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Aquela disposição de Deus em “plantar um jardim e nele colocar o Homem que criara” (Gn 2,8) não sofrera solução de continuidade e persiste ativo, apesar das conseqüências do pecado se manifestarem por toda a Criação. Mas, Deus é inexorável em seus desígnios, os quais, inicialmente, passam a tomar forma e vão se corporificar a partir de uma promessa que faz então a outro justo, Abrão, descendente de Sem (Gn 11,10-32), da linhagem de Set (Gn 5,3.6.30; 6,9-10).
Josué dirá, quando da conquista da Terra Prometida, que anteriormente “Abraão servira a ou-tros deuses...” (Js 24,2). Hoje, POVO tem o sentido peculiar de um agrupamento em uma determinada área, de pessoas que possuem a mesma cultura, a mesma história, a mesma organização, obedecem as mesmas leis e seguem costumes semelhantes. Antigamente, nos tempos bíblicos, não! Um povo se identificava por seu deus ou deuses. Acreditava-se em vários deuses e cada um ou mais deles tinha um agrupamento humano que o servia e era por ele ou eles protegido. Assim, cada clã tinha o seu deus ou deuses e o desvio de sua adoração e serviço significava o afastamento do "convertido", tal como as palavras acima indicam ter acontecido com Abrão. Havia sempre uma idéia subjacente de soberano ditando normas para seus súditos ou vassalos. Isto pode ser confirmado em outros trechos:
"Pois todos os povos andam, cada um em nome do seu deus; mas nós andaremos para todo o sempre em o nome de Yahweh nosso Deus" (Mq 4,5)
"Vinde, ó casa de Jacó, e andemos na luz de Yahweh. Mas tu rejeitaste o teu povo, a casa de Jacó; porque desde tempos antigos está cheio de adivinhos, como os filisteus, e fazem alian-ças com os filhos dos estrangeiros" (Is 2,5-6).
É de se concluir que houve então uma conversão de Abrão, passando a adorar e a servir a Iahweh, pelo que não pôde mais permanecer no mesmo clã:
“Iahweh disse a Abrão: ‘Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, e vai para o país que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, ...” (Gn 12,1-2).
E, em se convertendo, recebe de Deus uma Promessa:
“Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,2-3).
Deus separa Abrão do meio de seu povo, para prepará-lo e conduzi-lo a uma familiaridade e intimidade de vidas e a partir dele formar um povo, o Povo de Iahweh - Deus. Apesar de ser grande privilégio ouvir tais palavras, o obedecê-las foi-lhe sobremaneira penoso, heróico e incomum, verda-deira provação. Exigiu na verdade enorme esforço e abnegação, que até mesmo desguarnece cultural-mente Abrão e a sua família. Afastando-se de seus iguais, de sua família, de seus parentes, de seus amigos e de sua estabilidade econômica e tribal, fica humanamente desprotegido e expõe-se à toda a sorte de dificuldades, comprometendo até mesmo a própria sobrevivência. Naquele tempo afastar-se desses condicionamentos culturais era ficar sujeito até mesmo à morte, pelo abandono entre estranhos. Era a insegurança total! Mas, o seu papel na História da Salvação se destinava, a partir de um especial chamamento, a uma especial eleição. Abandona as divindades pagãs e a idolatria, converte-se a Iahweh, que o toma para dele formar um Povo, o Povo de Iahweh. Não há eleição ou vocação sem motivo, apenas por diletantismo ou sem uma missão específica. Caberia ao Povo advindo de Abrão reconduzir o Homem para a vida no Paraíso Perdido, ao Jardim de Deus, a ser significada na Terra Prometida, agora a Abrão (Gn 12,7.14-17), futuramente ao Povo de Deus (Ex 3,8), para aquela vida em comunhão e intimidade perdidas com a Queda Original, tal como Jesus revelar-nos-á:
"...hoje estarás comigo no PARAÍSO" (Lc 23,43).
Humanamente falando, não é outro o Plano de Deus para a libertação do Homem das desastro-sas conseqüências do seu afastamento da sua original participação na vida divina. É um ato gratuito e fiel de Deus, fruto de Sua Misericórdia e Justiça, uma coerência dinâmica que Lhe é imanente, sem nenhum mérito do Homem. A vocação, a eleição e a missão são gratuitas, às quais Deus somente su-bordina a Fé, condição de uma entrega incondicional e obediente, resposta natural do Homem, intuiti-va mesmo, em direção ao que Deus lhe oferece:
"Pela FÉ Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela FÉ peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas..." (Hb 11,8-9)
"Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí, perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência; e sem se enfraquecer na fé, considerou o seu pró-prio corpo já amortecido, pois tinha quase cem anos, e o amortecimento do ventre de Sara; contudo, à vista da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para o fazer. Pelo que também isso lhe foi imputado como justiça" (Rm 4,17-20).
“...cumular-te-ei de bênçãos e farei a tua posteridade numerosíssima como as estrelas do céu, e como a areia da praia do mar..., e na tua descendência dir-se-ão benditas todas as nações...” (Gn 22,17-18).
Abandonando tudo, toma a sua mulher, seu sobrinho Ló, com tudo o que possuía, e foi para a terra de Canaã, terra que era destinada "à tua descendência":
"Partiu, pois Abrão, como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. Tinha Abrão se-tenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã; e foram à terra de Canaã. Passou Abrão pela terra até o lugar de Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo estavam os cananeus na terra. Apareceu, porém, o Senhor a Abrão, e disse: À tua descendência darei esta terra. Abrão, pois, edificou ali um altar ao Senhor, que lhe aparecera. Então passou dali para o monte ao oriente de Betel, e armou a sua tenda, ficando-lhe Betel ao ocidente, e Hai ao oriente; também ali edificou um altar ao Senhor, e invocou o nome do Senhor" (Gn 12,4-8).
Os livros da Sagrada Escritura não
foram escritos especialmente para nós, mas para os Israelitas do
tempo e resumidamente, os quais conheciam os fatos e acontecimentos com
os detalhes culturais da época, e se destinavam à finalidades
as mais das vezes litúrgicas. Eram apenas auxiliares à memória
ou recordação, dispensando-se os pormenores já conhecidos.
Este trecho é um exemplo característico disso: Abrão
ao percorrer a área que Deus lhe prometera, procura os "lugares
altos", sob uma árvore, um carvalho, onde os antigos cultuavam os
seus deuses, sacrificavam e se doutrinavam, para ali erguer um altar e
invocar o Senhor, e satisfazer as particularidades referentes a um sacrifício,
desde então o centro do culto. Abrão erradica os cultos pagãos
ao "edificar um altar ao Senhor, e invocando o nome do Senhor", continuando
assim a "invocar o Senhor" como se iniciou com Enós, o filho de
Set (Gn 4,26).
2. ABRAÃO NO MUNDO DE ENTÃO
Prosseguindo a narrativa registra-se um episódio que mostra as condições culturais do tempo em que Abrão começa a sua "peregrinação". Mostra-se outra conseqüência do pecado: "era grande a fome na terra" (Gn 12,10), e Abrão desce ao Egito, o celeiro do mundo de então, em busca de sobrevivência:
"Perto de entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: “Eu sei que és bonita, vendo-te, os egípcios dirão ‘esta é a mulher dele’ e matar-me-ão, conservando-te com vida. Dize, te peço, que és minha irmã, para que me tratem bem por tua causa e graças a ti minha vida seja salva”. Quando Abrão entrou no Egito, os egípcios viram que sua mulher era ver-dadeiramente muito bonita. Ao vê-la, os oficiais do Faraó a elogiaram muito diante dele pelo que ela foi levada para o palácio do Faraó. Quanto a Abrão, foi muito bem tratado por causa dela, ganhando ovelhas, bois e jumentos, escravos e escravas, mulas e came-los" (Gn 12,11-16).
Essa atitude de Abrão assusta por demais, principalmente o cristão que não pode concordar com essa entrega da esposa para ser levada ao harém do faraó. Aqui também se impõe a necessidade de se deslocar mentalmente ao tempo do acontecido e analisá-lo como então, não como hoje. 0ra, Abrão estava consciente de sua missão e detentor de uma promessa de Deus, a que tinha de corresponder eficazmente, ao que se aliam várias outras situações peculiares. Uma delas é a da luta pela so-brevivência num país hostil e de cultura diferente, acontecendo exatamente o que Abrão havia previsto e temido, pelo que teve sua vida não somente poupada mas enriqueceu-se "por causa dela, ganhando ovelhas, bois e jumentos, escravos e escravas, mulas e camelos" (Gn 12,16). 0utra delas é a inexistên-cia do mesmo conceito moral uniforme e organizado que temos hoje, além de idêntica e adequada hie-rarquia de valores, mas normas de conduta e comportamento as mais das vezes isoladas e rudimenta-res, instintivas mesmo, ditadas pela sobrevivência. 0 que nos impõe é não o condenar pelas nossas leis morais, já que se manifestava uma das conseqüências do pecado original, sempre em conflito com o "justo", tateando e debatendo-se, num mundo confuso e desordenado. Conclui-se que houve uma in-tervenção de Deus em defesa da integridade ameaçada de Sarai, protegendo-a, porque "o Senhor feriu o faraó e sua corte com grandes flagelos por causa de Sarai, esposa de Abrão" (Gn 12,17 / Gn 20,4.14.16).
Este fato vai se repetir igualmente em Gerar, com Abimelec (Gn 20), bem como a intervenção de Deus, salvaguardando de qualquer violação a integridade de Sarai (Gn 12,17 / 20,3.4.14.16), e em defesa do casal, protegendo e tutelando seus eleitos, uma vez que Sarai era "meia-irmã" dele, filha do mesmo pai se bem que de mãe diferente (Gn 20,12-13). O que se buscava era livrá-los da morte em vista da missão a que os elegera, pelo que, tal como no Jardim do Éden, a proteção de Deus, que "fez para eles túnicas de peles e os vestiu" (Gn 3,21), se repete. 0s desígnios de Deus são irreversíveis, e para conduzir o Homem ao Paraíso, vai formar um povo a partir de Abrão, que sai do Egito rico (Gn 13,2), retornando à Terra de Canaã, "ao lugar onde anteriormente erigira um altar, e ali invocou o Se-nhor" (Gn 13,4). De novo o sacrifício como centro do culto a Deus e da vida do Patriarca. Da mesma maneira que ocorreu com Abrão, o povo dele advindo também irá, pelo mesmo motivo da fome, para o Egito e de lá também será expulso rico, pelo faraó (Gn 15,13 / Ex 12,36.51).
Surge sério problema entre os pastores de Abrão e os de Ló (Gn 13,5-12), tendo em vista difi-culdades com o pastoreio em virtude da exiguidade das pastagens, insuficientes para a movimentação de ambos os rebanhos. Abrão não se deixa perturbar, e em nome da paz deixa ao sobrinho a faculdade da escolha do local que melhor lhe servisse. Aparece de novo o "justo" a se debater num mundo que lhe é hostil, atingindo até mesmo a sua vida familiar, por circunstâncias advindas do desequilíbrio rei-nante na natureza em conseqüência do pecado, bem como da agressividade até mesmo de seus pasto-res com os de membro de sua própria família. Não é outro o motivo por que o narrador inclui aqui esse episódio, em virtude do que Abrão permanece na Terra de Canaã que lhe foi prometida, enquanto Ló vai morar numa "cidade", como já se viu, desde Caim, vista como lugar de perdição:
"Abrão permaneceu no país de Canaã, enquanto Ló se estabeleceu nas cidades do vale e armava suas tendas até Sodoma. Ora, os habitantes de Sodoma eram muito perversos e pecavam gravemente contra o Senhor" (Gn 13,12-13).
Abrão é novamente premiado por sua fé, bem evidenciada pelo modo pacífico de contornar e solucionar a divergência, sem perder ao menos de leve o equilíbrio, mesmo sofrendo a injustiça do egoísmo de Ló, escolhendo a melhor porção (Gn 13,10-12), ficando-lhe a da Promessa, pelo que Deus a ratifica:
"...e à "tua descendência" para sempre" - São Paulo revela a existência neste trecho de um anúncio de Cristo:
"Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à descendência dele. Não diz: “e a teus descendentes”, como se fossem muitos, mas fala de um só: e a tua descendência que é Cristo" (Gl 3,16).
Já se percebe que na realidade Cristo é a razão primeira e única das Escrituras Sagradas, e que o Antigo e o Novo Testamentos na verdade não passam de um só, o anunciado naquele é cumprido neste, além da clara presença de dificuldades inúmeras advindas dos desencontros causados pelas con-seqüências do pecado em toda a criação que irá sanar:
"Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa da-quele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora" (Rm 8,19-22).
Abrão se depara com outra situação de fato, uma guerra entre cinco cidades em virtude do que Ló com as suas posses é levado como parte do saqueado de Sodoma e Gomorra pelos vencedores (Gn 14,1-12). Avisado, Abrão vai em socorro do sobrinho, com um grupo de apenas trezentos e dezoito homens, liberta-o e a todos os prisioneiros bem como recupera todos os bens saqueados. Aparece aqui o justo em luta com o mundo que lhe é totalmente avesso, onde não se porta como um covarde nem foge à luta. Numa espécie de guerrilha ("à noite") vence e liberta tudo e todos, além do seu sobrinho com seus pertences (Gn 14,15-16). O rei de Sodoma lhe dá todos os bens e reclama as pessoas liber-tadas. Aparece então uma figura misteriosa por demais:
"Ora, Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus Al-tíssimo; e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Cria-dor dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14,18-20).
Porém, o fato de Abrão receber dele uma bênção e pão e vinho, como oferendas de sacrifício, e entregue o dízimo dos despojos advindos pela vitória, evidenciam a identidade de uma fé comum:
"Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. (...) Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. (Sl 110,1-4).
"Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando este regressava da matança dos reis, e o abençoou, a quem também Abraão separou o dízimo de tudo sendo primeiramente, por interpretação do seu nome, rei de justiça, depois também rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhan-te ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre. Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo dentre os melhores des-pojos (...) Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior". (Hb 7,1-7).
Vê-se que o Antigo Testamento transborda Cristo desde as primeiras narrativas, prefigurando-O em quase todos os personagens que aparecem. Assim Melquisedec "é feito semelhante ao Filho de Deus", e tal como Ele "permanece sacerdote para sempre". É que a família ou tribo a que Jesus per-tencia, Judá, segundo a sua genealogia, não fora destinada ao exercício do sacerdócio, mas a tribo de Levi (Ex 29 / Nm 3,5+ e 8,14+). Isso é o que diz a Epístola aos Hebreus:
"E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar os dízimos do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que estes também tenham saído dos lombos de Abraão; mas aquele cuja genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou ao que tinha as promessas" (Hb 7,5-6).
"e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14,19-20).
Prosseguindo a narrativa vê-se Abrão novamente se colocando em contradição com o mundo, rejeitando os despojos a que tinha direito e de boa vontade oferecidos, num claro reconhecimento de que os merecera.
"Então o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas; e os bens toma-os para ti. Abrão, porém, respondeu ao rei de Sodoma: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio, nem uma correia de sapato, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somente o que os mancebos comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; que estes tomem a sua parte" (Gn 14,21-24).
Não há dúvida alguma de que os fatos acontecidos geraram séria dificuldade em Abrão, que acontecem sempre com aqueles eleitos de Deus, colocados que são em posição não muito sintonizada com o mundo que os cerca, pelo que o próprio Deus o busca fortalecer:
"Depois destes acontecimentos veio a palavra do Senhor a Abrão numa visão, dizendo: Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo, o teu galardão será grandíssimo. Então disse Abrão: Ó Senhor Deus, que me darás, visto que morro sem filhos, e o herdeiro de mi-nha casa é o damasceno Eliezer? Disse mais Abrão: A mim não me tens dado filhos; eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro" (Gn 15,1-3).
Abrão está livre e desapegado dos bens materiais, é o que demonstram a sua atitude com refe-rência às pastagens reclamadas por Ló e aqui aos despojos a que tinha direito, mas está consciente de sua eleição e a quer ver realizada. Mescla ainda à Obra de Deus suas providências humanas e não se curva a nada, buscando apenas a vontade de Deus. Nem mesmo se deixa dominar pela cobiça e ambi-ção, já se manifestando livre de uma das primeiras conseqüências do rompimento do Homem com Deus, fruto do primeiro lance do orgulho humano. Já se libertara por primeiro do apego aos bens como um sentimento de segurança, deixando-o repousar apenas em Deus. Demonstra a sua condição de livre, libertando os seus semelhantes e não se apegando aos despojos, nem humanos nem materiais. Só quem é livre liberta. Só liberta da cobiça e ambição quem é livre da cobiça e ambição. Só liberta do pecado quem é livre do pecado. Ai Abrão é "pré figura" de Cristo, eis que Cristo liberta do pecado por ser livre do pecado.
A própria Bíblia quase sempre fornece os subsídios para se compreender alguma obscuridade que apareça, tal como aqui a causa da reclamação de Abrão. Num mundo que lhe era terrivelmente hostil, lutando com todas as suas energias e usando de toda a paciência e controle possíveis, ainda não vira se concretizar a Promessa que Deus lhe havia feito de que "toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendência para sempre" (Gn 13,14-18). Abrão não fora assaltado por aquela dúvida que contradiz a fé. Nunca! Foi uma espécie de indecisão que lhe imprimiu a natureza, confusa ao avaliar apenas as condições humanas, enfraquecidas pelas conseqüências do pecado original, em confronto e em avaliação real em face da entrega incondicional nas mãos de Deus que operava.
Tendo Deus lhe prometido dar e à descendência dele a terra em que peregrinava, viu que nessa promessa estava embutida a geração de filhos dele com sua mulher Sarai, e até aquele momento não vieram. É claro que sentiu dificuldades em compreender a situação e assim "temeu", vindo Deus em seu socorro, após ouvir que "morro sem filhos", e a quem deixar a herança de Deus:
"Ao que lhe veio a palavra do Senhor, dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas entranhas, esse será o teu herdeiro. Então o levou para fora, e disse: Olha agora para o e conta as estrelas, se as podes contar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência" (Gn 15,4-5).
Era a recompensa da renúncia, daquela renúncia de si mesmo que convulsionou e impulsionou a História da Salvação, dessa História que foi e está sendo escrita exclusivamente por Deus, que pela Aliança refaz o mesmo apelo do Éden ao coração do Homem. Ao chamado de Deus, Abrão responde, após tão convulsionada esperança, mostrando o sinal indelével que marcará a Obra da Redenção, a FÉ:
"Abrão creu em Deus, e isto foi-lhe creditado como justiça" (Gn 15,6).
O sentido aqui é o que se lê: pela fé que teve a sua conta com Deus foi quitada. Assim, a Fé de Abrão que lhe valeu a "justificação" e o tornar-se "o Pai de todos os crentes" (Rm 4,11), serve de mo-delo perene para todos os fiéis de todos os tempos
"Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaac e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidade que tem os fundamentos, da qual o arqui-teto e edificador é Deus" (Hb 11,8-10).
Também São Tiago na sua Epístola vai a ela se referir, para vinculá-la à necessidade de expres-são em obras para não ser uma "fé morta":
"Vês que a fé
cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada;
e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão em Deus, e isso
lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus" (Tg
2,22-23).
3. A ALIANÇA ESBOÇADA
Abrão prossegue apresentando as suas dificuldades a Deus com toda a franqueza e liberdade que caracterizam uma amizade profunda e Deus por sua vez o vai robustecendo e amadurecendo na fé:
"Disse-lhe mais: Eu sou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra em herança. Ao que lhe perguntou Abrão: Ó Senhor Deus, como saberei que hei de herdá-la? Respondeu-lhe: Toma-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. Ele, pois, lhe trouxe todos estes animais, partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas as aves não partiu. E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as enxotava. Ora, ao pôr do sol, caiu um profundo sono sobre Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trevas. (...) Quando o sol já estava posto, e era escuro, eis um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre aquelas metades. Naquele mesmo dia fez o Senhor uma Aliança com Abrão, dizendo: Á tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates; e o queneu, o quenizeu, o cadmoneu, o heteu, o perizeu, os refains, o amorreu, o cananeu, o girgaseu e o jebu-seu" (Gn 15,7-12.17-21).
Para melhor compreensão separamos os versículos 13-16 que anuncia um fato a que já nos re-ferimos no comentário anterior: a identidade de acontecimentos com o povo advindo de Abrão no Egito:
"Então disse o Senhor a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendência será peregri-na em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens. Tu, porém, irás em paz para teus pais; em boa velhice serás sepultado. Na quarta geração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia" (Gn 15, 13-16).
Esse episódio de repartir animais em duas partes, nos é por demais estranho e incompreensível. Por isso dissemos acima e na Introdução que a Bíblia não foi escrita especificamente para nós, mas para pessoas que tinham familiaridade cultural com o acontecimento e conheciam detalhadamente to-dos os fatos. Vamos procurar esclarecer a situação partindo da própria Bíblia, segundo a qual, referin-do-se ao mesmo ritual:
"Entregarei os homens que transgrediram a minha Aliança, e não cumpriram as palavras da Aliança que fizeram diante de mim com o bezerro que dividiram em duas partes, passando pelo meio das duas porções - os príncipes de Judá, os príncipes de Jerusa-lém, os eunucos, os sacerdotes, e todo o povo da terra, os mesmos que passaram pelo meio das porções do bezerro, entregá-los-ei, digo, na mão de seus inimigos, e na mão dos que procuram a sua morte. Os cadáveres deles servirão de pasto para as aves do céu e para os animais da terra" (Jr 34,18-20).
Verifica-se pelas palavras acima
do Profeta Jeremias que se trata de um juramento a cujo sacri-fício
eram entregues os que não o cumprissem, donde o pavor de Abrão,
ouvindo uma referência futu-ra de Deus ao povo a que dará
origem, pelo que teme supondo referir-se a ele, apesar de somente se evidenciar
a presença de Deus significado no fogo a cruzar os animais oferecidos.
É que naquele ceri-monial Deus realmente incluía "a sua descendência"
(Gl 3,8), Jesus Cristo, que iria sofrer a
punição pela original violação humana. Mesmo
assim Abrão é partícipe da Aliança de Deus
cujo início já se concretiza, com uso do fogo já representando
a presença de Deus em várias etapas da História da
Sal-vação (Ex 3,2; 13,21; 19,18).
Fica-lhe claro pelo juramento a vontade de Deus em dar-lhe uma des-cendência
numerosa como as estrelas do céu, e a quem daria aquela terra em
que peregrinava.
Passam-se dez anos e fica positivado que
Sarai era estéril, a quem naturalmente teria sido nar-rada esperançosamente
a promessa, e ambos encontram então uma maneira de resolvê-lo
com um arti-fício, como sói acontecer quando se pretende
atender aos desígnios de Deus com uma solução huma-na:
"Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Tinha ela uma serva egípcia, que se chamava Agar. Disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; talvez eu possa ter filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, sua serva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrão ter habitado dez anos na terra de Canaã. E ele conheceu a Agar, e ela concebeu..." (Gn 16,1-4a).
Pelos costumes de então os
filhos assim gerados eram considerados filhos de Sarai, com o que satisfar-se-ia
a promessa de Deus, há dez anos passados. Após o engravidamento
de Agar, vários fatos ocorrem, característicos da cultura
da época, mostrando que apesar do "concubinato" de Abrão
com ela, Sarai não perdera sua condição de legítima,
chegando, conforme exigira de Abrão, a oprimir de tal forma sua
escrava que ela fugiu. No deserto em desespero tem a visão do anjo
que determina o seu retorno e submissão à Sarai, com a promessa
de fazer de seu filho Ismael, como será chamado, um grande povo
(Gn 16,4b-16).
4. A ALIANÇA ESTABELECIDA
Para Abrão e Sarai a condição básica para a grande posteridade dele ficara então satisfeita com o nascimento de Ismael (Gn 16,15-16). Deus então se manifesta e dá à Aliança uma nova dinâmica, até agora não vista:
"Quando Abrão tinha noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: Eu sou El-Shaddai (=o Deus Todo-Poderoso); anda em minha presença, e sê perfeito; e fir-marei a minha Aliança contigo, e sobremaneira te multiplicarei" (Gn 17,1).
Até então a Aliança
era unilateral, sem nada exigir da conduta e comportamento do Homem a não
ser alguma forma de expressão ritual qual aquela de "não
comer o sangue dos animais" da Aliança do Dilúvio (Gn
9,4). Desta vez exige e promete: "anda em minha presença,
e sê perfeito; e firmarei a minha Aliança contigo, e sobremaneira
te multiplicarei", e passa a ser um acordo entre duas vontades conscientes.
Busca-se assim recuperar para o Homem a "imagem e semelhança de
Deus" (Gn 1,26), que "deverá refletir
como num espelho" (2Cor 3,18), a "perfeição"
divina, que não se confunde com a "corrupção" advinda
do mundo profano. "Andar na 'presença' de Deus", diferentemente
de Adão e Eva que tiveram de se 'esconder' por causa da desordem
que cometeram, é cumprir consciente e fielmente a Sua Santa Vontade,
não causando motivo, por sua conduta, para dele se afastar. Ora,
isso exige fé e tomada de consciência maiores que o instinto
de sobrevivência num mundo hostil e des-viado do seu Criador. Estamos
diante de uma das manifestações majestosas e solenes de Iahweh
(="teofania") que aqui recebe o nome de El-Shaddai (Ex
6,3 = "O Todo Poderoso"), tanto que: "...Abrão se prostrou
com o rosto em terra..." (Gn 17,3a). O tempo
de treze anos decorrido desde o nascimento de Ismael faz admitir e supor
algum motivo sério necessário à Aliança, apenas
esboçada e no seu nascedouro. Tudo indica que a solução
humana de Abrão e Sarai com a geração de Ismael exi-ge
um amadurecimento de ambos no conhecimento de Deus, eis que demonstraram
com seu gesto não compreender-LHE o desígnio, quanto às
características e dimensões dela:
"...e Deus falou-lhe,
dizendo: Quanto a mim, eis que a minha aliança é contigo,
e serás pai de muitas nações; não mais serás
chamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois por
pai de muitas nações te hei posto; far-te-ei frutificar sobremaneira,
e de ti farei nações, e reis sairão de ti; estabelecerei
a minha aliança contigo e com a tua descendên-cia depois de
ti em suas gerações, como aliança perpétua,
para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti.
Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a ter-ra
de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua
possessão; e serei o seu Deus"
(Gn 17,3b-8).
Quando Abrão "prostra com o rosto em terra" (Gn 17,3) demonstra eficazmente a sua adesão e fé incondicional em Deus, bem como a aceitação dos termos da Aliança, agora com a firme e incondi-cional exigência de obediência, culto e adoração exclusivos, e pelo próprio Deus traduzido num sinal, o da circuncisão:
"Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, guardarás a minha aliança, tu e a tua des-cendência depois de ti, nas suas gerações. Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: todo varão dentre vós será circuncidado. Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal de aliança entre mim e vós" (Gn 17,9-11).
Tão fundamental é essa instituição que o não cumprimento dela determina que "...o que não se circuncidar na carne do prepúcio, será extirpado do seu povo; violou a minha aliança" (Gn 17,13b-14). Todos os homens estavam subordinados à exigência, até mesmo escravos e estrangeiros (Gn 17,12-14). Deus que lhe muda o nome de Abrão para Abraão (= "pai de uma multidão"), também muda nome de Sarai (= "minha princesa") para Sara (= "princesa"). Quando Deus dá o nome a alguém, elegendo-o para uma missão, assume-lhe o domínio, "...chamei-te pelo nome, meu tu és" (Is 43,1c):
"Disse Deus a Abraão: Quanto a Sarai, tua, mulher, não lhe chamarás mais Sarai, po-rém Sara será o seu nome. Abençoá-la-ei, e também dela te darei um filho; sim, abençoá-la-ei, e ela será mãe de nações; reis de povos sairão dela". "Ao que se prostrou Abraão com o rosto em terra, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara, que tem noventa anos?" (Gn 17,15-17).
A grande dificuldade de Abraão agora se concretizava, eis que o tempo passava, urgia e não acontecia, e agora, numa idade avançada por demais, quando não mais se podia esperar uma gravidez normal de Sara, Deus vem anunciá-la. Por isso Abraão ri! Não um riso de dúvida, riu crendo, possuí-do por grande alegria e achando graça pelo contraste com que os fatos se manifestavam. No máximo só poderia ocorrer aquela indecisão que lhe teria impresso a natureza confusa ao avaliar apenas ambas as condições humanas, enfraquecidas pelas conseqüências do pecado original em confronto com a rea-lidade. Renúncia de si que se acentua, indício de maturidade religiosa, no marco inicial da História da Salvação, história que foi e está sendo escrita exclusivamente por Deus, seu único Autor. São desses momentos em que Deus coloca os seus eleitos face a face com a realidade de Seus Planos e da Missão a que foram eleitos, provando-os e amadurecendo-os para tal. Pelos costumes de então Ismael era fi-lho de Sara, e sentindo-o como que rejeitado Abraão se preocupa, quer se esclarecer e pede por ele: "depois disse Abraão a Deus: Oxalá que viva Ismael diante de ti!" (Gn 17,18), como se pedisse que se lembrasse dele também, que era outro filho seu:
" E Deus lhe respondeu: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe chamarás Isaque; com ele estabelecerei a minha aliança como aliança perpétua para a sua descendência depois dele. E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e multiplicá-lo-ei grandemente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação. A minha aliança, porém, estabelece-rei com Isaque, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro. Ao acabar de falar com Abraão, subiu Deus diante dele" (Gn 17,19-22).
Deus insiste em seu desígnio ouvindo o pedido dele pelo filho e reafirmando a continuidade da Aliança com um filho de Sara, não com o da escrava. Pelo que Sara também rirá quando ouvir o mesmo anuncio de sua gravidez (Gn 18,9-15) e quando der à luz e o nome ao filho, significado no nome Isaac (Gn 21,6), que é derivado da raiz hebraica para a palavra riso. Assim explicado o riso ai mencionado, verifica-se que não se duvidou de Deus um instante sequer, tal como São Paulo esclare-ce, evidentemente da concepção tradicional israelita:
"...a fim de que a promessa seja firme a toda a descendência, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós. Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas na-ções, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência; e sem se enfraque-cer na fé, considerou o seu próprio corpo já amortecido, pois tinha quase cem anos, e o amortecimento do ventre de Sara; contudo, à vista da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estan-do certíssimo de que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para o fa-zer" (Rm 4,17-21).
Houvesse alguma dúvida, Abraão e Sara teriam recebido de Deus o mesmo tratamento dado a Zacarias, o Pai de João Batista, que ficou mudo como castigo de sua descrença (Lc 1,19-20). Por fim, Abraão imediatamente parte para o cumprimento da Aliança e circuncida a todos os homens, a partir de si mesmo e de seu filho Ismael (Gn 17,23-27). Essa instituição será observada pelos seus descen-dentes de maneira tão severa e séria que separar-se-á o mundo para eles em "circuncisos" e "incircun-cisos", e quando do advento do cristianismo será a causa das crises iniciais de conflito do judaísmo com a nova doutrina de Cristo.
A Aliança com o Homem é sempre um apelo de amor e comunhão de vidas que parte de Deus, pois que por si só o Homem se tornou totalmente impotente para fazê-lo, nada podendo conseguir por causa do abismo erguido entre ambos pelas conseqüências dramáticas ocasionadas pelo pecado origi-nal. Daí porque somente por ato livre de Deus é que se pode conseguir seu cumprimento e eficácia, donde ser obra exclusiva dEle. Amadurecido na fé e por ela justificado Abraão torna-se "Amigo de Deus" (2Cro 20,7; Jdt 8,22; Is 41,8; Dn 3,35; Tg 2,23), vivendo então em Sua intimidade e comunhão. Por isso, recebe a visita de três anjos e os reconhece (Gn 18,1-33), considerados pelos Santos Padres dos primórdios do cristianismo como "figuras" ou "anúncios" da Santíssima Trindade. É que, quando a tradução não é "melhorada" pelo tradutor (que infelizmente imprime à tradução sua opinião), os três são denominados ora em conjunto (Gn 18,1), ora dois (Gn 18,20-22), ora um deles (Gn 18,23-33) pelo singular "Meu Senhor", "tratando-os, de qualquer dos modos em que se apresentem, como a uma só pessoa". São dois os motivos para a visita: primeiro, ratificando os termos da Aliança contraída, o anúncio da gravidez de Sara para o ano próximo. É quando chega a vez de Sara rir, tal como já nos referimos acima, mais de surpresa e contentamento, nunca de dúvida de fé, apesar do anjo insistir que "não há nada difícil para Deus" (Gn 18,14). O segundo motivo foi comunicar a destruição de Sodoma e Gomorra, pois considera-o tão "amigo" que dele não pode esconder "o que estou para fazer" (Gn 18,17). Mas, tal comunicação tem outra finalidade, mais ligada à Aliança:
"E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e por meio dele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem fa-lado" (Gn 18,17-19).
É que a Aliança não se confinava a Abraão apenas, mas teria prosseguimento em todos os seus termos com os seus descendentes por meio dos quais "virá a ser uma grande e poderosa nação, e serão benditas todas as nações da terra", desde que "seus filhos e a sua casa depois dele guardem o cami-nho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado". Por isso a Aliança é conhecida também por Testamento, por causa da continuidade do "legado" nas gerações subsequentes. Já se anuncia o prosseguimento e a consecu-ção da Obra da Redenção do Homem na descendência de Abraão - Jesus Cristo (Gl 3,16 / Mt 1,1):
"Ora, a Escritura, prevendo que Deus havia de justificar pela fé os gentios, previamente anunciou a boa nova (= o "Evangelho") a Abraão, dizendo: Em ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são da fé são abençoados com o crente Abraão" (Gl 3,8-9).
Dada a notícia, afirma Deus
que "descerei para ver se as suas obras chegaram a ser como o clamor que
chegou até mim, e, se não, o saberei", evidenciando pelo
"descerei" o sobrenatural do quadro apresentado, tendo Abraão sido
elevado até Ele. E é nesse estado sobrenatural que Abraão
vai demonstrar a sua "elevação" espiritual (Gn
18,22-33), quando aparece que "quanto mais Amigo de Deus, mais amigo
dos homens". É o efeito natural da caridade, "o Amor de Deus que
se "derrama no coração do Homem pela Graça" (Rm
5,5), o estado da "elevação" de Abraão, "justificado
pela sua fé". Vai regateando com Deus, paulatinamente se esforçando
para salvar a tudo e a todos da punição iminente e justa.
Intercede habilidosamente e com toda a humildade possível representada
pelo modo de se expressar próprio do tempo, cuidadosa e lentamente
vai decrescendo o número de pessoas boas que possivelmente possam
existir nas duas cidades até um mínimo de dez, bem razoável,
ficando claro que existisse uma pequena quantidade de justos nas localidades,
Deus as pouparia por causa deles.
Prefigura esse quadro a Redenção
que será operada por Jesus Cristo com a Nova Aliança (Lc
22,20), unindo definitivamente o Homem a Deus na Sua Igreja, a comunidade
de seus discípulos refle-tindo a Graça e a Misericórdia
de Deus no mundo, que "perdoa a todo o lugar em atenção a
eles" (Gn 18,26.28.30.31.32), "justificados"
pelo Sangue do Cordeiro de Deus. Essa comunhão de afetos entre Deus
e Abraão, entre Deus e um Homem, é o arquétipo da
Caridade Cristã, tornada virtude humana na ação, mas
de fonte impulsionadora divina. Tal com lá, a caridade é
a presença de Deus entre os homens, em amizade e íntima comunhão
de vidas, não mais entre Criador e Criatura, mas entre Pai e Filho,
que se difunde por mediação e eleição dos "justos"
a todos os outros, bons e maus. Repete-se sempre a presença do "justo",
do que faz a vontade de Deus, vivendo nos "caminhos do Senhor, prati-cando
a justiça e o direito" (Gn 18,19).
Caridade é isso, é viver a vontade de Deus para o Homem;
começa em Deus e explode radiante de beleza nos homens. O Homem
não a cria, é fruto do amor e misericórdia de Deus,
propagando-se entre os homens assim como a fé e a esperança.
A caridade parte de Deus e não se confunde com nenhuma ação
humana, não se exaure na esmola nem em nenhuma assistência
social e supera qualquer atividade por mais humanitária que seja.
A caridade é a expressão da Aliança de Deus com o
Homem:
"Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio, de modo que o justo seja como o ímpio; esteja isto longe de ti. Não fará justiça o juiz de toda a terra?" (Gn 18,25)
A confiante e diplomática
intervenção de Abraão dá ao contexto a viva
e colorida visão da in-timidade vivencial de ambos. Deus é
o único autor do amor entre os homens, "justos e injustos, bons
e maus" (Mt 5,45). Na prática quando
Abraão se referia aos justos, conseguia a salvação
"do justo e do ímpio". Não pediu que afastasse da cidade
os justos nem pediu ao menos por seu sobrinho Ló. Pedin-do que nada
destruísse por causa dos justos intercedeu pelos bons e maus, numa
tentativa de salvá-los da destruição iminente. Sem
Deus não há amor fraterno, não há fraternidade,
falta um ponto comum de referência, eis que não há
fraternidade sem um Pai comum.
5. A ALIANÇA E SODOMA E GOMORRA
Jesus nos revela que Sodoma e Gomorra, tal como o Dilúvio, é outra expressão das conse-qüências do pecado na Criação, e é um anúncio do quadro revolucionário a ser causado no mundo criado quando da revelação do Filho do Homem, ao erradicar definitivamente o pecado:
"Como aconteceu nos dias de Noé, assim também será nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiu a todos. Como também da mesma forma aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os destruiu a todos; assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar" (Lc 17,26-30).
O Evangelista coloca num mesmo plano o Dilúvio e Sodoma e Gomorra, e os evidencia como transformações imprevisíveis, tal como acontecerá nos dias da manifestação gloriosa do Filho do Ho-mem. É o que Jesus quis alertar. Cabe-nos uma explicação para essa narrativa, tão idêntica às do Dilú-vio e também da Torre de Babel, principalmente no colóquio franco e aberto de Deus. Temos de apli-car novamente a mesma regra de nos locomover abstratamente no tempo para a cultura do narrador. Que houve a destruição das cidades houve, não há o que discutir. Porém, o importante é o que signifi-cou para o narrador bíblico e o que corresponde ao evidenciado pelos fatos. Estamos nos referindo ao "pecado" praticado nas cidades e que recebeu a alcunha de "sodomia", formada a partir do nome de Sodoma, para significar o homossexualismo então reinante (Gn 19,5) a ponto de Ló reclamar a virgin-dade das filhas e ter coragem de oferecê-las (Gn 19,8), pelo que foi rechaçado e atacado violentamen-te, sentindo-se ofendidos pela intervenção e conduta moral dele, um "justo", que não se contaminara com o mesmo pecado (Gn 19,9). Aparece aqui outra das conseqüências do pecado original, agora numa manifestação da desordem carnal e a da imoralidade generalizada na concupiscência advinda pela inversão surgida do natural e normal.
Por primeiro, chama a atenção o "descerei" (Gn 18,21) tal como no relato da Torre de Babel (Gn 11,6.7), mostrando a mesma concepção cultural de um deus em figura de homem (visão "antro-pomórfica" de Deus), habitando no "alto". Não pode ser diferente aqui a intenção do narrador, que-rendo também evidenciar a continuidade e a coexistência das conseqüências do pecado apesar da Ali-ança recém - contraída, vinculando ambos à lembrança dos descendentes de Abraão para não perturba-rem mais ainda pela sua conduta o cumprimento dos desígnios de Deus com a Aliança, que vai recon-duzir o Homem à comunhão, intimidade e familiaridade perdidas:
"E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que vou fazer, visto que Abraão certamente virá a ser um grande e poderoso povo, e por meio dele serão abençoadas todas as na-ções da terra? Porque eu o escolhi, para que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele que guardem o caminho do Senhor praticando a retidão e a justiça; para que o Se-nhor cumpra em Abraão o que lhe foi predito" (Gn 18,17-19).
Como Ló fora morar nas cidades pecadoras seria com elas vítima da catástrofe. Mas, era ele também um "justo" e o narrador mostra como Deus vem em socorro de seus fiéis e os protege, res-pondendo à eficaz intervenção de Abraão em favor dos homens, e só as destrói após libertá-lo:
"Porque se Deus não
poupou (...) reduzindo a cinza as cidades de Sodoma e Gomorra,
condenou-as à
destruição, havendo-as posto para exemplo aos que vivessem
impia-mente; e se livrou ao justo Ló, atribulado pela vida dissoluta
daqueles perversos, por-que este justo, habitando entre eles, por ver e
ouvir, afligia todos os dias a sua alma justa com as injustas obras deles;
também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos,
e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão
sendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em
imundas concupiscências, e desprezam toda autoridade"
(2Pe 2,4.6-10).
Pedro retoma a afirmação do narrador que já exprimia neste quadro também e a seu modo a Obra da Redenção, principalmente quando insiste com Ló para salvá-lo e a sua família (Gn 19,12-29), em atenção a Abraão:
"Ora, aconteceu que, destruindo Deus as cidades da planície, lembrou-se de Abraão, e tirou Ló do meio da destruição, enquanto aniquilava as cidades em que Ló habitara" (Gn 19,29). / Apressa-te, escapa-te para lá; porque nada poderei fazer enquanto não ti-veres ali chegado..." (Gn 19,22).
Da destruição total
somente restou Ló e duas filhas numa caverna, [morta a mulher que
foi pe-trificada em estátua de sal (Gn 19,16.26.30)],
onde praticam um "incesto" (Gn 19,36-37),
com a "em-briaguez" do pai, provocada por elas, supondo a inexistência
da outros homens. Não deixa de ser ou-tra cena isenta de críticas
mesmo aos olhos daquela cultura, apesar de ter sido necessário embriagar
o pai para a consumação do ato, tendo ocorrido uma força
impulsionadora atuante por demais naqueles tempos: a necessidade de descendência
para o pai (Gn 19,32), num mundo onde inexistia
outros ho-mens. Não se pode deixar de ver ai atuando com todas as
forças o instinto de conservação da espécie
a falar mais alto que tudo; nem se pode estabelecer um julgamento com o
aculturamento atual, eis que tal necessidade de prole atualmente não
tem o mesmo vigor. Da mesma forma que após o Dilúvio aconteceu
com Canaã (Gn 9,18-29), aparece aqui
outra justificativa para a inimizade reinante entre os israelitas e dois
outros povos parentes e vizinhos, os moabitas e os amonitas (Nm
22,1 / 26,3.63), tra-tados como "bastardos" (Dt
23,4), por serem eles nascidos de um abominável "incesto"
(Dt 27,20.23; Lv 18,6-18).
6. A ALIANÇA, ABRAÃO E ISAAC
Após essas situações dramáticas nasce Isaac (Gn 21,1-5), o Filho da Promessa, causando gran-de alegria e regozijo. A esterilidade era motivo de grande vergonha (Gn 30,23; 1Sm 1,5-8; 2Sm 6,23; Os 9,11) e a fecundidade é sinal da presença de bênção de Deus. Por isso Sara se regozija e manifesta tudo isso com o riso, como se nota das expressões "Deus me deu motivo de riso e todo o que o ouvir rir-se-á comigo" e "lhe dei um filho na sua velhice", "vantagens" de que se pode vangloriar. Daí vem etimologicamente o nome de Isaac, que na sua raiz tem a conotação indefinida "rir":
"Pelo que disse Sara: Deus me propiciou motivo de riso; todo aquele que o ouvir, rir-se-á comigo. E acrescentou: Quem diria a Abraão que Sara havia de amamentar fi-lhos? no entanto lhe dei um filho na sua velhice" (Gn 21,6-7).
Mas, no dia em que se comemorava o seu desmame, Sara viu Ismael "gracejar" dele, Isaac (Gn 21,9), naturalmente em torno de seu nome..., alguma piada de mau gosto, por exemplo, dirigida por um já rapazola a um recém desmamado, uma criança ainda. A antiga tensão familiar (Gn 16,4d-6) não desanuviara e agora se manifestava tanto no gracejo de Ismael, conhecedor de tudo o que acontecera e as conseqüências para ele sendo já pressentidas, como na reação de Sara que, violentamente aproveita a oportunidade e exige uma atitude definitiva de Abraão (Gn 21,10). Ele, em obediência a Deus, que já valorizava a esposa legítima, ao impulso de uma visão e promessa com referência ao futuro do filho se tornando um grande povo, expulsa-o com Agar (Gn 21,11-14). Tais acontecimentos vão ser identifi-cados de várias maneiras aos cristãos vindos do paganismo, quando São Paulo os interpreta conforme a diferença entre Ismael o filho advindo da vontade e plano do homem e Isaac o Filho da Promessa, advindo da Vontade e do Plano de Deus:
"Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. To-davia o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por pro-messa. O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são duas alianças; uma do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não dás à luz; esforça-te e clama, tu que não estás de parto; porque mais são os fi-lhos da desolada do que os da que tem marido. Ora vós, irmãos, sois filhos da promes-sa, como Isaac. Mas, como naquele tempo o que nasceu segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora. Que diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre" (Gl 4,22-31).
"Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaac será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho" (Rm 9,6-9).
Esses acontecimentos redundam para Abraão em atroz sofrimento, debatendo-se entre as de-sordens de um mundo corrompido, coexistindo com o mundo da Aliança no nascedouro. É de se ob-servar a existência de narrativas muito estranhas para nós quanto aos costumes de então. Não faz mal repetir que quando se lê a Bíblia deve-se evitar a precipitação de um julgamento com base nos usos atuais, mas manter a naturalidade e prestar atenção nesses procedimentos antigos, por demais encros-tados na vida social e aparentando muitas vezes a forma de leis, dada a obrigação que é imposta pelas próprias circunstâncias. No regime patriarcal, de acordo com o conceito que dele se faz, uma mulher não poderia exigir com a energia de Sara (Gn 21,10) que o marido expulsasse o próprio filho, com a mãe, uma escrava então libertada, deixando-os sem nada, deserdando-o, a não ser que o conceito seja precipitado e ao contrário existissem naquele tempo normas sociais que assim autorizassem. Pode até mesmo parecer uma espécie de alforria para a libertação da servidão de Agar, mas apesar de tudo, isso não deixa de perturbar até mesmo o próprio Abraão que só o fez após a intervenção de Deus com a promessa de protegê-los, já que "vai tornar o filho um grande povo por ser da posteridade dele" (Gn 21,12-13). Outra dificuldade aparece quanto ao acontecimento com Abimeleque em Gerar, e já se analisou fato idêntico quando da estadia do casal no Egito e a aliança com ele em Bersabéia, para a solução de pendência por causa de poços de água (Gn 21,22-34), mostrando a continuidade da luta pela sobrevivência a que se sujeitou até mesmo um "eleito". Cumpre ao leitor da Bíblia sempre separar os costumes de então, não se deixando influenciar no julgamento por questões assim acessórias, que não alteram em nada os desígnios de Deus no desenrolar da História da Salvação, onde o escolhido nelas vive e se debate. O essencial é que importa, qual seja, a fé vivida de Abraão e demonstrada efi-cazmente por todos os seus atos:
"Abraão plantou uma tamargueira em Bersabéia, e invocou ali o nome do Senhor, o Deus eterno. E peregrinou Abraão na terra dos filisteus muito tempo" (Gn 21,33-34).
Esta presença de hostilidades do mundo contra o que sempre lutou Abraão vai muito contribuir para a sua maturação e crescimento na fé, solidificando-o para a missão que apenas se esboçava. Numa luta desigual, Abraão ainda se vê em sérias dificuldades quanto aos costumes religiosos do tem-po. São os momentos em que Deus coloca os seus eleitos face à face com a realidade de Seus Planos e da Missão que lhe cabe, provando-os e maturando-os para ela, momentos estes que chegam a ser dra-máticos. Deus pede que lhe ofereça o próprio filho Isaac em sacrifício, o legítimo herdeiro da Aliança, em quem concretizar-se-ia toda a esperança e solidez da fé de Abraão:
"Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe: Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui. Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar" (Gn 22,1-2).
A contradição é mais que evidente, pois ainda soavam aos ouvidos de Abraão aquelas palavras de Deus, quando Lhe apresentara Ismael:
"...e lhe chamarás Isaac; com ele estabelecerei a minha aliança como aliança per-pétua para a sua descendência depois dele. (...) A minha aliança, porém, estabele-cerei com Isaac, que Sara te dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro" (Gn17,18-21).
Porém, apesar disso, Abraão não vacila, crê! A prontidão da obediência de Abraão, levantan-do-se cedo para cumprir a ordem de Deus e a seqüência súbita da narrativa o demonstra. A fé o leva à obediência, servindo-lhe de alicerce. Conduz Isaac imediatamente ao monte determinado para sacrifi-cá-lo, como uma oferenda a Deus. E, sacrificar Isaac, que já nascera por obra de Deus, em virtude da esterilidade natural de Sara, que já nascera consagrado, deveria soar-lhe como um absurdo. E a situa-ção o coloca face a face com duas posições: de um lado Deus, do outro lado o filho. Abraão escolheu Deus:
"Levantou-se Abraão de manhã cedo, selou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho; e, cortou lenha para o holocausto, e partiu para o lu-gar que Deus lhe dissera" (Gn 22,3).
Na opção por Deus é que se encontra a verdadeira libertação do Homem de tudo que pode es-cravizá-lo, a começar pelo medo de que deve ter sido assaltado, dada a confusão de emoções que pode ter sentido pela grande contradição que ocorria. Já estava conformado com a esterilidade de Sara e com Ismael sendo o seu único filho, quando o próprio Deus lhe acenara com a felicidade de ter Isaac de sua mulher "legítima" Sara. Não pedira mais um filho após aceitar o filho de Agar, escrava de Sara. E, agora, após recebê-lo já quando a natureza lhe negava, vem Deus e exige dele o seu holocausto, e o quer levar. Alguma coisa não estava nos eixos. Era um ser humano, e sua reação seria humana, com todo o colorido sobrenatural do acontecimento. E essa reação bem que poderia ser de medo, que é a emoção natural que se tem quando se depara com situações contrárias, contraditórias ou conflitantes, e até mesmo incompreensíveis. Na mente do Patriarca ainda ressoava a voz de Deus dizendo-lhe ser "de Isaac que nascerá a posteridade que terá o seu nome" (Gn 21,12); voz que lhe exige agora a vítima Isaac em oferenda sacrificial. É uma grande dificuldade que somente uma robusta fé consegue suportar e vencer. Claro lhe fica que somente ele não entendia o acontecimento, Deus sabe o que faz e a fé de Abraão completa tudo, apesar da enorme contradição. Para se cumprir o que Deus afirmara quanto à Aliança, no sacrifício de Isaac a morte seria vencida pela vida. Deus nele venceria a morte e a vida te-ria prosseguimento, completamente restaurada. Isaac renasceria ali mesmo, não morreria. Abraão teve assim em "figura" uma antevisão da Ressurreição e nela creu, conforme o próprio Cristo dirá:
"Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; viu-o, e alegrou-se" (Jo 8,56).
Abraão não vacila e prossegue morro acima, consagrando a cada passo o próprio filho. Perce-beu assim que já participava da Obra da Redenção do Homem, e rejubilou-se com a sua proximidade:
"Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaac; ofereceu o seu unigênito aquele que recebera as promessas, e a quem se havia dito: 'Em Isaac será assegurada a tua descen-dência', julgando que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar; e daí tam-bém em figura o recobrou" (Hb 11,17-19).
Isaac carregava o lenho para a fogueira, Abraão o fogo sagrado. Morro acima, ambos cami-nhavam ensimesmando, Abraão mudo de dor, Isaac mudo de espanto:
"Meu pai!
...
Eis o fogo e a lenha,
mas onde está o cordeiro para o holocausto?
...
Deus proverá
o cordeiro para o holocausto, meu filho...."
(Gn 22,7-8).
Falou a fé. Abraão ainda esperava em Deus e prossegue morro acima, consagrando a cada pas-so o próprio filho. Sentiu então participar da Obra da Redenção do Homem, e rejubilou com a proxi-midade da concretização da promessa de que "por ti serão abençoadas todas as nações da terra" (Gn 12,3). Quando ultimava os preparativos para imolar o próprio filho Isaac, cuja submissão à vontade do próprio pai, que o oferece em sacrifício o identifica a Cristo com a Cruz (cfr. Santos Padres - Tertulia-no, Agostinho, Cipriano etc.), um anjo o impede:
"Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão! Ele respon-deu: Eis-me aqui. Então disse o anjo: Não estendas a mão sobre o menino, e não lhe fa-ças nenhum mal; porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho. Nisso levantou Abraão os olhos e olhou, e eis atrás de si um carneiro embaraçado pelos chifres no mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o ofere-ceu em holocausto em lugar de seu filho. ..." (Gn 22,11-14).
Aqui se corporifica e recebe de Deus a aprovação a "substituição" eficaz do ser humano por um animal, no caso "o cordeiro", em qualquer sacrifício oferecido, no qual o ofertante é "substituído" pela vítima imolada, recebendo ela a penitência dele, pelo que tomou o nome de resgate. Assim, as palavras de Abraão a Isaac de que "Deus providenciará o cordeiro para o sacrifício, meu filho" são proféticas e vão se concretizar no mesmo morro, segundo antiga tradição (2Cro 3,1) no Sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. Maria como o "Novo Abraão", a Mãe dos Crentes, a Mãe da Igreja, galgando o Calvário ao lado do Filho, tal como Abraão, que, como Isaac, carregava o "Lenho" da Cruz, "cumpre" a Profecia de Abraão entregando ao Pai "o cordeiro que o próprio Deus providenciara para o sacrifí-cio".
A prova a que Deus submete não se destina a um exame que Ele faz no eleito para conhecê-lo, eis que o Deus Onisciente conhece tudo e todos (1Sm 16,7). Destina-se ao amadurecimento e à toma-da de consciência que cada um tenha de si mesmo e das dimensões da sua missão, dela saindo então robustecido, pelo que Deus reforça e ratifica a Aliança. Termina aqui a prova de Abraão e, não só de Abraão, mas também do próprio Isaac o qual mudo dela participou, demonstrando ambos, para a "descendência" deles, aptidão e maturidade para o prosseguimento da Aliança. E como sempre Abraão remata com o sacrifício do carneiro, de cujo holocausto a eficácia se comprova nas palavras do Anjo:
"Então o anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu, e disse: juro por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e não me negaste teu filho, o teu único filho, que te cumularei de bênçãos, e multiplicarei extraordinariamente a tua des-cendência, como as estrelas do céu e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos; e em tua descendência serão bendi-tas todas as nações da terra; porquanto me obedeceste" (Gn 22,15-18).
Abraão, pela sua Fé, está no fundamento da Aliança, é o seu alicerce humano e vai orientar sempre o caminho dela, sempre lembrado e sempre exaltado (Sb 10,5; Eclo 44,19-22; 1Mb 2,52; Tg 2,20-24; Rm 4,1; Hb 11,8-19), e até os dias de hoje, na Igreja de Cristo:
"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para "fora do seu país, da sua parentela e da sua casa" (Gn12,1), para o fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5): "Em ti serão abençoadas todas as nações da Ter-ra" (Gn 12,3 LXX)" (Catecismo Da Igreja Católica n.º 59; v. também n.°s. 144-147; 422; 1079-1080; 1819; 2570-2572 etc.).
"Desde o princípio, Deus abençoa os seres vivos, especialmente o homem e a mulher. A aliança com Noé e todos os seres anima-dos renova esta bênção de fecundidade, apesar do pecado do homem, que leva à maldi-ção da terra. Mas, a partir de Abraão, a bênção divina penetra história dos homens, que caminhava em direção à morte, para a fazer regressar à vida, à sua fonte: pela fé do "pai dos crentes" que recebe a bênção, é inaugurada a história da salvação" (idem n.° 1080)
Essa fé valer-lhe-á o título de "Pai dos Crentes":
"E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os crentes, estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da circuncisão, mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado" (Rm 4,11-12)
"Sabei, pois, que
os cren-tes é que são filhos de Abraão"
(Gl 3,7).
7. A ALIANÇA E ISAAC, O FILHO DA PROMESSA
Existem determinados costumes antigos que não se identificam com o aculturamento atual. Um deles é o de sempre se referir à genealogia das pessoas de que toda a Escritura está cheia, desde Adão (Gn 5,1-32), Noé (Gn 10,1-32), outras e assim até mesmo da criação (Gn 2,4).O interesse principal é o de se conhecer a "origem", problema fundamental para os israelitas em virtude da Aliança e da pos-sibilidade de conflito com uma variedade enorme de pagãos com os mais "abomináveis" costumes (Gn 6,1-3) pela vinculação do clã a um ou mais deuses que em seus rituais chegavam a oferecer em holo-causto até os filhos (Jr 32,35; 1Rs 16,34 2Rs 3,27; 23,10). Por tudo isso era necessário um conheci-mento mais detalhado de cada um, evitando-se as mais das vezes o desvio ou a perda definitiva de se-res queridos, ou a diminuição e até mesmo a perda do patrimônio econômico da tribo pela evasão he-reditária dos bens, principalmente de propriedades. Daí e por outros motivos importantes para a pró-pria segurança, para a sobrevivência e para a cultura da época a necessidade de sempre os observar, como soe encontrar nos entremeios das narrativas a genealogia dos principais protagonistas. É tão fundamental essa condição que até mesmo no Novo Testamento, São Mateus, que escreve aos judeus, começa o seu Evangelho com uma genealogia que demonstra Jesus como "Filho de Davi, Filho de Abraão" (Mt 1,1-16) e Lucas, apesar de destinar o seu à Igreja Universal, faz o mesmo, retrocedendo até Adão, dada a universalidade da salvação, mas levando em conta a genealogia de Jesus (Lc 3,23-38).
Claro está que com o compromisso que assumira com os termos da Aliança Abraão, já velho, e após a morte e sepultamento de Sara (Gn 23), se preocupa com quem seria a futura esposa de Isaac. Solucionou a dificuldade com uma de sua parentela (Gn 24,3-4), consciente da genealogia de Nakor (Gn 22,20-24), seu irmão, apresentando o narrador a "origem" de Rebeca, a futura esposa de Isaac, vinculando-a por sua vez à linhagem de Set (Gn, 4,25) a progênie da História da Salvação, garantia de fidelidade a Iahweh e à Aliança já em processo. É bom observar aqui que a única porção de terra que Abraão possuiu como sua, adquirindo-a e pagando por ela, foi o terreno onde sepultou sua mulher Sara (Gn 23), cujo relato da compra mostra o ritual então em uso, que se pode até mesmo denominar de "escritura pública" da compra, tal como diz o narrador que "foi assegurado a Abraão por aquisição na presença dos heteus, e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn 23,18). A "porta da cidade" representava naqueles tempos o que hoje representam os cartórios de registro de aquisição de propriedades, ou seja, a publicização, que é o tornar de conhecimento público, geral, para não mais se revogar e reconhecendo-se então a tradição da propriedade.
A principal preocupação de Abraão era a Aliança como manifesta ao exigir sob juramento ("com a mão sob a coxa" Gn 24,2) para a escolha da noiva, que não fosse das "filhas dos cananeus, no meio dos quais habito, mas irás à minha terra natal e aos meus parentes e tomarás dali mulher para meu filho Isaac" bem como "não tirasse seu filho da terra onde morava, que era a propriedade que Deus prometera a sua descendência" (Gn 24,3-9). A narrativa da "conquista" da noiva para Isaac deve ser lida, não com os critérios da cultura de hoje, mas dentro das perspectivas do aculturamento de en-tão, num mundo ainda rude, selvagem e bárbaro, onde a sobrevivência se devia a detalhes hoje míni-mos, sem valor algum, mas naqueles tempos de uma imposição até mesmo insuperável.
A pretensão do narrador não se limita ao casamento de Isaac, mas destaca também a fé de Abraão que prevê a ajuda de Iahweh:
"O Senhor, Deus do céu, que me tirou da casa de meu pai e da terra da minha parente-la, e que me falou, e que me jurou, (...) ele enviará o seu anjo diante de si, para que to-mes de lá mulher para meu filho" (Gn 24,7).
Não é
só isso. Destaca também que Iahweh realmente de tudo participa,
atende e realmente faz com que a noiva seja encontrada na forma imaginada
e pedida pelo servo, junto ao poço onde ela sacia sua sede, a dos
animais e a da comitiva (Gn 24,12-14).
Não pode ser simplesmente por coincidência ou por um golpe
de sorte que era uma sobrinha de Abraão, cuja família acata
o pedido e lhe entrega a filha para o casamento (Gn
24,10-61), percebendo os familiares que se
tratava da vontade de Iahweh a que deveriam acatar, significando isso que
partilhavam a mesma fé (Gn 24,51),
satisfazendo assim à segurança necessária à
Aliança. Quando o servo volta é recebido pelo próprio
Isaac, que "saíra para prantear ('ou meditar' - são válidas
as duas traduções) no campo", a quem "narra tudo que tinha
acon-tecido com ele e Isaac introduziu Rebeca na tenda, e recebeu-a por
esposa e a amou" (Gn 24,66-67).
Ora, o pranto de Isaac leva à conclusão que Abraão
morrera antes da chegada do servo, cumprida a missão, motivo porque
presta contas a Isaac. Mas, também não é só
isso. Narra dessa maneira que Isaac assumiu a Aliança, a quem "Abraão
deu tudo o que possuía" (Gn 24,36 e
25,5). A morte de Abraão vem em seguida
e em separado. É o modo como a Bíblia traz suas narrativas,
terminando uma e mesmo que algo a tivesse de interromper costuma narrá-lo
em separado.
Outros filhos de
Abraão são apresentados destacando-se Madiã, na tribo
de quem Moisés futu-ramente irá se abrigar fugindo do faraó
do Egito (Ex 2,15).
Enumeram-se vários nomes de povos des-cendentes dele demonstrando
o quanto foi abençoado por Deus, destacando-se "doze chefes de outros
povos" (Gn 25,16)
na descendência de Ismael, tal como lhe prometera (Gn
17,20) e à Agar (Gn
16,10ss e 21,18), e a de Isaac, bem menor
- só dois filhos (Gn 25,24ss).
Vai se repetir com Isaac o mesmo drama por que passou seu Pai também
em outros acontecimentos semelhantes, maneira de se demonstrar escrituristicamente
a identidade de vida, de amadurecimento na fé e de missão
(Gn 26,1-33).
Frisa assim a esterilidade de Rebeca e a intercessão de Isaac por
ela (Gn 25,21)
pelo que gera dois filhos, cuja hostilidade se manifesta desde o útero:
"Ora, Isaac orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, porquanto ela era es-téril; e o Senhor ouviu as suas orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu. E os filhos lutavam no ventre dela; então ela disse: Por que estou eu assim? E foi consultar ao Se-nhor. Respondeu-lhe o Senhor: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas estranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o mais velho servirá ao mais moço. Cumpridos que foram os dias para ela dar à luz, eis que havia gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo, todo ele como um vestido de pelo; e chamaram-lhe Esaú. Depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; pelo que foi chamado Jacó. E Isaac tinha sessenta anos quando Rebeca os deu à luz" (Gn 25,21-26).
São Paulo verá nesse acontecimento a "figura" da conversão dos pagãos, tornando-se também "filhos da promessa" pela fé e não por qualquer obra anterior que a merecesse:
"Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas também a Rebeca, que havia con-cebido de um, de Isaac, nosso pai, pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. (...) Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé" (Rm 9,8-13.30).
É de se observar a esterilidade sempre presente nas mulheres dos Patriarcas, contrastando com a fecundidade ou bênção embutida no Protoevangelho (Gn 3,15) e na Promessa a Abraão de que "sua descendência seria como as estrelas do céu e como a areia do mar" (Gn 22,17; 15,5). Já se antevê que a História da Salvação é Obra exclusiva de Deus, o que se manifesta nesses pequenos detalhes da Sua Intervenção, em atendimento ao pedido do eleito, pois é com Isaac que a Aliança se confirma:
"E apareceu-lhe o Senhor e disse: Não desças ao Egito; habita na terra que eu te disser; peregrina nesta terra, e serei contigo e te abençoarei; porque a ti, e aos que descende-rem de ti, darei todas estas terras, e confirmarei o juramento que fiz a Abraão teu pai; e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu, e lhe darei todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra; porquanto Abraão obe-deceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis" (Gn 26,2-5).
"E apareceu-lhe o Senhor na mesma noite e disse: Eu sou o Deus de Abraão, teu pai; não temas, porque eu sou contigo, e te abençoarei e multiplicarei a tua descendência por amor do meu servo Abraão" (Gn 26,24).
E, prosseguindo a mesma missão, o mesmo culto tendo por centro o sacrifício:
"Isaac, pois, edificou
ali um altar e invocou o nome do Senhor; então armou ali a sua tenda..."
(Gn
26,25).
8. A ALIANÇA PROSSEGUE COM JACÓ, O PRIMOGÊNITO
Entre os institutos da Bíblia, cujo sentido se perdeu está também o da Primogenitura, que manifesta sua influência e observância desde as suas primeiras páginas. É o caso de Abel que "ofereceu um sacrifício a Deus dos primogênitos (ou 'primícias' como em algumas Bíblias) de seu rebanho e dos mais gordos" (Gn 4,4), enquanto Caim ofereceu "dos produtos da terra" (Gn 4,3). Porquanto a única diferença entre as ofertas seja esta dos primogênitos, não significando que Caim tivesse ofereci-do maus produtos, já se evidencia a presença de alguma influência cultural que nos foge, pois Deus "olhou para Abel e sua oferta e não olhou para Caim e sua oferta" (Gn 4,4-5). Também na relação ge-nealógica dos primeiros descendentes de Adão (Gn 5) e após a Torre de Babel (Gn 11,10-32) o nome do primogênito é o único mencionado, prosseguindo-se com a descendência dele. Mesmo em outras genealogias ele sempre ocupa o primeiro lugar (Gn 9,18-10,32).
A suspeita de que algo de imperioso existe vai se confirmando a partir de uma observação do narrador criticando o desprezo de Esaú por ela (Gn 25,34c) e da luta que trava com seu irmão Jacó, filhos de Isaac, e gêmeos, por causa dela (Gn 27,1-28,5). Além disso, Esaú toma por esposas duas pa-gãs da região (Gn 26,34). Tudo isso vai depor contra Esaú fazendo com que se justifique sua perda para Jacó do direito de primogenitura, em tudo gerenciado pela própria mãe, Rebeca. Aconteceu que, em certa ocasião, Esaú, com fome, trocou com Jacó o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, por cujo absurdo é veementemente criticado pelo narrador (Gn 25,34). Claro que Rebeca tomando disso conhecimento, e também pelo desgosto por causa do casamento de Esaú com mulheres hetéias, passa a se dedicar mais ainda a Jacó, o seu já predileto (Gn 25,28). Assim, à promessa do pai em dar a Esaú a denominada "bênção da primogenitura", age disfarçando Jacó de maneiras a ludibriar Isaac, que já estava velho e sem visão (Gn 27,1-17). Jacó consegue assim receber a ambicionada e ir-reversível "bênção" (Gn 27,27-29) em lugar do irmão, que na verdade a havia desprezado e trocado com ele pelo prato de lentilhas.
A importância desse fato se prende às reações dramáticas que lhe sucedem, pelas quais se pode dimensionar o alcance cultural (Gn 27,30-45). Quando chega Esaú da caça onde buscara o "guisado a gosto do pai" (Gn 27,4) e é descoberta a substituição, "Isaac estremeceu tomado de enorme terror", declarando ainda que, apesar de assim concedida, "permanecerá abençoado" (Gn 27,33). Por sua vez " Esaú, ao ouvir as palavras de seu pai, gritou altíssimo com grande e extremamente amargurado brado, e disse a seu pai: Abençoa-me também a mim, meu pai! (...) ...E chorando prorrompeu em altos gritos" e planeja matar o irmão (Gn 27,34.38.41). Tem-se mais conhecimento da importância da instituição com a resposta de Isaac:
"Respondeu Isaac a Esaú: Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e todos os seus irmãos lhe tenho dado por servos; e de trigo e de mosto o provi. Que, pois, poderei eu fazer por ti, meu filho?" (Gn 27,37).
Já se percebe que um dos privilégios outorgados com a "bênção" é a chefia do clã ou da tribo, fato esse confirmado por outros trechos das Escrituras (1Cro 26,10), pelo que recebia "dupla porção da herança" (Dt 21,17) pela responsabilidade que assumia por todos os seus familiares e demais inte-grantes. O assunto voltará a ser abordado no decorrer do curso eis que outros elementos que entram na composição desse direito somente poderão ser examinados futuramente em confronto com outras instituições. Por enquanto é de se reter apenas o exposto.
Coerente com a bênção correspondente à primogenitura que proferiu, Isaac confia-lhe o desen-rolar da Aliança, não sem antes admoestá-lo quando às mulheres pagãs, ou cananéias. De certa manei-ra até se pode suspeitar de que todo o narrado tenha sido arquitetado pelo casal para "destronar" Esaú por se comprometer com as mulheres estranhas aos costumes israelitas, principalmente levando-se em conta a advertência feita em conjunto com a mesma bênção de Abraão:
"Isaac, pois, chamou Jacó, e o abençoou, e ordenou-lhe, dizendo: Não tomes mulher dentre as filhas de Canaã. Levanta-te, vai a Mesopotâmia, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá uma mulher dentre as filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça frutificar e te multiplique, para que ve-nhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua des-cendência contigo, para que herdes a terra de tuas peregrinações, que Deus deu a Abraão. Assim despediu Isaque a Jacó, o qual foi a Mesopotâmia, para a casa de La-bão, filho de Betuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú" (Gn 28,1-5).
Vê-se que quando ia para a Mesopotâmia, em busca de esposa e em fuga de Esaú, Jacó, como seus antepassados Abraão e Isaac, tem uma visão em que se lhe confirmam tanto a promessa como a Aliança:
"...por cima da escada estava o Senhor, que disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaac; esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e à tua descendência; e a tua descendência será como o pó da terra; dilatar-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul; por meio de ti e da tua des-cendência serão benditas todas as famílias da terra. Eis que estou contigo, e te guardarei onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; pois não te deixarei até que haja cumprido aquilo de que te tenho falado" (Gn 28,13-15).
Tal como com Abraão (Gn 18), com Isaac (Gn 26,2.24) ocorreu uma manifestação sensível de Deus, uma teofania, neste episódio da "escada' por cima da qual estava o Senhor" em que se profere a mesma bênção para a posteridade de Abraão e a mesma promessa da herança da mesma terra das suas peregrinações (Gn 12,7; 13,14-17; 22,17-18; 26,4.24), bem como a mesma resposta do Patriarca eri-gindo um lugar de culto acompanhado de um sacrifício, se bem que aqui com Jacó trata-se de uma libação e a unção de uma pedra erigida em cipo, muito usado naqueles tempos como testemunho ou prova de algum fato profano ou sagrado e religioso (Gn 31,45; Js 4,9.20; 24,26-27) e até mesmo para as coisas de Deus:
"Pois os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem cipos, e sem éfode ou terafins" (Os 3,4)
Israel é vide frondosa que dá o seu fruto; conforme a abundância do seu fruto, assim multiplicou os altares; conforme a prosperi-dade da terra, assim fizeram belos cipos" (Os 10,1)
Tirarei as feitiçarias da tua mão, e não terás adivinhadores; arrancarei do meio de ti as tuas imagens esculpidas e os teus cipos; e não adorarás mais a obra das tuas mãos" (Mq 5,12).
Pode-se até mesmo admitir a preferência
de Jacó por este tipo de oferenda dado o seu caráter mais
pacífico ("...homem tranqüilo, habitante da tenda" Gn
25,27c). Aqui com ele a teofania atinge um clímax com a presença
da narrativa de uma "escada", como que aquela da Torre de Babel, aqui servindo
de comprovação do elo de ligação entre os anjos
que descem do céu para seu ministério no mundo, como interpretaram
os Santos Padres e de que apesar da separação ou distância
entre o céu e a terra, pode atingi-lo sempre, aquele que ama a Deus.
Vê-se com facilidade que por Jacó viria o prosseguimento da
História da Salvação que culminaria em Jesus Cristo,
motivo por que se caracterizam a "promessa" e a "aliança" com Abraão,
com Isaac e com Jacó (também em Gn
35,11-13 e 46,3-4), como
Messiânicas, e tal como seus antepassados
faz do sacrifício o centro do seu culto, prometendo erguer no local
um santuário para o que destinará o dízimo:
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus. Jacó levantou-se de manhã cedo, tomou a pedra que pusera debaixo da cabeça, e a pôs como cipo; e derramou-lhe azeite em cima. E chamou aquele lugar Betel; porém o nome da cidade antes era Luz. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa de meu pai, e se o Senhor for o meu Deus, então esta pedra que tenho posto como cipo será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo" (Gn 28,17-22).
Jacó recebe de Deus tudo aquilo correspondente ao conteúdo da Aliança de Abraão, já se an-tevendo a confirmação da Bênção recebida de Isaac, contrariando assim uma opinião por demais gene-ralizada de que o ato de Jacó e Rebeca fosse condenável, daqueles que se recusam a ver na cultura dos antigos uma formação moral ainda rude e até mesmo rudimentar e selvagem. Mas, mesmo que assim não fora, não se pode esquecer que Esaú não deu à Primogenitura nem mesmo à Aliança os valores que mereciam: à Primogenitura por tê-la desprezado (Gn 25,32) e trocado por um prato de lentilhas com Jacó e à Aliança por contrair casamento com mulheres hetéias, pagãs, como já se viu amplamente. E as Escrituras não o condenam, ao contrário o louvam e respeitam:
"Foi ela ("a 'sabedoria") quem conduziu por veredas retas o justo ('Jacó') que fugia da cólera de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus e lhe deu a conhecer os santos; pro-porcionou-lhe êxito nos rudes labores e fez frutificar seus trabalhos. Esteve a seu lado contra a cobiça dos que o oprimiam e o enriqueceu. Protegeu-o contra os inimigos e o defendeu daqueles que lhe armavam ciladas. Atuou como árbitro a seu favor em rude combate, para ensinar-lhe que a piedade é mais poderosa do que tudo" (Sb 10,10-12)
A bênção de todos os homens e a aliança, ele as fez repousar sobre a cabeça de Jacó. Confirmou-o nas bênçãos que eram dele, e concedeu-lhe o país em herança. E ele divi-diu-o em lotes"...(Eclo 44,23).
Até Jesus o aponta junto aos Patriarcas, na bem-aventurança da Vida Eterna:
"Digo-vos pois: Muitos virão do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus" (Mt 8,11).
Por outro lado, também Jesus Cristo usa a mesma imagem da sua visão, porém a si mesmo se referindo como a "escada", colocando-se como a união entre Deus e os Homens:
"E acrescentou: Em
verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos
de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem" (Jo
1,51).
9. A ALIANÇA E AS DOZE TRIBOS
DE ISRAEL (JACÓ)
Da mesma forma que Abraão e Isaac,
Jacó também tem necessidade de amadurecimento e conscientização
para o exercício da Aliança, aperfeiçoando-se para
o seu prosseguimento e consecu-ção. Deus não faz exceções
nem mesmo aos seus eleitos e, apesar de terem uma missão a cumprir,
vi-vendo no mundo, têm de sofrer todas as conseqüências
do pecado que lhe aparecem. Assim, Jacó parte, fugindo para a casa
de Labão, o irmão de sua mãe Rebeca, e também
em procura de uma mulher que fosse de sua parentela, tal como lhe aconselharam
ambos os pais, tendo em vista o malogro que Esaú vai tentar corrigir
tardiamente (Gn 26,34-35 e 28,6-9).
Seu encontro com Raquel, sua prima e pastora
de ovelhas que as traz para beber água, se dá de imediato
num poço (Gn 29,1-14), repetindo, pela
presença de Deus dirigindo os acontecimentos, o mesmo que ocorreu
quando da busca de uma mulher para Isaac. É conduzido para a casa
do tio e lá fixa sua residência e passa a trabalhar, a ser
explorado melhor dir-se-ia. Apaixona-se por Raquel e aceita trabalhar sete
anos para então desposá-la. Mas, o sogro ardilosamente o
desposa com Lia ao pretexto de que não poderia casar a mais nova
e permanecer com a mais velha solteira. Descoberto o embuste, após
o cerimonial concluído, introduzida a esposa em sua tenda à
surdina, Jacó reclama mas acaba aceitando trabalhar mais sete anos
para recebê-la daí a uma semana (Gn
29,14c-30). Aparece então outra vez a esterilidade das mulheres
dos Patriarcas e vinculadas à História da Salvação,
que só se tornavam férteis por uma ação especial
de Deus, por ser o Único Autor da Salvação:
"Viu, pois, o Senhor que Lia era desprezada tornou-a fecunda; Raquel, porém, era es-téril" (Gn 29,31)
"Também lembrou-se Deus de Raquel, ouviu-a e a tornou fecunda" (Gn 30,22).
Dessa união lhe advieram doze filhos
e uma filha (Gn 29,32-30,24 / 35,16-18), que
deram ori-gem às doze tribos dos Filhos de Israel, o nome que Deus
dará a Jacó (Gn 32,29; 35,9),
donde vai se formar o Povo de Israel. Não há necessidade
de se delongar no relato dos nascimentos de todos eles, ficando para cada
participante o dever de ler aquilo que não for aqui exposto, completando
seu conhe-cimento bíblico com seu próprio esforço,
evitando-se que o curso seja passivo. Basta relatar os nomes dos filhos
de Jacó, com os das mulheres e das concubinas que os geraram (Gn
35,23-26):
Vários elementos culturais já conhecidos se repetem, tanto a substituição da mulher estéril por sua serva para lhe dar filhos, como o fato da mulher mesma escolher um nome com um significado seu para o filho, manifestando-se assim o prosseguimento da sua luta contra a serpente, iniciada por Eva (Gn 3,15 / 4,25 - cfr. no Capítulo 1, sob o título O Protoevangelho). Jacó tinha em mira principal-mente a Aliança contraída com Deus, por ela se guia e por causa dela reclama, e pede para retornar à sua terra, ou seja Terra Prometida a Abraão, a Isaac e a ele próprio. Um fato normal e até mesmo cor-riqueiro naquele tempo, um filho buscar a casa do pai, torna-se para ele por demais penoso e de difícil solução amistosa. Decide-se então e foge "iludindo a vigilância de Labão", aproveitando-se da ocupa-ção dele na tosquia, que descobrindo a fuga vai em seu encalço e o alcança (Gn 31,1-23). Somente nessa ocasião é que o pacífico Jacó esboça uma reação:
"Então irou-se Jacó e contendeu com Labão, dizendo: Qual é a minha transgressão? qual é o meu pecado, que tão furiosamente me tens perseguido? Depois de teres apalpado todos os meus móveis, que achaste de todos os móveis da tua casa? Põe-no aqui diante de meus irmãos e de teus irmãos, para que eles julguem entre nós ambos. Estes vinte anos estive eu contigo; as tuas ovelhas e as tuas cabras nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho. Não te trouxe eu o despedaçado; eu sofri o dano; da minha mão requerias tanto o furtado de dia como o furtado de noite. Assim andava eu; de dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o sono me fugia dos olhos. Estive vinte anos em tua casa; catorze anos te servi por tuas duas filhas, e seis anos por teu rebanho; dez vezes mudaste o meu salário. Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o Temor de Isaque não fora por mim, certamente hoje me mandarias embora vazio. Mas Deus tem visto a minha aflição e o trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite" (Gn 31,36-42).
Revendo com mais detalhes o acontecimento é de se destacar a firmeza da fé de Jacó que se traduz em profunda e humilde paciência, que a tudo sofre resignadamente, sem esboçar reação alguma, confiando em Deus que lhe prometera, quando iniciou "sua peregrinação" (Gn 47,9), "estou contigo e proteger-te-ei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra" (Gn 28,15). Então, pediu para partir e o seu pagamento (Gn 30,25-28), notando-se que até aquele momento não trabalhara ainda para si mesmo e reconhecendo Labão que seus bens aumentaram graças à bênção de Deus a Jacó (Gn 30,29-30). Não se chegava a uma composição justa e Jacó então propõe voltar ao trabalho do sogro e receber em pagamento os animais do rebanho que viessem a nascer "malhados e mosqueados" daquela data em diante (Gn 30,31-34). Tudo assim combinado, Labão imediatamente separa do rebanho todos os animais "malhados e mosqueados" entrega-os aos filhos, afastando-os três dias de distância, para impossibilitar Jacó de conseguir seu pagamento (Gn 30,35-36). É Deus que vem em socorro de seu eleito em virtude da Aliança que continua com ele (Gn 28,12-15):
"Disse o Senhor, então, a Jacó: Volta para a terra de teus pais e para a tua paren-tela; e eu serei contigo. Pelo que Jacó mandou chamar a Raquel e a Lia ao campo, onde estava o seu rebanho, e lhes disse: vejo que o rosto de vosso pai para comigo não é como anteriormente; porém o Deus de meu pai tem estado comigo. Ora, vós mesmas sabeis que com todas as minhas forças tenho servido a vosso pai. Mas vosso pai me tem enganado, e dez vezes mudou o meu salário; Deus, porém, não lhe permitiu que me fizesse mal. Quando ele dizia assim: Os salpicados serão o teu salário; então todo o rebanho dava salpicados. E quando ele dizia assim: Os lis-trados serão o teu salário, então todo o rebanho dava listrados. De modo que Deus tem tirado o gado de vosso pai, e mo tem dado a mim. Pois sucedeu que, ao tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos e num sonho vi que os bodes que cobriam o rebanho eram listrados, salpicados e malhados. Disse-me o anjo de Deus no sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui. Prosseguiu o anjo: Levanta os teus olhos e vê que todos os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados; porque tenho visto tudo o que Labão te vem fazendo. Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste um cipo, onde me fizeste um voto; levanta-te, pois, sai-te desta terra e volta para a terra da tua parentela" (Gn 31,3-13).
Percebendo o embuste Jacó reagiu
com habilidade para tentar conseguir recuperar o que lhe pertencia (Gn
30,37-43), mas não conseguiu se libertar e o seu sogro continua
espoliando-o (Gn 31,6-16.36-42), tendo sido
ainda difamado pelos cunhados, que se juntam ao pai para mais ainda o maltra-tar
(Gn 31,1-2). Foi necessário que o próprio
Deus lhe manifestasse como transcrito (Gn 31,3-13),
levando-o a trocar idéias com suas mulheres que lhe demonstraram
que, ao contrário do costume, La-bão em vez de dar-lhe o
dote legal, ficara com todo o direito delas, incentivando-o à separação
(Gn 31,4-18). Assim encorajado foge com os
seus familiares e bens.
Quando o alcança, Labão a princípio
o agride e, após a reação dele, se contorce todo,
fingindo amor estremado pelas filhas e netos, em que não integra
Jacó, nunca incluído (Gn 31,26-28).
Após alguma altercação fazem as pazes e Jacó
oferece então um sacrifício do qual participam toda a família
e volta tranqüilo para Isaac (Gn 31,18-54).
Não deixa de ser um incômodo a reclamação de
Labão pelos seus "deuses" (Gn 31,30-35),
mas não se deve esquecer de que se acreditava em vários "deuses"
bem como assim se denominavam poderes intermediários, as mais das
vezes imaginários e fruto de su-perstições, espécie
de "talismãs", que se infiltravam na fé ainda em formação,
pelo que não se deve assustar nem se preocupar. Deus não
tratou a verdadeira ciência religiosa de maneira diferente das outras
ciências e, do mesmo modo que da alquimia, o homem caminhou para
a Química, do curandeirismo para a Medicina modernas, assim também
caminhou da feitiçaria, da magia e das superstições,
que se mesclavam no campo doutrinário, para a Plena Revelação
por Jesus Cristo que a tudo vai depurar.
Finalmente, Jacó volta à terra
do Pai, e então procura Esaú para fazer as pazes, ato de
humil-dade (Gn 33,1-17), muito conforme a
sua formação pacífica e peculiar a um homem que vive
em comunhão com Deus. Quando estava a caminho teve medo e foi assaltado
por grande angústia, o que lhe significou uma luta misteriosa com
o próprio Deus, pelo conflito íntimo ensejado com Sua Vontade,
ocasião em que o anjo lhe muda o nome para Israel (Gn
32,23-32) pelo qual será para sempre conhecido, bem como
o povo formado pelos seus descendentes. Deste fato não há
testemunhas, tendo sido narrado pelo próprio Jacó. Mas, tudo
vai sendo confirmado até mesmo nos contrastes, que não param,
e sua luta prossegue incansável: Dina sua filha é ultrajada
e apesar de se acertar com a família do ofen-sor o casamento com
ela, conseguindo até mesmo que se deixassem circuncidar, convertendo-se
ao Deus da Aliança, seus filhos Simão e Levi, irmãos
uterinos dela, atacam e matam todos os varões em vingança,
deixando Jacó em situação difícil perante os
habitantes da região e com grave perigo para a sobrevivência
geral (Gn 33,18-34,31). Nem assim há
o mais leve sinal de perda de equilíbrio em Jacó. Recebe
logo após, do próprio Deus, a ratificação de
tudo o que lhe foi prometido quando iniciou sua fuga (Gn
28,11-15) e quando lhe foi mudado o nome (Gn
32,24-29):
"Apareceu Deus outra vez a Jacó, quando ele voltou de Mesopotâmia, e o abençoou. E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarás mais Jacó, mas Israel será o teu nome. E chamou-lhe Israel. Disse-lhe mais: Eu sou Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti, e reis procederão dos teus lombos; a terra que dei a Abraão e a Isaac, a ti a darei; também à tua descendência depois de ti a darei. E Deus subiu dele, do lugar onde lhe falara. Então Jacó erigiu um cipo no lugar onde Deus lhe falara, um cipo de pedra; e sobre ele derramou uma libação e deitou-lhe também azeite; e Jacó chamou Betel ao lugar onde Deus lhe falara" (Gn 35,9-15).
O sacrifício novamente como o centro do culto dos Patriarcas vai ser oferecido em cumpri-mento ao prometido por Jacó (Gn 28,10-22), agora Israel, em Betel, no mesmo local, junto ao carva-lhal onde Abraão já havia erigido um altar e oferecido sacrifício (Gn 12,6-8; 22,14), dando um sentido de prosseguimento à Aliança. Porém, em obediência a uma ordem específica de Deus quanto ao cumprimento do compromisso de Jacó de erigir ali um santuário, era preciso uma purificação geral de tudo o que fosse profano, uma conversão geral tal como havia prometido (Gn 28,21 - "...o Senhor será o meu Deus..."), pelo que determina:
"Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; e ergue ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da face de Esaú, teu irmão. Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estra-nhos que há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vossas vestes. Levantemo-nos, e subamos a Betel; ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia, e que foi comigo no caminho por onde andei. Entregaram, pois, a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham nas mãos, e as arrecadas que pendiam das suas orelhas; e Jacó os enterrou debaixo do carvalho que está junto a Siquém. (...) Assim chegou Jacó à Luz (...) Edificou ali um altar, e chamou ao lugar de "O Deus de Betel"; porque ali Deus se lhe tinha manifestado quando fugia da face de seu irmão" (Gn 35,1-7).
Com esse gesto Jacó manifesta publicamente e para sempre a sua adesão, a de sua família e a dos seus descendentes, exclusiva e incondicional a Deus; do mesmo modo, será objeto de outra ratificação igual, séculos depois, no mesmo lugar e quando da Conquista da Terra Prometida, por Josué:
"... temei ao Senhor, e servi-o com sinceridade e com verdade; deitai fora os deu-ses a que serviram vossos pais dalém do Rio, e no Egito, e servi ao Senhor. Mas, se vos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do Rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor. Então respondeu o povo, e disse: Longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a outros deuses: porque o Senhor é o nosso Deus..." (Js 24,13-17).
Também foi nesse mesmo local que Jesus Cristo se encontrou com a Samaritana, "cumprindo" (Mt 5,17) semelhante propósito:
"...achava-se ali o poço de Jacó. Jesus, pois, cansado da viagem, sentou-se assim junto do poço; era cerca da hora sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse-lhe então a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (Porque os judeus não se comunicam com os samaritanos.) Respondeu-lhe Jesus: Se tivesses conhecido o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe terias pedido e ele te haveria dado água viva. Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo 4,6-12).
Jesus repete a mesma atividade de Jacó, confirmada por Josué, de reconduzir o Homem para Deus pela Aliança, dando-lhe então "pleno cumprimento" (Mt 5,17), na mesma porção de terra onde Jacó se purificou com todos os seus, onde também Josué repetiu a operação com o já Povo de Israel e no mesmo lugar que Jacó doou ao seu filho predileto, José:
"Os ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterrados em Siquém, naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se tornara herança dos filhos de José" (Js 24,32).
Tanto é assim que a própria Samaritana Lhe diz:
"És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual tam-bém ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo 4,12) / "Disse-lhe a mulher: Se-nhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (Jo 4,19-20).
Ao que Jesus lhe responde, tal como Jacó e Josué, "definindo toda e qualquer adoração daí em diante, e revelando a verdadeira natureza do Deus de Israel", bem como pela primeira vez em todo o Evangelho confessa-se o Cristo:
"Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. (...) Mas vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o ado-rem em espírito e em verdade. Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo" (Jo 4,21-26)
Claro fica, pela própria Revelação
de Jesus à Samaritana, que a reta final da formação
do Povo de Israel começara com aquele ato de Jacó, em Betel.
Esse local é o repositório das mais antigas e sólidas
tradições dos Patriarcas, a começar com Abrão
erigindo ali um altar, tornando-o um lugar sagra-do (Gn
12,6+; 13,3), mais tarde comprado por Jacó erguendo ali outro
(Gn 35,1-15) em cumprimento de sua promessa
(Gn 28,10-22). Além disso foi escolhido
pelo próprio Moisés para nele Josué, "atra-vessado
o Jordão", ratificar a Aliança (Js
8,30-35) com o Povo de Israel então formado (Dt
27,1-10). Jesus retoma todo o acontecimento anterior e, vinculando
todo o passado israelita com a Sua Presença no mesmo monte onde
"se atiraram fora os deuses estranhos", revela o estabelecimento dos "novos
adoradores de Deus em espírito e em verdade", isto é, não
mais na carne e no exterior, mas no coração e a partir do
interior do Homem, fruto da Graça.
O quadro a seguir mostra melhor que palavras:
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| "Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; e ergue ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da face de Esaú, teu irmão. | "Josué reuniu em Siquém
todas as tribos de Israel (...)
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"Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (Jo 4,19-20). |
| Então disse Jacó à
sua família, e a todos os que com ele esta-vam:
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"E Josué disse a todo o povo: (...)Agora, pois, temei ao Se-nhor, e servi-o com sincerida-de e com verdade; | "Disse-lhe Jesus:
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| Lançai fora os deuses estra-nhos que há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vos-sas vestes. | deitai fora os deuses a que serviram vossos
pais dalém do Rio, e no Egito, e servi ao Se-nhor.
|
Mulher, crê-me, a hora vem, em que
nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.
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| Levantemo-nos, e subamos a Betel; ali
farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia,
e que foi comigo no caminho por onde andei.
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Mas, se vos parece mal o servir-des ao
Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram
vossos pais, (...). Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor.
|
(...) Mas a hora vem, e agora é,
em que os verdadeiros adorado-res adorarão o Pai em espírito
e em verdade; (...)Deus é Espíri-to, e é necessário
que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
|
| "Entregaram, pois, a Jacó todos os deuses estranhos (...)e Jacó os enterrou debaixo do carvalho que está junto a Siquém. Então partiram; (...).todo o povo que estava com ele. Edificou ali um altar (...) e chamou ao lugar Deus - Betel; porque ali Deus se lhe tinha manifestado..." | Então respondeu o povo, e disse:
Longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a outros
deu-ses: porque o Senhor é o nosso Deus (...)
Disse o povo a Josué: Servi-remos ao Senhor nosso Deus, e obedeceremos à sua voz. |
Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem
o Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos anunciar
todas as coisas.
Disse-lhe Jesus:
|
Voltando ao assunto em estudo, surgem então
para Jacó dois fatos novos bem dolorosos. Em primeiro lugar a morte
de Raquel ao dar à luz Benjamim [a quem, antes de expirar, ela deu
o nome de "Bennoni (= filho de minha dor) e que Jacó mudou para
"Benyamin" (= filho de minha direita) (Gn 35,16-21)];
e, em seguida, a traição de seu filho primogênito "pernoitando"
com sua concubina Bala (Gn 35,22), ato naquele tempo considerado como condenável
"incesto".
Finalmente, volta Jacó para a "residência
oficial" dos Patriarcas, em Mamré, que se denomina também
Hebron, onde e quando falece Isaac (Gn 35,27-29).
Prosseguindo o narrador inclui genealogias a partir da de Esaú que
se mesclou com os gentios ou pagãos da região, comprometendo
a Aliança na sua geração, ficando definitivamente
desligado dela.
10. A ALIANÇA E JOSÉ,
O "PRIMOGÊNITO" DE JACÓ
José, o filho primogênito de Raquel, a amada de Jacó, é um dos marcos mais importantes da História da Salvação, cuja significação nunca se apagará nem da memória Israelita nem da Cristã. Com ele se encerra um período fundamental, a Era dos Patriarcas, e se abre outro, a Era do Povo de Israel, em prosseguimento à concretização da Aliança. Manifesta-se a fertilidade de bênçãos de Deus que se vai avolumando num crescendo e em uníssono com os seus desígnios, sempre presente, tirando da obra da maldade humana, fruto do pecado, o bem e a sua consumação. Quer assim conduzir o Homem para o seu lugar - o Jardim do Éden, qual seja, para a vida em comunhão com Ele. E os acontecimen-tos que se vão sucedendo, muitas vezes contraditórios com a lógica que deveria ter um plano de Deus bem traçado, humanamente falando, parecem comprometer seu sucesso. A História de José, conhecido como "José do Egito" retrata a verdade de que nada perturba a concretização de sua vontade e que do mal humano sempre retira o bem e a Sua Justiça, traduzida na realização dos Seus Desígnios, como ensina a Igreja:
"Assim, com o tempo, é possível descobrir que Deus, na sua onipotente Providência, pode tirar um bem das conseqüências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas: 'Não, não fostes vós - diz José a seus irmãos - que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. (...) Meditastes contra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem... e um povo numeroso foi salvo' (Gn 45,8; 50,2). Do maior mal moral jamais praticado, como foi o repúdio e a morte do Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus, pela superabundância da sua graça (Rm 5,20), tirou o maior dos bens: a glorifi-cação de Cristo e a nossa redenção. Mas nem por isso o mal se transforma em bem" (Catecismo da Igreja Católica, n.º 312).
Como toda a família humana, a família
de Jacó também tinha seus dramas e problemas peculiares.
É natural que Jacó tivesse uma predileção especial
por José, filho de sua amada, o "primogênito do seu coração"
e tanto é assim que lhe tecera uma "túnica talar" (Gn
37,3c). Este tipo de túnica caracteriza bem o valor que José
tinha aos olhos do pai, uma dessas túnicas usadas pelos elementos
que integravam uma corte real, de mangas e cavas largas e de longo comprimento,
que por si só se impunha como algo de majestoso e incomum, capaz
até mesmo de incentivar o ciúme, e incentivou, o dos irmãos
que tomaram ódio dele (Gn 37,4). Mesmo
porque José também sonhara com os irmãos e os pais
lhe prestando reverências reais (Gn 37,6-11).
E, quando Jacó o mandou em procura dos irmãos que estavam
pastoreando o gado em local distante, acertaram atirá-lo numa cisterna
vazia para depois de lá retirá-lo e vendê-lo como escravo
aos Madianitas ou Ismaelitas, ambos descendentes de Abraão, não
se sabendo com exatidão. Cabe aqui uma observação
importante: - muitas das narrações das Escrituras vêm-nos
de diferentes tradições e são duplicadas ou mescladas,
até mesmo triplicadas, gerando alguma confusão. Não
se deve rejeitá-las simplesmente, mas somar as informações
que nos trazem sem as desprezar, eis que se referem a um mesmo fato real,
alterado as mais das vezes pela natureza das fontes. Assim a narração
de que teriam sido os ismaelitas ou madianitas não modifica a realidade
de que José fora vendido pelos irmãos, fato confirmado pelo
restante da exposição. A Jacó levaram apenas a sua
túnica talar toda embebida em sangue, causando-lhe mais um sofrimento
atroz e levando-o a um luto estremado (Gn 37,31-35).
Já se fala aqui na vida após a morte: "chorando descerei
a meu filho debaixo da terra", tal como se acreditava, lá ficando
no estado em que se falecia (Gn 37,35 / Gn 44,29
/ Nm 16,30), sendo ainda uma ofuscada "figura" do nosso Purgatório,
ou Mansão dos Mortos.
Neste ponto a história é cortada
intercalando-se uma ocorrência com Judá digna de nota em virtude
de registrar uma instituição, a Lei do Levirato, que impunha
ao cunhado (= "levir") a obriga-ção de casar-se com a viúva
do irmão, para lhe suscitar prole (Gn 38,8),
herdeiro, o qual seria descen-dência do falecido para todos os efeitos
legais e religiosos, e não dele. São costumes que se solidificam
em instituições sagradas. Judá não se importando
com a sorte da sua nora fê-la, para salvaguardar os direitos seus
e de seu marido, disfarçar-se de "mulher pública cultual",
qual seja uma mulher que ofe-recia seu corpo à divindade em "prostituição
sagrada" (Dt 23,18; Os 4,14; 1Rs 14,24; 15,12; 2Rs
23,7), conseguindo ardilosamente uma relação sexual
com o sogro Judá, recém enviuvado (Gn 38,12), sabendo-se
que, na falta de irmãos do falecido, um parente próximo (até
mesmo o pai) satisfaria o costume, da qual adveio dois filhos gêmeos
(Gn 38,14-30), um dos quais se chamou Farés,
que foi antepassado do Rei Davi (1Cro 2,4-5 / Rt
4,18-21).
Terminado o parêntesis de Judá
o narrador volta-se novamente para José, que no Egito é ven-dido
a Putifar, oficial e chefe da guarda do faraó (Gn
37,1-36) e acaba trabalhando na casa dele, gozando de sua plena
confiança pois "Deus estava com ele e por seu meio levava a bom
termo tudo o que empreendia, pelo que pôs em suas mãos todos
os seus bens" (Gn 39,1-6). A mulher pretendeu
seduzi-lo, que "por fidelidade ao seu senhor e a Deus" (Gn
39,9) recusou-a, levando-a a vingar-se acusando-o falsamente, fato
que o leva à prisão, onde se repete a "bênção
de Deus em José" fazendo com que gozasse da confiança do
carcereiro (Gn 39,10-23). Ai na prisão
fica conhecendo, presos como ele, o padeiro e o copeiro reais, dos quais
desvendou os sonhos, indo, tal como interpretara, o padeiro para a forca
e o copeiro de volta às suas funções (Gn
40,1-22), "mas o copeiro se esqueceu de José" a quem prometera
pedir ao faraó que o libertasse, inocente que era de todas as acusações
que lhe fizeram (Gn 40,23 / 40,14-15).
11. JOSÉ PASSA A GOVERNAR O EGITO
Apesar disso, Deus, "que tem os seus caminhos",
vem em seu socorro e o faraó tem dois so-nhos que o incomodam (Gn
41,1-7). Naqueles tempos acreditar em sonhos como previsões
de futuro era muito comum, por demais valorizados e até mesmo aproveitados
por Deus, que sempre se utiliza da cultura humana para seus desígnios.
Vê-se que atua na hora certa, podendo-se crer que impediu que o copeiro
se lembrasse antes da hora, até que se criasse uma situação
favorável, não apenas ao seu eleito em si, mas ao prosseguimento
da Aliança por meio dele. O faraó não encontra quem
o tranqüilize com a solução e então o copeiro
se lembra e sugere o nome de José, a quem se apresentou os sonhos.
O famoso sonho das "vacas magras e das vacas gordas", e o das " espigas
mirradas e queimadas, e espigas granosas e cheias" umas devorando as outras,
pelo que José pressagiou sete anos de fartura e sete anos de escassez.
Manifesta-se então a sabedoria de José
que ainda sugeriu um plano de ação que tanto convenceu que
foi promovido a uma espécie de Primeiro Ministro do Faraó
(Gn 41,38-44) para a execução.
É realmente ótimo administrador e durante os anos de fartura
José adquiriu e armazenou o máximo do trigo produzido que
pôde, para distribuí-lo no tempo da escassez e de fome que
atingiu o mundo todo de então (Gn 41,53-57).
Por causa disso os filhos de Jacó vão, a mando do pai, ao
Egito em busca de provisões e são reconhecidos por José,
mas não o reconhecem. Não há necessidade de se narrar
aqui toda a história com todos os detalhes, mas deverá ela
ser totalmente lida e até mesmo estudada com calma. José
foi visto pelos Padres dos Primórdios como uma "figura" de Jesus,
que vendido pelos irmãos, humilhado e após grande sofrimento,
inocente e resignado, atinge a glória, os perdoa, salva e prepara-lhes
um lugar.
José que já demonstrara especial
sabedoria e discernimento no governo, também vai fazê-lo no
trato com seus irmãos. Imediatamente após reconhecê-los,
formando eles um grupo coeso de dez "es-trangeiros", os acusa de espiões,
estratagema que usa para forçá-los a se identificarem totalmente,
pelo que fornecem todos os detalhes familiares. Conhecia-os suficientemente
bem pelo que lhe fizeram e até mesmo os motivos, por isso quis notícias
do pai e principalmente da integridade do único irmão uterino,
Benjamim, também filho de Raquel, a amada, fonte dos ciúmes
que poder-lhe-iam ter infligido igual represália. Fez tudo o que
pôde até conseguir que o trouxessem a sua presença
para vê-lo e se certificar de sua incolumidade. Também com
tais manobras e não deixando transparecer que entendia o que conversavam,
ouviu quando manifestaram com angústia o arrependimento do que fizeram
com ele, aceitando os dissabores por que José os fazia passar como
se fora um castigo pelo que lhe haviam feito de mal. Depois de muita peripécia,
buscando conhecer e certificando-se da condição moral e das
condições de vida dos irmãos, seu relacionamento com
o pai e principalmente com o seu irmão Benjamim, depois de prová-los,
José se dá a conhecer (Gn 42-45):
"Disse, então, José a seus irmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus irmãos não lhe puderam responder, pois estavam pasmados diante dele. José disse mais a seus ir-mãos: Chegai-vos a mim, peço-vos. E eles se chegaram. Então ele prosseguiu: Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. Agora, pois, não vos entris-teçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de vós. Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem sega. Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento. Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como governador sobre toda a terra do Egito" (Gn 45,3-8).
Aparece aqui além de grande sabedoria de José o seu conhecimento das coisas de Deus pelo que tranqüiliza os irmãos, com o mesmo sinal da presença da fé aliada com o amor pelos homens que vimos em Abraão, reconhecendo em todo o acontecimento o dedo de Deus a tudo dirigindo (Gn 50,19). Levam a notícia de que estava vivo e de sua posição ao pai, que demorou a crer e não foi fácil convencê-lo de que José, além de vivo, governava o Egito:
"Então subiram do Egito, vieram à terra de Canaã, a Jacó seu pai, e lhe anunciaram, dizendo: José ainda vive, e é governador de toda a terra do Egito. E o seu coração des-maiou, porque não os acreditava. Quando, porém, eles lhe contaram todas as palavras que José lhes falara, e vendo Jacó, seu pai, os carros que José enviara para levá-lo, rea-nimou-se-lhe o espírito; e disse Israel: Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra. Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaac"(Gn 45,25-46,1).
A princípio quis apenas rever seu filho antes de morrer. Chegando a Bersabéia, local onde residia Abraão, temeu pelo prosseguimento da Aliança em terra estranha distinta da prometida, até aquele momento indefinido, o que o levou ao oferecimento do sacrifício, buscando saber qual seria a vontade de Deus:
"Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde ofereceu sacrifí-cios ao Deus de seu pai Isaque. Falou Deus a Israel em visões de noite, e disse: Jacó, Jacó! Respondeu Jacó: Eis-me aqui. E Deus disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer para o Egito; porque eu te farei ali uma grande nação. Eu desce-rei contigo para o Egito, e certamente te farei tornar a subir; e José porá a sua mão so-bre os teus olhos" (Gn 46,1-4).
O "não temas" da resposta evidencia a indecisão de Jacó, temor que sempre assalta o eleito face ao contraditório do mundo com os planos de Deus (Gn 15,1; 26,24c). Após o sacrifício e pela visão que teve fica-lhe claro que no Egito, em prosseguimento da Aliança, formar-se-ia dele "uma grande nação" e então desce, não mais para apenas "ver José antes de morrer", mas com todos os seus familiares e bens, toda a Tribo dos Filhos de Israel. Lá fixariam residência "em peregrinação", mas desde o início com certa animosidade, pois "os egípcios detestam todos os pastores de rebanhos" (Gn 46,33-34), o antigo preconceito aos nômades naturalmente. Assim previu José, levando-os para a região de Gessem, onde poderiam permanecer ou se mover sem molestar ou serem molestados, e onde a sua religião poderia ser preservada incólume, sem se contaminar com a idolatria egípcia.
12. A ALIANÇA E AS BÊNÇÃOS
DE JACÓ NO EGITO
Após tal reviravolta, Jacó, já vivendo no Egito, se volta para a rotina do passado e passa a se lembrar de vários acontecimentos que lhe exigiram a atenção na época, agora quase esquecidos, com os quais até se conformara e que agora se lhe apresentavam novamente com vigor renovado:
"...viremos, eu e tua mãe, e teus irmãos, a inclinar-nos com o rosto em terra dian-te de ti? ... seu pai meditava o caso no seu coração" (Gn 37,10-11).
É mais que evidente que "meditava o caso no seu coração" quanto ao que ocorria com referência à Aliança procurando saber por onde Deus a prosseguiria. Tudo lhe mostrava então que era por meio de José e sua descendência que ela se concretizaria, e passa a agir na direção que se lhe descortinava "o sinal dos tempos". Com o seu desaparecimento tudo mudara e Jacó passara a viver de acordo com o que Deus dispusera, uma vez que por si mesmo nada podia fazer. Agora, porém, que "o sonho de José se realiza" tal como "meditava", exige do filho, por primeiro, que não o sepulte em terra estrangeira, naquele tempo comparado a uma terrível maldição, fazendo-o jurar "com a mão debaixo da coxa", comprometendo-se assim na própria virilidade tal como se usava (Gn 47,29-31). Em segundo lugar, sabendo para onde caminhava o Plano de Deus com referência à Aliança, passa a preparar o terreno onde plantar a Bênção da Primogenitura e onde transplantar a Bênção da Aliança, tal como foi esta prometida a Abraão, que a deu ao seu pai Isaac e este lha transmitiu, como vinha de novo "meditando em seu coração" (Gn 37,11). Adoecendo, José leva-lhe seus dois filhos, Efraim e Manassés, nascidos no Egito de seu casamento com Asenete (Gn 41,45.50-52). Concluído que é em José que te-ria prosseguimento, é a ele que destina ambas as bênçãos, e lhe entrega a dupla parte da herança (Dt 21,17) em forma de adoção dos dois filhos dele como seus, tornando-os herdeiros como qualquer um dos outros filhos e com eles concorrendo à herança (Gn 48,5-6):
"E disse Jacó a José: O Deus Todo-Poderoso me apareceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou, e me disse: 'Eis que te farei frutificar e te multiplicarei; tornar-te-ei uma multidão de povos e darei esta terra à tua descendência depois de ti, em possessão perpétua'. Agora, pois, os teus dois filhos, que nasceram na terra do Egito antes que eu viesse a ti no Egito, são meus: Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão; mas a prole que tiveres depois deles será tua; se-gundo o nome de seus irmãos serão eles chamados na sua herança. (...) Quem são es-tes? Respondeu José a seu pai: Eles são meus filhos, que Deus me tem dado aqui. Continuou Israel: Trazei-mos aqui, e eu os abençoarei. (...) E José tomou os dois, a Efraim com a sua mão direita, à esquerda de Israel, e a Manassés com a sua mão es-querda, à direita de Israel, e assim os fez chegar a ele. Mas Israel, estendendo a mão direita, colocou-a sobre a cabeça de Efraim, que era o menor, e a esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as mãos assim propositadamente, sendo embora este o primogênito. E abençoou a José, dizendo: O Deus em cuja presença andaram os meus pais Abraão e Isaac, o Deus que tem sido o meu pastor durante toda a minha vida até este dia, o anjo que me tem livrado de todo o mal, abençoe estes meninos, e seja chamado neles o meu nome, e o nome de meus pais Abraão e Isaac; e multipliquem-se abundantemente no meio da terra" (Gn 48,3-16).
Acreditava-se que pelas mãos se comunicavam estado, poderes ou virtudes da pessoa (Lv 1,4), mais ainda pela mão direita, que era assim depositada na cabeça do primogênito, alvo de maior bênção. Há uma inversão e Jacó abençoa Efraim como se fora o mais velho de José e Manassés como o mais novo, anunciando a preeminência dele sobre o irmão maior (Gn 48,17-20). Apesar do protesto do pai deles, encerra esse primeiro momento praticando o ato a que se propusera, mantendo as mãos trocadas, repetindo a mesma tônica da bênção de Abraão (Gn 12,2-3) e, separadamente a José, antecipa uma doação de propriedade (Gn 38,18-20) antes da conquista e do sorteio que se fará da Terra Prometida:
"Depois disse Israel a José: Eis que eu morro; mas Deus será convosco, e vos fará tor-nar para a terra de vossos pais. E eu te dou um pedaço de terra a mais do que a teus irmãos, o qual tomei com a minha espada e com o meu arco da mão dos amorreus" (Gn 48,21-22).
Essa determinação tem a mesma dimensão da que fará José a seus irmãos (Gn 50,24-25), o que evidencia a transitoriedade da mudança do tribo para o Egito. Além disso, consoante a Bênção de Ja-có, a Tribo de Efraim na realidade será bem mais numerosa e de grande projeção e poder no seio do Povo de Israel, e irá se destacar durante a Monarquia, quando irá fundar, constituir e conduzir o Reino do Norte, na sedição das tribos (1Rs 11,26 / 1Rs 12). Sua preeminência será tão notória que o próprio Moisés a afirmará, já no seu tempo, comparando-a com Manassés:
"...Eis o seu novilho primogênito; ele tem majestade; e os seus chifres são chifres de boi selvagem; com eles rechaçará todos os povos, sim, todas as extremidades da terra. Tais são as miríades de Efraim, e tais são os milhares de Manassés" (Dt 33,17c).
Além disso, aqui nesse trecho, o próprio Moisés trata José como "novilho primogênito, com majestade e chifres de boi selvagem". Esta narrativa da Bênção dos filhos de José é um ótimo exemplo daquela Regra oferecida na Introdução para não se ater aos capítulos e versículos, mas sempre observar o começo e o fim do assunto que se lê. Observe-se que a divisão entre capítulo 48 e 49 não tem sentido e é aleatória, não se tratando de momentos diferentes mas do prosseguimento de um mesmo ato, a Bênção de Jacó a todos os seus filhos. Então, após confirmar a Aliança de Abraão, com a distribuição inicial da Bênção para José e seus filhos Efraim e Manassés, Jacó se volta para seus outros filhos e completa o seu trabalho com uma locução, que se conhece ora como oráculo (Gn 49,1b) ora como bênção (Gn 49,28c):
"Depois chamou Jacó a seus filhos, e disse: Ajuntai-vos para que eu vos anuncie o que vos há de acontecer nos dias vindouros. Ajuntai-vos, e ouvi, filhos de Jacó; ouvi a Israel vosso pai..." (Gn 49,1-2) / "Todas estas são as doze tribos de Israel: e isto é o que lhes falou seu pai quando os abençoou; a cada um deles abençoou segundo a sua bênção" (Gn 49,28).
Ao que tudo indica porém, teria sido proferida próximo da própria morte que, com o desenrolar da História do Povo de Israel, foi sendo acrescida de fatos pertinentes às tribos que tinham referência até mesmo remota com as palavras de Jacó, mantidos no contexto pelo narrador tudo o que lhe chegou por tradição oral, e na forma de um poema. Isso acontece muito em Bíblia eis que não se escreve o fato no momento de sua ocorrência, mas muito tempo após, já mesclado com várias acomodações. Por causa disso, é necessário que o oráculo de Judá seja examinado, principalmente no seu conteúdo religioso, destacando-se o seu teor messiânico. Ainda, no aspecto cultural é de se verificar a existência de detalhes da primogenitura que vai nos realçar a sua importância, principalmente quando se dirige a Rubem, que como já vimos traiu o pai, praticando um "incesto" com a concubina dele, Bala, a serva de Raquel (Gn 35,22):
"Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, preemi-nente em dignidade e preeminente em poder. Impetuoso como a água, não reterás a preeminência; porquanto subiste ao leito de teu pai; então o profanaste. Sim, ele su-biu à minha cama" (Gn 49,3-4).
Este trecho exibe parte da importância do primogênito principalmente quando o define como "minha força e as primícias do meu vigor", qual seja, onde se manifesta a força geradora de Jacó com toda a capacidade, no sentido bíblico de "primícias", como o impulso inicial e o princípio de fecundidade, anunciando farta colheita. Por isso é por natureza "preeminente em dignidade e preeminente em poder", sendo assim por si só, uma qualidade de sua própria constituição (cfr. Gn 43,33). Tudo isso ele perdeu - "subiste ao leito de teu pai, e o profanaste", "não te pertencerá mais a preeminência que tens direito de gozar". Essa preeminência compreende até mesmo a chefia do clã ou da tribo ou da família:
"De Hosa, dos filhos de Merári, foram filhos: Sínri o chefe, ainda que não era o pri-mogênito, contudo seu pai o constituiu chefe..." (1Cro 26,10).
O pai tinha o direito de ratificar ou retirar o direito do primogênito. Assim, perdido por Ru-bem, o direito teria de ir logicamente para Simeão e Levi, mas, por sua vez, também traíram o pai (Gn 34,25-31), no caso de Dina, e não o recebem, com o ato deles não querendo compactuar Jacó:
"Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. No seu con-cílio não entres, ó minha alma! com a sua assembléia não te ajuntes, ó minha glória! porque no seu furor mataram homens, e na sua ira estropiaram bois. Maldito o seu fu-ror, porque violento! maldita a sua ira, porque cruel! Dividi-los-ei em Jacó, e os es-palharei em Israel" (Gn 49,5-7).
A frase "dividi-los-ei em Jacó
e os espalharei em Israel" mostra a modificação operada no
texto com os acontecimentos que ocorreram após o seu pronunciamento.
Jacó não tinha condições de saber que o seu
povo seria conhecido por "Israel", nem que ambas as tribos seriam tragadas
pelas outras, praticamente desaparecendo. Mas, ambos praticaram juntos
o ato injusto e comprometedor de que se ressente ainda e juntos deveriam
participar das conseqüências e da mesma perda. Assim, além
de não gozar da Primogenitura, Simeão vai se mesclar no território
de Judá (Js 19,1-9) e Levi, apesar
do exercício do sacerdócio que lhe adveio pela postura no
episódio do Bezerro de Ouro (Ex 32,26-29),
teve suas propriedades disseminadas por toda a nação (Js
21,1-40). Ora, os vaticínios bíblicos nunca são
mencionados assim com tanta clareza, sem simbologia adequada e misteriosa.
Por causa desse fato, não faz mal repetir, o que se referiu a cada
um e a todos os filhos de Israel, bem como aquilo do vaticínio de
Jacó que se entendeu haver sido cumprido de alguma forma, foi "esclarecido"
por um redator posterior, acrescido e incorporado ao contexto, o que se
denomina de glosa, que os copistas e tradutores respeitaram e mantiveram
como parte do conteúdo.
Percebe-se que deve ter sido um problema difícil
para Jacó esse de desenvolver e conciliar o prosseguimento da Aliança
entre os filhos, pois caso seguisse uma ordem normal e lógica, a
primoge-nitura caberia agora a Judá, que assim esperava, ficando
definido o caminho. Não que necessariamente devesse seguir uma hierarquia
determinada pela ordem cronológica dos nascimentos, mas deve ter
se-guido uma qualquer, mesmo que pensada, planejada e amadurecida no decorrer
de sua vida toda. Ago-ra, o advento de José da forma como aconteceu
alterou tudo clamando por uma revisão, já que um novo elemento
vem integrar a disposição racional já deliberada e
pronta. Principalmente por "conser-var na memória os fatos" (Gn
37,11b), e já lhe "ter urdido uma túnica talar" (Gn
37,3c), e os "sonhos que teve" (Gn 37,5.9),
que naquele tempo eram vistos como presságios do futuro, o convencerem
en-tão do lugar onde iria desaguar a corrente da Aliança.
Sendo assim, o que planejara com o seu desapa-recimento ficaria alterado
não mais se admitindo que seguiria tudo apenas em Judá e,
com o retorno de José, impunha-se uma revisão total, pelo
que parece afirmar:
"Judá, a ti te louvarão teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos: diante de ti se prostrarão os filhos de teu pai. Judá é um leão novo. Voltaste da presa, meu filho. Ele se encurva e se deita como um leão, e como uma leoa; quem o desperta-rá? O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence; e a ele obedecerão os povos. Atando ele o seu jumentinho à vide, e o filho da sua jumenta à videira seleta, lava as suas roupas em vinho e a sua vestidura em sangue de uvas. Os olhos serão escurecidos pelo vinho, e os dentes brancos de leite" (Gn 49,8-12).
O colorido messiânico desse vaticínio é facilmente visível, onde aparece a força guerreira (Gn 49,9), fartura e prosperidade (Gn 49,11-12), realçadas com imagens simbólicas, sem necessidade de muita análise. É preciso, porém, ler um trecho de um livro bem adiante, para melhor precisar outros acontecimentos a que se subordinaram esse oráculo de Jacó, modificando-o:
"Quanto aos filhos de Rúben, o primogênito de Israel, pois ele era o primogênito; mas, porquanto profanara a cama de seu pai, deu-se a sua primogenitura aos filhos de José, filho de Israel, de sorte que a sua genealogia não é contada segundo o direito da primogenitura; pois Judá prevaleceu sobre seus irmãos, e dele proveio o príncipe; porém a primogenitura foi de José..." (1Cro 5,1-2).
E é o próprio redator do livro de Crônicas quem nos revela, pela boca de Davi, o modo como Judá prevaleceu sobre seus irmãos:
"Todavia o Senhor Deus de Israel escolheu-me de toda a casa de meu pai, para ser rei sobre Israel para sempre; porque a Judá escolheu por príncipe, e na casa de Judá a casa de meu pai, e entre os filhos de meu pai se agradou de mim para me fazer rei sobre todo o Israel" (1Cro 28,4).
Assim, em Davi, descendente de Judá, foi cumprido o oráculo:
"Judá, a ti te louvarão teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimi-gos: diante de ti se prostrarão os filhos de teu pai" (Gn 49,8).
Uma comparação mostrará
que já nos primórdios se dava a esse oráculo um sentido
profundamente messiânico, como se lê em Apocalipse, que tirou
a denominação de "leão" para Jesus das palavras de
Jacó:
|
|
|
| Judá é um | "E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis que o |
| leãozinho. Voltaste da presa, meu
filho.
Ele se encurva e se deita como um leão, e como uma leoa; quem o despertará?" |
Leão da tribo de Judá, a
raiz de Davi,
venceu para abrir o livro e romper os seus sete selos." |
E é muito aceitável esse conteúdo messiânico por causa de um fato muito conhecido do Evangelho de Mateus, quando nos narra a visita dos Reis Magos, onde é digno de nota o que perguntaram e o que aconteceu por causa disso:
"Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo. O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se, e com ele toda a Jeru-salém; e, reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, pergunta-va-lhes onde havia de nascer o Cristo. Responderam-lhe eles: Em Belém da Ju-déia..." (Mt 2,2-5).
Com base neste trecho, pergunta-se:
Essas indagações mostram
que ao tempo de Herodes, o Messias (Cristo, em grego) era esperado, eis
que o rei se perturbou e só quis saber "onde nasceria", do que foi
informado, tendo como certa a sua existência. É que quando
Herodes, que não era israelita nem da Tribo de Judá, foi
nomeado rei por Roma, quando o cetro não mais pertenceu à
Tribo de Judá, cumpria-se o vaticínio de Jacó, uma
vez que "viria já aquele a quem pertence e a ele obedecerão
os povos" (Gn 49,10cd). Tanto é as-sim,
que, com base nas informações que recebeu, "Herodes mandou
matar todos os meninos de até dois anos" (Mt
2,16), pelo que o Evangelista viu cumprido antigo oráculo
(Jr 31,15).
Tudo mostra que, pelos acontecimentos acrescidos,
a Judá foi preservada a chefia quando Israel se constituísse
como os outros povos em reino, já que fala em "cetro", com um colorido
"messiâ-nico". Não é oportuno se discutir isso aqui
mas parece uma glosa para justificar a posse de Judá pela coroa
israelita, eis que impossível para Jacó prever que Israel
seria uma monarquia em certa ocasião histórica, pela imprecisão
normal de todos os vaticínios que a Escritura no oferece (Gn
49,1-10), e a resistência oferecida por Samuel com base na
doutrina quando o povo a pediu (1Sm 8).
Porém, a José é dada
a Bênção da Primogenitura, com todos os seus elementos,
"todas as bênçãos", inclusive a indispensável
consagração, prosseguindo-se nele a Aliança:
"José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto a uma fonte; seus raminhos se estendem sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e perseguiram, mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram fortalecidos pelas mãos do Pode-roso de Jacó, o Pastor, o Rochedo de Israel, pelo Deus de teu pai, o qual te ajuda-rá, e pelo Todo-Poderoso, o qual te abençoara, com bênçãos dos céus em cima, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excedem as bênçãos dos montes eternos, as coisas desejadas dos eternos outeiros; sejam elas sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça daquele que foi consagrado de seus irmãos" (Gn 49,22-26).
À tribo de Efraim, "pela imposição
da mão direita de Jacó", caberia então o exercício
da chefia do clã, após José, na forma da tradição
cultural, correspondente ao equilíbrio tribal em vigor na época.
Tudo fica mais claro com uma revisão sucinta do passado, que agora
nos impõe para maior clareza e necessidade ao raciocínio.
É que José era o filho predileto de Jacó e os seus
irmãos o odiavam por isso e por sonhos dele que previam sua supremacia
futura (Gn 37,3-4.5-11), sonhos esses que
se cumpri-ram (Gn 42,6.9). José e Judá
são os dois filhos primogênitos de ambas as mulheres de Jacó,
Raquel e Lia. De Lia, Judá seria o primogênito em lugar de
Rúben, Simeão e Levi que perderam o direito (Gn
49,4-6); e, de Raquel, José, a quem Jacó amava com
predileção e a quem devolveu a primogenitura. Por sua vez
fora a tribo de Judá abençoada por Jacó com um colorido
messiânico (Gn 49,8-12), e ca-bia-lhe
o direito da primogenitura na ordem cronológica de nascimento (Gn
29,31-35). Assim como Esaú odiou de morte a Jacó por
causa da primogenitura, pelo mesmo motivo é de se esperar o ressen-timento
de Judá quando seria destinada por predileção a José.
Não se deve perder de mira que foi Judá quem chefiou a venda
de José para os ismaelitas (Gn 37,26-27),
contra a vontade de Rúben que o que-ria restituir ileso ao pai (Gn
37,22), e isso se deu antes da bênção de Jacó
(Gn 49). E, no futuro, tanto com a correspondente
bênção, como com Efraim e Manassés igualados
a Rúben e Simeão (Gn 48,5) e
na porção maior dada a José (Gn
48,22), Jacó restabelece a José o seu lugar. A isso
é que Judá não concorda, se propõe e consegue
retomá-la. Assim, os antagonismos familiares fervilhavam, fermentan-do-se
uma divisão futura que irá certamente ocorrer. Não
é à toa que em Dt. 21,17 se
vai proibir a preferência do pai pelo primogênito da mulher
amada, coincidência demais com os fatos da tribo de Jacó.
Os demais elementos integrantes do oráculo
de Jacó e atinentes a seus outros filhos, as mais das vezes históricos
ou geográficos de cada tribo, podem ser facilmente verificados na
medida em que os demais livros da Bíblia mencionarem o nome deles,
quando então dever-se-á fazer uma comparação
com esse texto. A essa altura é bom que se recorde que nem sempre
é possível conhecer de imediato todos os detalhes integrantes
das Escrituras, eis que condicionando-se à cultura humana com todas
as suas implicações, muitas vezes hoje não se pode
compreender com exatidão o sentido das narrativas escritas para
os homens daquele tempo e não para os atuais. Um exemplo melhor
esclarecerá: suponhamos que alguém nesses dias escreva algo
assim: "então embananou o meio do campo e tudo acabou em samba".
Ora, se tal escrito for guardado durante quatro mil anos e então
alguém ler essa frase, se desconhecer a "bananada", o "futebol"
e a "nossa música", entenderá alguma coisa? Claro que não,
e aquilo que hoje não tem nenhum mistério para nós,
ele não irá nunca compreender se não fizer um estudo
aprofundado de nossa cultura. E se não conseguir fazê-lo terá
que se contentar com uma compreensão total de nossa época
e enquadrar a afirmação o melhor possível. Assim acontece
muitas ve-zes quando se lê a Bíblia. Jesus Cristo é
quem vai esclarecer o que é essencial, com a Revelação
defi-nitiva que faz, e que sem Ele é impossível, como afirma
São Paulo (2Cor 3,14-16).
erminadas as Bênçãos,
Jacó se despede:
"Depois lhes deu ordem, dizendo-lhes: Eu estou para ser congregado ao meu povo; sepultai-me com meus pais, na cova que está no campo de Efrom, o heteu, na cova que está no campo de Macpela, que está em frente de Manre, na terra de Canaã, cova esta que Abraão comprou de Efrom, o heteu, juntamente com o respectivo campo, como propriedade de sepultura. Ali sepultaram a Abraão e a Sara, sua mulher; ali sepultaram a Isaque e a Rebeca, sua mulher; e ali eu sepultei a Lia. O campo e a cova que está nele foram comprados aos filhos de Hete. Acabando Jacó de dar estas instruções a seus fi-lhos, encolheu os seus pés na cama, expirou e foi congregado ao seu povo" (Gn 49,29-33).
Quando Abraão comprou a gruta onde sepultou Sara (Gn 23,1-20), tal como se pensava na antigüidade, tomou posse da Terra Prometida, sua residência para sempre, e é para o mesmo lugar que deverá ser transportado Jacó, "para ser congregado ao seu povo", tal como se acreditava na "vida após a morte", como se verá também em outros lugares da Escritura, o que foi feito (Gn 50,7-14). Sepultado o pai, José é assediado pelos irmãos, que dele agora temiam uma represália pelo que lhe fizeram, ao que lhes comunica a isenção de qualquer mágoa e de profunda fé na direção dos acontecimentos por Deus (Gn 50,15-21). E, quando se aproxima o fim de seus dias, bem vividos, dita as últimas ordens a seus irmãos, o que comprova a sua qualidade de "chefe", de "primogênito no exercício de suas funções" em direção aos compromissos da Aliança:
"Depois disse José
a seus irmãos: Eu morro; mas Deus certamente vos visitará,
e vos fará subir desta terra para a terra que jurou a Abraão,
a Isaque e a Jacó. E José fez jurar os filhos de Israel,
dizendo: Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar daqui
os meus ossos. Assim morreu José, tendo cento e dez anos de idade;
e o embalsamaram e o puseram num caixão no Egito"
(Gn 50,24-26).
"Moisés levou
consigo os ossos de José, porquanto havia este solenemente ajuramentado
os filhos de Israel, dizendo: Cer-tamente Deus vos visitará; e vós
haveis de levar daqui convosco os meus ossos" (Ex 13,19) / "Os ossos de
José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterra-dos
em Siquém, naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhos
de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se
tornara herança dos filhos de José"
(Js 24,32) .
Aqui termina o Livro de Gênesis, base de todo estudo da Bíblia, trazendo gloriosa e santa história dos Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, que lançaram os fundamentos de nossa fé. Nenhuma menção honrosa será maior que a da própria Igreja, cujos alicerces lançaram e ergueram:
"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para "fora do seu país, da sua parentela e da sua casa" (Gn 12,1), para o fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5): "Em ti serão abençoadas todas as nações da Terra" [Gn 12,3 LXX (cfr. Gl 3,8)]".
"O povo saído de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo eleito (Rm 11,28), chamado a preparar a reunião, um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja (Jo 11,52; 10,16). Será o tronco em que serão enxertados os pagãos tornados crentes (Rm 11,17-18,24)".
"Os patriarcas, os
profetas e outras personagens do Antigo Testamento foram, e se-rão
sempre, venerados como santos, em todas as tradições litúrgicas
da Igreja" (Catecismo da Igreja Católica, n s.º 59, 60 e 61
- destaques a propósito)".