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os destruiu a todos; assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar" (Lc 17,26-30).

O Evangelista coloca num mesmo plano o Dilúvio e Sodoma e Gomorra, e os evidencia como transformações imprevisíveis, tal como acontecerá nos dias da manifestação gloriosa do Filho do Ho-mem. É o que Jesus quis alertar. Cabe-nos uma explicação para essa narrativa, tão idêntica às do Dilú-vio e também da Torre de Babel, principalmente no colóquio franco e aberto de Deus. Temos de apli-car novamente a mesma regra de nos locomover abstratamente no tempo para a cultura do narrador. Que houve a destruição das cidades houve, não há o que discutir. Porém, o importante é o que signifi-cou para o narrador bíblico e o que corresponde ao evidenciado pelos fatos. Estamos nos referindo ao "pecado" praticado nas cidades e que recebeu a alcunha de "sodomia", formada a partir do nome de Sodoma, para significar o homossexualismo então reinante (Gn 19,5) a ponto de Ló reclamar a virgin-dade das filhas e ter coragem de oferecê-las (Gn 19,8), pelo que foi rechaçado e atacado violentamen-te, sentindo-se ofendidos pela intervenção e conduta moral dele, um "justo", que não se contaminara com o mesmo pecado (Gn 19,9). Aparece aqui outra das conseqüências do pecado original, agora numa manifestação da desordem carnal e a da imoralidade generalizada na concupiscência advinda pela inversão surgida do natural e normal.

Por primeiro, chama a atenção o "descerei" (Gn 18,21) tal como no relato da Torre de Babel (Gn 11,6.7), mostrando a mesma concepção cultural de um deus em figura de homem (visão "antro-pomórfica" de Deus), habitando no "alto". Não pode ser diferente aqui a intenção do narrador, que-rendo também evidenciar a continuidade e a coexistência das conseqüências do pecado apesar da Ali-ança recém - contraída, vinculando ambos à lembrança dos descendentes de Abraão para não perturba-rem mais ainda pela sua conduta o cumprimento dos desígnios de Deus com a Aliança, que vai recon-duzir o Homem à comunhão, intimidade e familiaridade perdidas:

"E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que vou fazer, visto que Abraão certamente virá a ser um grande e poderoso povo, e por meio dele serão abençoadas todas as na-ções da terra? Porque eu o escolhi, para que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele que guardem o caminho do Senhor praticando a retidão e a justiça; para que o Se-nhor cumpra em Abraão o que lhe foi predito" (Gn 18,17-19).

 Como Ló fora morar nas cidades pecadoras seria com elas vítima da catástrofe. Mas, era ele também um "justo" e o narrador mostra como Deus vem em socorro de seus fiéis e os protege, res-pondendo à eficaz intervenção de Abraão em favor dos homens, e só as destrói após libertá-lo:

"Porque se Deus não poupou (...) reduzindo a cinza as cidades de Sodoma e Gomorra,
condenou-as à destruição, havendo-as posto para exemplo aos que vivessem impia-mente; e se livrou ao justo Ló, atribulado pela vida dissoluta daqueles perversos, por-que este justo, habitando entre eles, por ver e ouvir, afligia todos os dias a sua alma justa com as injustas obras deles; também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão sendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas concupiscências, e desprezam toda autoridade" (2Pe 2,4.6-10).

 Pedro retoma a afirmação do narrador que já exprimia neste quadro também e a seu modo a Obra da Redenção, principalmente quando insiste com Ló para salvá-lo e a sua família (Gn 19,12-29), em atenção a Abraão:

"Ora, aconteceu que, destruindo Deus as cidades da planície, lembrou-se de Abraão, e tirou Ló do meio da destruição, enquanto aniquilava as cidades em que Ló habitara" (Gn 19,29). / Apressa-te, escapa-te para lá; porque nada poderei fazer enquanto não ti-veres ali chegado..." (Gn 19,22).

 Da destruição total somente restou Ló e duas filhas numa caverna, [morta a mulher que foi pe-trificada em estátua de sal (Gn 19,16.26.30)], onde praticam um "incesto" (Gn 19,36-37), com a "em-briaguez" do pai, provocada por elas, supondo a inexistência da outros homens. Não deixa de ser ou-tra cena isenta de críticas mesmo aos olhos daquela cultura, apesar de ter sido necessário embriagar o pai para a consumação do ato, tendo ocorrido uma força impulsionadora atuante por demais naqueles tempos: a necessidade de descendência para o pai (Gn 19,32), num mundo onde inexistia outros ho-mens. Não se pode deixar de ver ai atuando com todas as forças o instinto de conservação da espécie a falar mais alto que tudo; nem se pode estabelecer um julgamento com o aculturamento atual, eis que tal necessidade de prole atualmente não tem o mesmo vigor. Da mesma forma que após o Dilúvio aconteceu com Canaã (Gn 9,18-29), aparece aqui outra justificativa para a inimizade reinante entre os israelitas e dois outros povos parentes e vizinhos, os moabitas e os amonitas (Nm 22,1 / 26,3.63), tra-tados como "bastardos" (Dt 23,4), por serem eles nascidos de um abominável "incesto" (Dt 27,20.23; Lv 18,6-18).

6. A ALIANÇA, ABRAÃO E ISAAC

Após essas situações dramáticas nasce Isaac (Gn 21,1-5), o Filho da Promessa, causando gran-de alegria e regozijo. A esterilidade era motivo de grande vergonha (Gn 30,23; 1Sm 1,5-8; 2Sm 6,23; Os 9,11) e a fecundidade é sinal da presença de bênção de Deus. Por isso Sara se regozija e manifesta tudo isso com o riso, como se nota das expressões "Deus me deu motivo de riso e todo o que o ouvir rir-se-á comigo" e "lhe dei um filho na sua velhice", "vantagens" de que se pode vangloriar. Daí vem etimologicamente o nome de Isaac, que na sua raiz tem a conotação indefinida "rir":

"Pelo que disse Sara: Deus me propiciou motivo de riso; todo aquele que o ouvir, rir-se-á comigo. E acrescentou: Quem diria a Abraão que Sara havia de amamentar fi-lhos? no entanto lhe dei um filho na sua velhice" (Gn 21,6-7).

Mas, no dia em que se comemorava o seu desmame, Sara viu Ismael "gracejar" dele, Isaac (Gn 21,9), naturalmente em torno de seu nome..., alguma piada de mau gosto, por exemplo, dirigida por um já rapazola a um recém desmamado, uma criança ainda. A antiga tensão familiar (Gn 16,4d-6) não desanuviara e agora se manifestava tanto no gracejo de Ismael, conhecedor de tudo o que acontecera e as conseqüências para ele sendo já pressentidas, como na reação de Sara que, violentamente aproveita a oportunidade e exige uma atitude definitiva de Abraão (Gn 21,10). Ele, em obediência a Deus, que já valorizava a esposa legítima, ao impulso de uma visão e promessa com referência ao futuro do filho se tornando um grande povo, expulsa-o com Agar (Gn 21,11-14). Tais acontecimentos vão ser identifi-cados de várias maneiras aos cristãos vindos do paganismo, quando São Paulo os interpreta conforme a diferença entre Ismael o filho advindo da vontade e plano do homem e Isaac o Filho da Promessa, advindo da Vontade e do Plano de Deus:

"Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. To-davia o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por pro-messa. O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são duas alianças; uma do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não dás à luz; esforça-te e clama, tu que não estás de parto; porque mais são os fi-lhos da desolada do que os da que tem marido. Ora vós, irmãos, sois filhos da promes-sa, como Isaac. Mas, como naquele tempo o que nasceu segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora. Que diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará  com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre" (Gl 4,22-31).

"Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaac será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho" (Rm 9,6-9).

 Esses acontecimentos redundam para Abraão em atroz sofrimento, debatendo-se entre as de-sordens de um mundo corrompido, coexistindo com o mundo da Aliança no nascedouro. É de se ob-servar a existência de narrativas muito estranhas para nós quanto aos costumes de então. Não faz mal repetir que quando se lê a Bíblia deve-se evitar a precipitação de um julgamento com base nos usos atuais, mas manter a naturalidade e prestar atenção nesses procedimentos antigos, por demais encros-tados na vida social e aparentando muitas vezes a forma de leis, dada a obrigação que é imposta pelas próprias circunstâncias. No regime patriarcal, de acordo com o conceito que dele se faz, uma mulher não poderia exigir com a energia de Sara (Gn 21,10) que o marido expulsasse o próprio filho, com a mãe, uma escrava então libertada, deixando-os sem nada, deserdando-o, a não ser que o conceito seja precipitado e ao contrário existissem naquele tempo normas sociais que assim autorizassem. Pode até mesmo parecer uma espécie de alforria para a libertação da servidão de Agar, mas apesar de tudo, isso não deixa de perturbar até mesmo o próprio Abraão que só o fez após a intervenção de Deus com a promessa de protegê-los, já que "vai tornar o filho um grande povo por ser da posteridade dele" (Gn 21,12-13). Outra dificuldade aparece quanto ao acontecimento com Abimeleque em Gerar, e já se analisou fato idêntico quando da estadia do casal no Egito e a aliança com ele em Bersabéia, para a solução de pendência por causa de poços de água (Gn 21,22-34), mostrando a continuidade da luta pela sobrevivência a que se sujeitou até mesmo um "eleito". Cumpre ao leitor da Bíblia sempre separar os costumes de então, não se deixando influenciar no julgamento por questões assim acessórias, que não alteram em nada os desígnios de Deus no desenrolar da História da Salvação, onde o escolhido nelas vive e se debate. O essencial é que importa, qual seja, a fé vivida de Abraão e demonstrada efi-cazmente por todos os seus atos:

"Abraão plantou uma tamargueira em Bersabéia, e invocou ali o nome do Senhor, o Deus eterno. E peregrinou Abraão na terra dos filisteus muito tempo" (Gn 21,33-34).

 Esta presença de hostilidades do mundo contra o que sempre lutou Abraão vai muito contribuir para a sua maturação e crescimento na fé, solidificando-o para a missão que apenas se esboçava. Numa luta desigual, Abraão ainda se vê em sérias dificuldades quanto aos costumes religiosos do tem-po. São os momentos em que Deus coloca os seus eleitos face à face com a realidade de Seus Planos e da Missão que lhe cabe, provando-os e maturando-os para ela, momentos estes que chegam a ser dra-máticos. Deus pede que lhe ofereça o próprio filho Isaac em sacrifício, o legítimo herdeiro da Aliança, em quem concretizar-se-ia toda a esperança e solidez da fé de Abraão:

"Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe: Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui. Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar" (Gn 22,1-2).

A contradição é mais que evidente, pois ainda soavam aos ouvidos de Abraão aquelas palavras de Deus, quando Lhe apresentara Ismael:

"...e lhe chamarás Isaac; com ele estabelecerei a minha aliança como aliança per-pétua para a sua descendência depois dele. (...) A minha aliança, porém, estabele-cerei com Isaac, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro" (Gn17,18-21).

 Porém, apesar disso, Abraão não vacila, crê! A prontidão da obediência de Abraão, levantan-do-se cedo para cumprir a ordem de Deus e a seqüência súbita da narrativa o demonstra. A fé o leva à obediência, servindo-lhe de alicerce. Conduz Isaac imediatamente ao monte determinado para sacrifi-cá-lo, como uma oferenda a Deus. E, sacrificar Isaac, que já nascera por obra de Deus, em virtude da esterilidade natural de Sara, que já nascera consagrado, deveria soar-lhe como um absurdo. E a situa-ção o coloca face a face com duas posições: de um lado Deus, do outro lado o filho. Abraão escolheu Deus:

"Levantou-se Abraão de manhã cedo, selou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho; e, cortou lenha para o holocausto, e partiu  para o lu-gar que Deus lhe dissera" (Gn 22,3).

Na opção por Deus é que se encontra a verdadeira libertação do Homem de tudo que pode es-cravizá-lo, a começar pelo medo de que deve ter sido assaltado, dada a confusão de emoções que pode ter sentido pela grande contradição que ocorria. Já estava conformado com a esterilidade de Sara e com Ismael sendo o seu único filho, quando o próprio Deus lhe acenara com a felicidade de ter Isaac de sua mulher "legítima" Sara. Não pedira mais um filho após aceitar o filho de Agar, escrava de Sara. E, agora, após recebê-lo já quando a natureza lhe negava, vem Deus e exige dele o seu holocausto, e o quer levar. Alguma coisa não estava nos eixos. Era um ser humano, e sua reação seria humana, com todo o colorido sobrenatural do acontecimento. E essa reação bem que poderia ser de medo, que é a emoção natural que se tem quando se depara com situações contrárias, contraditórias ou conflitantes, e até mesmo incompreensíveis. Na mente do Patriarca ainda ressoava a voz de Deus dizendo-lhe ser "de Isaac que nascerá a posteridade que terá o seu nome" (Gn 21,12); voz que lhe exige agora a vítima Isaac em oferenda sacrificial. É uma grande dificuldade que somente uma robusta fé consegue suportar e vencer. Claro lhe fica que somente ele não entendia o acontecimento, Deus sabe o que faz e a fé de Abraão completa tudo, apesar da enorme contradição. Para se cumprir o que Deus afirmara quanto à Aliança, no sacrifício de Isaac a morte seria vencida pela vida. Deus nele venceria a morte e a vida te-ria prosseguimento, completamente restaurada. Isaac renasceria ali mesmo, não morreria. Abraão teve assim em "figura" uma antevisão da Ressurreição e nela creu, conforme o próprio Cristo dirá:

"Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; viu-o, e alegrou-se" (Jo 8,56).

 Abraão não vacila e prossegue morro acima, consagrando a cada passo o próprio filho. Perce-beu assim que já participava da Obra da Redenção do Homem, e rejubilou-se com a sua proximidade:

"Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaac; ofereceu o seu unigênito aquele que recebera as promessas, e a quem se havia dito: 'Em Isaac será assegurada a tua descen-dência', julgando que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar; e daí tam-bém em figura o recobrou" (Hb 11,17-19).

Isaac carregava o lenho para a fogueira, Abraão o fogo sagrado. Morro acima, ambos cami-nhavam ensimesmando, Abraão mudo de dor, Isaac mudo de espanto:

"Meu pai!
...
Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
...
Deus proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho...." (Gn 22,7-8).

Falou a fé. Abraão ainda esperava em Deus e prossegue morro acima, consagrando a cada pas-so o próprio filho. Sentiu então participar da Obra da Redenção do Homem, e rejubilou com a proxi-midade da concretização da promessa de que "por ti serão abençoadas todas as nações da terra" (Gn 12,3). Quando ultimava os preparativos para imolar o próprio filho Isaac, cuja submissão à vontade do próprio pai, que o oferece em sacrifício o identifica a Cristo com a Cruz (cfr. Santos Padres - Tertulia-no, Agostinho, Cipriano etc.), um anjo o impede:

"Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão! Ele respon-deu: Eis-me aqui. Então disse o anjo: Não estendas a mão sobre o menino, e não lhe fa-ças nenhum mal; porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho. Nisso levantou Abraão os olhos e olhou, e eis atrás de si um carneiro embaraçado pelos chifres no mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o ofere-ceu em holocausto em lugar de seu filho. ..." (Gn 22,11-14).

Aqui se corporifica e recebe de Deus a aprovação a "substituição" eficaz do ser humano por um animal, no caso "o cordeiro", em qualquer sacrifício oferecido, no qual o ofertante é "substituído" pela vítima imolada, recebendo ela a penitência dele, pelo que tomou o nome de resgate. Assim, as palavras de Abraão a Isaac de que "Deus providenciará o cordeiro para o sacrifício, meu filho" são proféticas e vão se concretizar no mesmo morro, segundo antiga tradição (2Cro 3,1) no Sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. Maria como o "Novo Abraão", a Mãe dos Crentes, a Mãe da Igreja, galgando o Calvário ao lado do Filho, tal como Abraão, que, como Isaac, carregava o "Lenho" da Cruz, "cumpre" a Profecia de Abraão entregando ao Pai "o cordeiro que o próprio Deus providenciara para o sacrifí-cio".

A prova a que Deus submete não se destina a um exame que Ele faz no eleito para conhecê-lo, eis que o Deus Onisciente conhece tudo e todos (1Sm 16,7). Destina-se ao amadurecimento e à toma-da de consciência que cada um tenha de si mesmo e das dimensões da sua missão, dela saindo então robustecido, pelo que Deus reforça e ratifica a Aliança. Termina aqui a prova de Abraão e, não só de Abraão, mas também do próprio Isaac o qual mudo dela participou, demonstrando ambos, para a "descendência" deles, aptidão e maturidade para o prosseguimento da Aliança. E como sempre Abraão remata com o sacrifício do carneiro, de cujo holocausto a eficácia se comprova nas palavras do Anjo:

"Então o anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu, e disse: juro por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e não me negaste teu filho, o teu único filho, que te cumularei de bênçãos, e multiplicarei extraordinariamente a tua des-cendência, como as estrelas do céu e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos; e em tua descendência serão bendi-tas todas as nações da terra; porquanto me obedeceste" (Gn 22,15-18).

Abraão, pela sua Fé, está no fundamento da Aliança, é o seu alicerce humano e vai orientar sempre o caminho dela, sempre lembrado e sempre exaltado (Sb 10,5; Eclo 44,19-22; 1Mb 2,52; Tg 2,20-24; Rm 4,1; Hb 11,8-19), e até os dias de hoje, na Igreja de Cristo:

"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para "fora do seu país, da sua parentela e da sua casa" (Gn12,1), para o fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5): "Em ti serão abençoadas todas as nações da Ter-ra" (Gn 12,3 LXX)" (Catecismo Da Igreja Católica n.º 59; v. também n.°s. 144-147; 422; 1079-1080; 1819; 2570-2572 etc.).

"Desde o princípio, Deus abençoa os seres vivos, especialmente o homem e a mulher. A aliança com Noé e todos os seres anima-dos renova esta bênção de fecundidade, apesar do pecado do homem, que leva à maldi-ção da terra. Mas, a partir de Abraão, a bênção divina penetra história dos homens, que caminhava em direção à morte, para a fazer regressar à vida, à sua fonte: pela fé do "pai dos crentes" que recebe a bênção, é inaugurada a história da salvação" (idem n.° 1080)

 Essa fé valer-lhe-á o título de "Pai dos Crentes":

"E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os crentes, estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da circuncisão, mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado" (Rm 4,11-12)

"Sabei, pois, que os cren-tes é que são filhos de Abraão" (Gl 3,7).

7. A ALIANÇA E ISAAC, O FILHO DA PROMESSA

Existem determinados costumes antigos que não se identificam com o aculturamento atual. Um deles é o de sempre se referir à genealogia das pessoas de que toda a Escritura está cheia, desde Adão (Gn 5,1-32), Noé (Gn 10,1-32), outras e assim até mesmo da criação (Gn 2,4).O interesse principal é o de se conhecer a "origem", problema fundamental para os israelitas em virtude da Aliança e da pos-sibilidade de conflito com uma variedade enorme de pagãos com os mais "abomináveis" costumes (Gn 6,1-3) pela vinculação do clã a um ou mais deuses que em seus rituais chegavam a oferecer em holo-causto até os filhos (Jr 32,35; 1Rs 16,34 2Rs 3,27; 23,10). Por tudo isso era necessário um conheci-mento mais detalhado de cada um, evitando-se as mais das vezes o desvio ou a perda definitiva de se-res queridos, ou a diminuição e até mesmo a perda do patrimônio econômico da tribo pela evasão he-reditária dos bens, principalmente de propriedades. Daí e por outros motivos importantes para a pró-pria segurança, para a sobrevivência e para a cultura da época a necessidade de sempre os observar, como soe encontrar nos entremeios das narrativas a genealogia dos principais protagonistas. É tão fundamental essa condição que até mesmo no Novo Testamento, São Mateus, que escreve aos judeus, começa o seu Evangelho com uma genealogia que demonstra Jesus como "Filho de Davi, Filho de Abraão" (Mt 1,1-16) e Lucas, apesar de destinar o seu à Igreja Universal, faz o mesmo, retrocedendo até Adão, dada a universalidade da salvação, mas levando em conta a genealogia de Jesus (Lc 3,23-38).

Claro está que com o compromisso que assumira com os termos da Aliança Abraão, já velho, e após a morte e sepultamento de Sara (Gn 23), se preocupa com quem seria a futura esposa de Isaac. Solucionou a dificuldade com uma de sua parentela (Gn 24,3-4), consciente da genealogia de Nakor (Gn 22,20-24), seu irmão, apresentando o narrador a "origem" de Rebeca, a futura esposa de Isaac, vinculando-a por sua vez à linhagem de Set (Gn, 4,25) a progênie da História da Salvação, garantia de fidelidade a Iahweh e à Aliança já em processo. É bom observar aqui que a única porção de terra que Abraão possuiu como sua, adquirindo-a e pagando por ela, foi o terreno onde sepultou sua mulher Sara (Gn 23), cujo relato da compra mostra o ritual então em uso, que se pode até mesmo denominar de "escritura pública" da compra, tal como diz o narrador que "foi assegurado a Abraão por aquisição na presença dos heteus, e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn 23,18). A "porta da cidade" representava naqueles tempos o que hoje representam os cartórios de registro de aquisição de propriedades, ou seja, a publicização, que é o tornar de conhecimento público, geral, para não mais se revogar e reconhecendo-se então a tradição da propriedade.

A principal preocupação de Abraão era a Aliança como manifesta ao exigir sob juramento ("com a mão sob a coxa" Gn 24,2) para a escolha da noiva, que não fosse das "filhas dos cananeus, no meio dos quais habito, mas irás à minha terra natal e aos meus parentes e tomarás dali mulher para meu filho Isaac" bem como "não tirasse seu filho da terra onde morava, que era a propriedade que Deus prometera a sua descendência" (Gn 24,3-9). A narrativa da "conquista" da noiva para Isaac deve ser lida, não com os critérios da cultura de hoje, mas dentro das perspectivas do aculturamento de en-tão, num mundo ainda rude, selvagem e bárbaro, onde a sobrevivência se devia a detalhes hoje míni-mos, sem valor algum, mas naqueles tempos de uma imposição até mesmo insuperável.

A pretensão do narrador não se limita ao casamento de Isaac, mas destaca também a fé de Abraão que prevê a ajuda de Iahweh:

"O Senhor, Deus do céu, que me tirou da casa de meu pai e da terra da minha parente-la, e que me falou, e que me jurou, (...) ele enviará o seu anjo diante de si, para que to-mes de lá mulher para meu filho" (Gn 24,7).

Não é só isso. Destaca também que Iahweh realmente de tudo participa, atende e realmente faz com que a noiva seja encontrada na forma imaginada e pedida pelo servo, junto ao poço onde ela sacia sua sede, a dos animais e a da comitiva (Gn 24,12-14). Não pode ser simplesmente por coincidência ou por um golpe de sorte que era uma sobrinha de Abraão, cuja família acata o pedido e lhe entrega a filha para o casamento (Gn 24,10-61), percebendo os familiares que se tratava da vontade de Iahweh a que deveriam acatar, significando isso que partilhavam a mesma fé (Gn 24,51), satisfazendo assim à segurança necessária à Aliança. Quando o servo volta é recebido pelo próprio Isaac, que "saíra para prantear ('ou meditar' - são válidas as duas traduções) no campo", a quem "narra tudo que tinha acon-tecido com ele e Isaac introduziu Rebeca na tenda, e recebeu-a por esposa e a amou" (Gn 24,66-67). Ora, o pranto de Isaac leva à conclusão que Abraão morrera antes da chegada do servo, cumprida a missão, motivo porque presta contas a Isaac. Mas, também não é só isso. Narra dessa maneira que Isaac assumiu a Aliança, a quem "Abraão deu tudo o que possuía" (Gn 24,36 e 25,5). A morte de Abraão vem em seguida e em separado. É o modo como a Bíblia traz suas narrativas, terminando uma e mesmo que algo a tivesse de interromper costuma narrá-lo em separado.
Outros filhos de Abraão são apresentados destacando-se Madiã, na tribo de quem Moisés futu-ramente irá se abrigar fugindo do faraó do Egito (Ex 2,15). Enumeram-se vários nomes de povos des-cendentes dele demonstrando o quanto foi abençoado por Deus, destacando-se "doze chefes de outros povos" (Gn 25,16) na descendência de Ismael, tal como lhe prometera (Gn 17,20) e à Agar (Gn 16,10ss e 21,18), e a de Isaac, bem menor - só dois filhos (Gn 25,24ss). Vai se repetir com Isaac o mesmo drama por que passou seu Pai também em outros acontecimentos semelhantes, maneira de se demonstrar escrituristicamente a identidade de vida, de amadurecimento na fé e de missão (Gn 26,1-33). Frisa assim a esterilidade de Rebeca e a intercessão de Isaac por ela (Gn 25,21) pelo que gera dois filhos, cuja hostilidade se manifesta desde o útero:

"Ora, Isaac orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, porquanto ela era es-téril; e o Senhor ouviu as suas orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu. E os filhos lutavam no ventre dela; então ela disse: Por que estou eu assim? E foi consultar ao Se-nhor. Respondeu-lhe o Senhor: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas estranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o mais velho servirá ao mais moço. Cumpridos que foram os dias para ela dar à luz, eis que havia gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo, todo ele como um vestido de pelo; e chamaram-lhe Esaú. Depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; pelo que foi chamado Jacó. E Isaac tinha sessenta anos quando Rebeca os deu à luz" (Gn 25,21-26).

São Paulo verá nesse acontecimento a "figura" da conversão dos pagãos, tornando-se também "filhos da promessa" pela fé e não por qualquer obra anterior que a merecesse:

"Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas também a Rebeca, que havia con-cebido de um, de Isaac, nosso pai, pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. (...) Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé" (Rm 9,8-13.30).

É de se observar a esterilidade sempre presente nas mulheres dos Patriarcas, contrastando com a fecundidade ou bênção embutida no Protoevangelho (Gn 3,15) e na Promessa a Abraão de que "sua descendência seria como as estrelas do céu e como a areia do mar" (Gn 22,17; 15,5). Já se antevê que a História da Salvação é Obra exclusiva de Deus, o que se manifesta nesses pequenos detalhes da Sua Intervenção, em atendimento ao pedido do eleito, pois é com Isaac que a Aliança se confirma:

"E apareceu-lhe o Senhor e disse: Não desças ao Egito; habita na terra que eu te disser; peregrina nesta terra, e serei contigo e te abençoarei; porque a ti, e aos que descende-rem de ti, darei todas estas terras, e confirmarei o juramento que fiz a Abraão teu pai; e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu, e lhe darei todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra; porquanto Abraão obe-deceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis" (Gn 26,2-5).

"E  apareceu-lhe o Senhor na mesma noite e disse: Eu sou o Deus  de Abraão, teu pai; não temas, porque eu sou contigo, e te abençoarei e multiplicarei a tua descendência por amor do meu servo Abraão" (Gn 26,24).

E, prosseguindo a mesma missão, o mesmo culto tendo por centro o sacrifício:

"Isaac, pois, edificou ali um altar e invocou o nome do Senhor; então armou ali a sua tenda..." (Gn 26,25).

8. A ALIANÇA PROSSEGUE COM JACÓ, O PRIMOGÊNITO

Entre os institutos da Bíblia, cujo sentido se perdeu está também o da Primogenitura, que manifesta sua influência e observância desde as suas primeiras páginas. É o caso de Abel que "ofereceu um sacrifício a Deus dos primogênitos (ou 'primícias' como em algumas Bíblias) de seu rebanho e dos mais gordos" (Gn 4,4), enquanto Caim ofereceu "dos produtos da terra" (Gn 4,3). Porquanto a única diferença entre as ofertas seja esta dos primogênitos, não significando que Caim tivesse ofereci-do maus produtos, já se evidencia a presença de alguma influência cultural que nos foge, pois Deus "olhou para Abel e sua oferta e não olhou para Caim e sua oferta" (Gn 4,4-5). Também na relação ge-nealógica dos primeiros descendentes de Adão (Gn 5) e após a Torre de Babel (Gn 11,10-32) o nome do primogênito é o único mencionado, prosseguindo-se com a descendência dele. Mesmo em outras genealogias ele sempre ocupa o primeiro lugar (Gn 9,18-10,32).

A suspeita de que algo de imperioso existe vai se confirmando a partir de uma observação do narrador criticando o desprezo de Esaú por ela (Gn 25,34c) e da luta que trava com seu irmão Jacó, filhos de Isaac, e gêmeos, por causa dela (Gn 27,1-28,5). Além disso, Esaú toma por esposas duas pa-gãs da região (Gn 26,34). Tudo isso vai depor contra Esaú fazendo com que se justifique sua  perda para Jacó do direito de primogenitura, em tudo gerenciado pela própria mãe, Rebeca. Aconteceu que, em certa ocasião, Esaú, com fome, trocou com Jacó o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, por cujo absurdo é veementemente criticado pelo narrador (Gn 25,34). Claro que Rebeca tomando disso conhecimento, e também pelo desgosto por causa do casamento de Esaú com mulheres hetéias, passa a se dedicar mais ainda a Jacó, o seu já predileto (Gn 25,28). Assim, à promessa do pai em dar a Esaú a denominada "bênção da primogenitura", age disfarçando Jacó de maneiras a ludibriar Isaac, que já estava velho e sem visão (Gn 27,1-17). Jacó consegue assim receber a ambicionada e ir-reversível "bênção" (Gn 27,27-29) em lugar do irmão, que na verdade a havia desprezado e trocado com ele pelo prato de lentilhas.

A importância desse fato se prende às reações dramáticas que lhe sucedem, pelas quais se pode dimensionar o alcance cultural (Gn 27,30-45). Quando chega Esaú da caça onde buscara o "guisado a gosto do pai" (Gn 27,4) e é descoberta a substituição, "Isaac estremeceu tomado de enorme terror", declarando ainda que, apesar de assim concedida, "permanecerá abençoado" (Gn 27,33). Por sua vez " Esaú, ao ouvir as palavras de seu pai, gritou altíssimo com grande e extremamente amargurado brado, e disse a seu pai: Abençoa-me também a mim, meu pai! (...) ...E chorando prorrompeu em altos gritos" e planeja matar o irmão (Gn 27,34.38.41). Tem-se mais conhecimento da importância da instituição com a resposta de Isaac:

"Respondeu Isaac a Esaú: Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e todos os seus irmãos lhe tenho dado por servos; e de trigo e de mosto o provi. Que, pois, poderei eu fazer por ti, meu filho?" (Gn 27,37).

Já se percebe que um dos privilégios outorgados com a "bênção" é a chefia do clã ou da tribo, fato esse confirmado por outros trechos das Escrituras (1Cro 26,10), pelo que recebia "dupla porção da herança" (Dt 21,17) pela responsabilidade que assumia por todos os seus familiares e demais inte-grantes. O assunto voltará a ser abordado no decorrer do curso eis que outros elementos que entram na composição desse direito somente poderão ser examinados futuramente em confronto com outras instituições. Por enquanto é de se reter apenas o exposto.

Coerente com a bênção correspondente à primogenitura que proferiu, Isaac confia-lhe o desen-rolar da Aliança, não sem antes admoestá-lo quando às mulheres pagãs, ou cananéias. De certa manei-ra até se pode suspeitar de que todo o narrado tenha sido arquitetado pelo casal para "destronar" Esaú por se comprometer com as mulheres estranhas aos costumes israelitas, principalmente levando-se em conta a advertência feita em conjunto com a mesma bênção de Abraão:

"Isaac, pois, chamou Jacó, e o abençoou, e ordenou-lhe, dizendo: Não tomes mulher dentre as filhas de Canaã. Levanta-te, vai a Mesopotâmia, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá uma mulher dentre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça frutificar e te multiplique, para que ve-nhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua des-cendência contigo, para que herdes a terra de tuas peregrinações, que Deus deu a Abraão. Assim despediu Isaque a Jacó, o qual foi a Mesopotâmia, para a casa de La-bão, filho de Betuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú" (Gn 28,1-5).

Vê-se que quando ia para a Mesopotâmia, em busca de esposa e em fuga de Esaú, Jacó, como seus antepassados Abraão e Isaac, tem uma visão em que se lhe confirmam tanto a promessa como a Aliança:

"...por cima da escada estava o Senhor, que disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaac; esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e à tua descendência; e a tua descendência será como o pó da terra; dilatar-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul; por meio de ti e da tua des-cendência serão benditas todas as famílias da terra. Eis que estou contigo, e te guardarei onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; pois não te deixarei até que haja cumprido aquilo de que te tenho falado" (Gn 28,13-15).

Tal como com Abraão (Gn 18), com Isaac (Gn 26,2.24) ocorreu uma manifestação sensível de Deus, uma teofania, neste episódio da "escada' por cima da qual estava o Senhor" em que se profere a mesma bênção para a posteridade de Abraão e a mesma promessa da herança da mesma terra das suas peregrinações (Gn 12,7; 13,14-17; 22,17-18; 26,4.24), bem como a mesma resposta do Patriarca eri-gindo um lugar de culto acompanhado de um sacrifício, se bem que aqui com Jacó trata-se de uma libação e a unção de uma pedra erigida em cipo, muito usado naqueles tempos como testemunho ou prova de algum fato profano ou sagrado e religioso (Gn 31,45; Js 4,9.20; 24,26-27) e até mesmo para as coisas de Deus:

"Pois os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem cipos, e sem éfode ou terafins" (Os 3,4)

Israel é vide frondosa que dá o seu fruto; conforme a abundância do seu fruto, assim multiplicou os altares; conforme a prosperi-dade da terra, assim fizeram belos cipos" (Os 10,1)

Tirarei as feitiçarias da tua mão, e não terás adivinhadores; arrancarei do meio de ti as tuas imagens esculpidas e os teus cipos; e não adorarás mais a obra das tuas mãos" (Mq 5,12).

Pode-se até mesmo admitir a preferência de Jacó por este tipo de oferenda dado o seu caráter mais pacífico ("...homem tranqüilo, habitante da tenda" Gn 25,27c). Aqui com ele a teofania atinge um clímax com a presença da narrativa de uma "escada", como que aquela da Torre de Babel, aqui servindo de comprovação do elo de ligação entre os anjos que descem do céu para seu ministério no mundo, como interpretaram os Santos Padres e de que apesar da separação ou distância entre o céu e a terra, pode atingi-lo sempre, aquele que ama a Deus. Vê-se com facilidade que por Jacó viria o prosseguimento da História da Salvação que culminaria em Jesus Cristo, motivo por que se caracterizam a "promessa" e a "aliança" com Abraão, com Isaac e com Jacó (também em Gn 35,11-13 e 46,3-4), como
Messiânicas, e tal como seus antepassados faz do sacrifício o centro do seu culto, prometendo erguer no local um santuário para o que destinará o dízimo:

"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus. Jacó levantou-se de manhã cedo, tomou a pedra que pusera debaixo da cabeça, e a pôs como cipo; e derramou-lhe azeite em cima. E chamou aquele lugar Betel; porém o nome da cidade antes era Luz. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa de meu pai, e se o Senhor for o meu Deus, então esta pedra que tenho posto como cipo será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo" (Gn 28,17-22).

Jacó recebe de Deus tudo aquilo correspondente ao conteúdo da Aliança de Abraão, já se an-tevendo a confirmação da Bênção recebida de Isaac, contrariando assim uma opinião por demais gene-ralizada de que o ato de Jacó e Rebeca fosse condenável, daqueles que se recusam a ver na cultura dos antigos uma formação moral ainda rude e até mesmo rudimentar e selvagem. Mas, mesmo que assim não fora, não se pode esquecer que Esaú não deu à Primogenitura nem mesmo à Aliança os valores que mereciam: à Primogenitura por tê-la desprezado (Gn 25,32) e trocado por um prato de lentilhas com Jacó e à Aliança por contrair casamento com mulheres hetéias, pagãs, como já se viu amplamente. E as Escrituras não o condenam, ao contrário o louvam e respeitam:

"Foi ela ("a 'sabedoria") quem conduziu por veredas retas o justo ('Jacó') que fugia da cólera de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus e lhe deu a conhecer os santos; pro-porcionou-lhe êxito nos rudes labores e fez frutificar seus trabalhos. Esteve a seu lado contra a cobiça dos que o oprimiam e o enriqueceu. Protegeu-o contra os inimigos e o defendeu daqueles que lhe armavam ciladas. Atuou como árbitro a seu favor em rude combate, para ensinar-lhe que a piedade é mais poderosa do que tudo" (Sb 10,10-12)

A bênção de todos os homens e a aliança,  ele as fez repousar sobre a cabeça de Jacó. Confirmou-o nas bênçãos que eram dele, e concedeu-lhe o país em herança. E ele divi-diu-o em lotes"...(Eclo 44,23).

Até Jesus o aponta junto aos Patriarcas, na bem-aventurança da Vida Eterna:

"Digo-vos pois: Muitos virão do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus" (Mt 8,11).

Por outro lado, também Jesus Cristo usa a mesma imagem da sua visão, porém a si mesmo se referindo como a "escada", colocando-se como a união entre Deus e os Homens:

"E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem" (Jo 1,51). 


9. A ALIANÇA E AS DOZE TRIBOS DE ISRAEL (JACÓ)

Da mesma forma que Abraão e Isaac, Jacó também tem necessidade de amadurecimento e conscientização para o exercício da Aliança, aperfeiçoando-se para o seu prosseguimento e consecu-ção. Deus não faz exceções nem mesmo aos seus eleitos e, apesar de terem uma missão a cumprir, vi-vendo no mundo, têm de sofrer todas as conseqüências do pecado que lhe aparecem. Assim, Jacó parte, fugindo para a casa de Labão, o irmão de sua mãe Rebeca, e também em procura de uma mulher que fosse de sua parentela, tal como lhe aconselharam ambos os pais, tendo em vista o malogro que Esaú vai tentar corrigir tardiamente (Gn 26,34-35 e 28,6-9).

Seu encontro com Raquel, sua prima e pastora de ovelhas que as traz para beber água, se dá de imediato num poço (Gn 29,1-14), repetindo, pela presença de Deus dirigindo os acontecimentos, o mesmo que ocorreu quando da busca de uma mulher para Isaac. É conduzido para a casa do tio e lá fixa sua residência e passa a trabalhar, a ser explorado melhor dir-se-ia. Apaixona-se por Raquel e aceita trabalhar sete anos para então desposá-la. Mas, o sogro ardilosamente o desposa com Lia ao pretexto de que não poderia casar a mais nova e permanecer com a mais velha solteira. Descoberto o embuste, após o cerimonial concluído, introduzida a esposa em sua tenda à surdina, Jacó reclama mas acaba aceitando trabalhar mais sete anos para recebê-la daí a uma semana (Gn 29,14c-30). Aparece então outra vez a esterilidade das mulheres dos Patriarcas e vinculadas à História da Salvação, que só se tornavam férteis por uma ação especial de Deus, por ser o Único Autor da Salvação:

"Viu, pois, o Senhor que Lia era desprezada tornou-a fecunda; Raquel, porém, era es-téril" (Gn 29,31)

"Também lembrou-se Deus de Raquel, ouviu-a e a tornou fecunda" (Gn 30,22).

Dessa união lhe advieram doze filhos e uma filha (Gn 29,32-30,24 / 35,16-18), que deram ori-gem às doze tribos dos Filhos de Israel, o nome que Deus dará a Jacó (Gn 32,29; 35,9), donde vai se formar o Povo de Israel. Não há necessidade de se delongar no relato dos nascimentos de todos eles, ficando para cada participante o dever de ler aquilo que não for aqui exposto, completando seu conhe-cimento bíblico com seu próprio esforço, evitando-se que o curso seja passivo. Basta relatar os nomes dos filhos de Jacó, com os das mulheres e das concubinas que os geraram (Gn 35,23-26):

Vários elementos culturais já conhecidos se repetem, tanto a substituição da mulher estéril por sua serva para lhe dar filhos, como o fato da mulher mesma escolher um nome com um significado seu para o filho, manifestando-se assim o prosseguimento da sua luta contra a serpente, iniciada por Eva (Gn 3,15 / 4,25 - cfr. no Capítulo 1, sob o título O Protoevangelho). Jacó tinha em mira principal-mente a Alian&ccedi