Existe um grande mal entendido que é preciso desde já esclarecer para se compreender bem a Páscoa em seus fundamentos, significado e objetivo. Principalmente para nós católicos por causa da Eucaristia a Ela indestacavelmente unida. Pelo fato de se supor, e São Jerônimo informar (Ex 12,11), que o significado original da palavra seria "passagem", passou-se a se entender e definir a Páscoa "exclusivamente" como "passagem". Mas, uma pequena frase de São Paulo deixa claro que se denomina de "Páscoa" ao cordeiro que é imolado na cerimônia:
"...Cristo, NOSSA PÁSCOA, já foi imolado" (1Cor 5,7).
Também, os Apóstolos e Jesus, quando se referem à preparação da Páscoa usam a expressão "comer a páscoa" (Mt 26,17; Mc 14,12; Lc 22,8) e, como ninguém come "passagem", a Páscoa é o Cordeiro. Tudo indica que a confusão começa quando se diz na Vulgata de S. Jerônimo:
"Assim pois o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; ESTA É A PÁSCOA (ISTO É 'PASSAGEM') DO SENHOR" (Ex 12,11).
A inclusão do parêntesis "(isto é 'passagem')", na tradução feita por S. Jerônimo, após a palavra "páscoa" e no versículo transcrito, levou a se confundir a solenidade com o significado da palavra que informa. Não fosse suficiente o que informam os Evangelistas e a frase de São Paulo que acima se transcreveu, o próprio texto esclarece em vários lugares:
"Mas se a família for pequena demais para um CORDEIRO, (...) na proporção do que cada um possa COMER..." (Ex 12,4).
"Tomarão do sangue (...) nas casas em que o COMEREM. E naquela noite COMERÃO... Não COMEREIS DELE cru...(...) Assim pois o COMEREIS: Os vossos lombos cingidos, as vossas sandálias nos pés, e o vosso cajado na mão; e o COMEREIS apressadamente; esta é a PÁSCOA (...) DO SENHOR" (Ex 12,7-11).
"Disse mais o Senhor a Moisés e a Aarão: ESTA É A ORDENANÇA DA PÁSCOA; NENHUM, ESTRANGEIRO COMERÁ DELA; mas todo escravo comprado por dinheiro, depois que o houveres circuncidado, COMERÁ DELA. O forasteiro e o assalariado não COMERÃO DELA. Numa só casa se COMERÁ O CORDEIRO (...) NENHUM INCIRCUNCISO COMERÁ DELA" (Ex 12,43-48).
Por outro lado, já se tornou clássica a expressão "Cordeiro Pascal", por ser "ele, a Páscoa, o cordeiro que se imola e se come", e não se pode confundir a vítima que se imola com a cerimônia comemorativa. Ela, em si mesmo considerada, é o sacrifício especial da comunidade de todo o Povo de Israel, celebrado num mesmo momento, em comemoração ao fato de que Deus o protege e fere de morte os primogênitos do Egito. Causa com isso, além de profundo sentimento de unidade, o de "nacionalidade" se iniciando, e a libertação deles, em cumprimento à Aliança de Abraão, Isaac e Jacó (Ex 6,7-8). Há entre a Páscoa e a Aliança estreita e indissolúvel vinculação:
"Então Deus, ouvindo-lhes os gemidos, lembrou-se de sua Aliança com Abraão, com Isaac e com Jacó" (Ex 2,24).
"E quando vossos filhos vos perguntarem: Que quereis dizer com este culto? Respondereis: Este é O SACRIFÍCIO DA PÁSCOA DO SENHOR, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios, e livrou as nossas casas" (Ex 12,26-27).
"Este é O SACRIFÍCIO..." Primeiramente, quando se fala em sacrifício se fala em vítima imolada. A idéia de sacrifício escapa ao homem atual, culturalmente desligado de seu uso e de sua finalidade. Para o israelita porem, tinha um sentido religioso muito profundo e essencial à sua fé, como informa S. Paulo:
"Vede Israel segundo a carne: os que comem dos sacrifícios não estão em comunhão com o altar?" (1Cor 10,18).
É a ambicionada "Comunhão com Deus", encontrada na santificação da oferenda do sacrifício ("sacri - ficar" = "ficar sagrado"). O próprio Jesus vai se referir a ele em várias oportunidades, ratificando o seu valor e não o excluindo nem condenando seu uso, mas reforçando sua eficácia como meio de santificação:
"Cegos! Pois qual é maior: a oferenda, ou o altar que santifica a oferenda?" (Mt 23,19)
"Portanto, se estiveres apresentando a tua oferenda no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferenda, e vai reconcilia-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferenda" (Mt 5,23-24).
A Páscoa portanto é um sacrifício e como tal destinada à comunhão e santificação, não apenas individual mas de toda a comunidade nacional israelita, pela imolação conjunta e concomitante, em todas as famílias de todo o Povo de Israel:
"Ora, o Senhor falou a Moisés e a Aarão na terra do Egito: Este mês será para vós o princípio dos meses; será o primeiro dos meses do ano. Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Ao décimo dia deste mês tomará cada um para si um cordeiro por família, um cordeiro para cada casa. Mas se a família for pequena demais para um cordeiro, tomá-lo-á juntamente com o vizinho mais próximo de sua casa, conforme o número de pessoas; na proporção do que cada um puder comer. O cordeiro será sem defeito, macho e de um ano, o qual escolhereis entre as ovelhas ou entre os cabritos, e o guardareis até o décimo quarto dia deste mês; e toda a assembléia da congregação de Israel o matará à tardinha. Tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambos os umbrais e na verga da porta, nas casas em que o comerem. E naquela noite comerão a carne assada ao fogo, com pães ázimos; com ervas amargas a comerão. Não comereis dele nada cru, nem cozido em água, mas assado ao fogo; a sua cabeça com as suas pernas e com a sua fressura. Nada dele deixareis até pela manhã; mas o que dele ficar até pela manhã, queimá-lo-eis no fogo. Assim pois o comereis: Os lombos cingidos, as sandálias nos pés, e o cajado na mão; e o comereis às pressas: esta é a páscoa para o Senhor. Porque naquela noite passarei pela terra do Egito, e ferirei todos os primogênitos na terra do Egito, tanto dos homens como dos animais; e farei justiça sobre todos os deuses do Egito; eu o Senhor. Mas o sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu o sangue, passarei adiante, e não haverá entre vós praga para vos destruir, quando eu ferir a terra do Egito. E este dia vos será um memorial, e celebrá-lo-eis como uma festa para o Senhor; através das vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo" (Ex 12,1-14).
Com a sua instituição introduziu-se uma modificação no calendário, começando-se o ano no dia daquela comemoração inicial, ainda em uso entre os judeus. Devia ser imolado um cordeiro por família, ritual que será modificado posteriormente (Dt 16,1-8 / 2Cro 30,1-13; 35,10-14). Se pequena, a família unia-se à vizinha, sempre computando-se o que iam comer, evitando-se a sobra, já que era uma vítima sagrada, e se houvesse deveria ser queimada totalmente, para não ser profanada. O cordeiro devia ser macho, sem defeito e de um ano, podendo ser um cordeiro ou um cabrito, não se podendo quebrar-lhe os ossos (Ex 12,46). Toda a comunidade israelita o imolaria ao crepúsculo e com o sangue que fora recolhido em uma bacia (Ex 12,22) ungir-se-iam os marcos e a travessa da porta onde o comiam. Desde Noé o sangue tem um sentido vinculado à vida da vítima e não é comido, mas derramado na terra, em torno do altar:
"A carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis" (Gn 9,4).
Comeriam-no numa mesma noite com pães ázimos por causa da saída às pressas, não dispondo de tempo para levedar a massa, com ervas amargas para se lembrar do amargor da vida no Egito e assado ao fogo evitando-se com isso a ingestão de carne crua e de sangue. Seria comido "...às pressas... cingidos os rins, sandália nos pés e bordão na mão...", paramentos que sempre lhes lembrarão a libertação do Egito, preparados assim para caminhar em terreno de difícil locomoção necessitando para isso de se levantar a túnica e amarrá-la à altura dos rins para não se prender no chão irregular, de calçar sandálias para a proteção dos pés e do cajado para auxiliar os passos que dariam em corrida para a liberdade e o longo trajeto que os esperava. Jesus, quando enviar seus discípulos em missão (Mt 10), dar-lhes-á instruções baseadas nesse episódio mostrando a repetição da conquista e identificando-as com as suas diferenças, dispensando os discípulos dos objetos do despojo que se fez dos egípcios de objetos de ouro, prata tais como os adornos, brincos etc., das provisões para a viagem, túnica e alforje, cajado, sandálias nos pés... Por sua vez, também, insinua uma identidade com a Páscoa dos Israelitas, pelas mesmas palavras que usa, refletindo uma situação a Ela vinculada, ao narrar e comparando-as:
"Não leveis ouro, nem prata, nem cobre nos vossos cintos, nem para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado..." (Mt 10,9-10).
"É assim que devereis comê-lo ('o Cordeiro Pascal'): com os lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado nas mãos..." (...)
"Os filhos de Israel fizeram como Moisés havia dito, e pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas (...) os egípcios lhes davam o que pediam;..." (Ex 12,11.35-36).
Dispondo-as em duas colunas e remanejando-as
para melhor visão, vê-se a semelhança de palavras e
a diferença de situações, tal como desejou Jesus:
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| Não leveis
cobre nos vossos cintos, nem sandálias, nem cajado. |
É assim que devereis comê-lo:
os lombos cingidos sandálias nos pés cajado nas mãos. |
| Não leveis | Os filhos de Israel fizeram como Moisés havia dito, e pediram aos egípcios |
| ouro, nem prata
nem cobre nos vossos cintos, nem para o caminho, nem duas túnicas. |
Objetos de ouro, objetos de prata
e roupas. |
"... proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebeste, de graça dai" (Mt 10,7-8).
Com a diferença do dia de início, no dia seguinte, quase concomitantemente sem se confundirem, celebrava-se a Festa dos Ázimos em que durante sete dias só se comia pão sem fermento em comemoração à saída do Egito (Ex 12,15-20). A Páscoa deverá ser uma Festa Nacional dos israelitas, comemorada todos os anos e por todas as gerações, sempre recordando aos filhos o seu significado:
"Porque o Senhor passará para ferir aos egípcios; e, ao ver o sangue na verga da porta e em ambos os umbrais, o Senhor passará aquela porta, e não deixará o destruidor entrar em vossas casas para vos ferir. Portanto guardareis isto por estatuto para vós e para vossos filhos, para sempre. Quando, pois, tiverdes entrado na terra que o Senhor vos dará, como tem prometido, guardareis este culto. E quando vossos filhos vos perguntarem: Que quereis dizer com este culto? Respondereis: Este é o sacrifício da páscoa do Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios, e livrou as nossas casas. Então o povo inclinou-se e adorou. E foram os filhos de Israel, e fizeram isso; como o Senhor ordenara a Moisés e a Aarão, assim fizeram" (Ex 12,23-28).
"Esta é uma noite que se deve guardar ao Senhor, porque os tirou da terra do Egito; esta é a noite do Senhor, que deve ser guardada por todos os filhos de Israel através das suas gerações" (Ex 12,42).
A explicação do rito, que o pai dá ao filho, parece levar ao nome que se dá à festa de "passagem" como é conhecida, mais a libertação, o fato de que "livrou nossas casas", mas a Páscoa propriamente dita é a vítima imolada. De acordo com a segunda transcrição acima vê-se que o comemorado na solenidade é "esta é a noite do Senhor, porque tirou os Filhos de Israel da terra do Egito, que deve ser guardada por todas as gerações" (Ex 12,42). Comemora-se a libertação do Povo de Israel do Egito onde foi escravo durante quatrocentos e trinta anos, cumprindo-se o que anunciara quando da Aliança com Abraão:
"Então disse o Senhor a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens" (Gn 15,13-14).
"Ora, o tempo que os filhos de Israel moraram no Egito foi de quatrocentos e trinta anos. E aconteceu que, ao fim de quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do Senhor saíram da terra do Egito" (Ex 12,40-41).
E os israelitas celebraram então a primeira Páscoa da História da Salvação, e aquilo que Deus dissera aconteceu. Recusaram os egípcios a libertar os israelitas e Deus cumpre o que prometeu:
"E foram os filhos de Israel, e fizeram isso; como o Senhor ordenara a Moisés e a Aarão, assim fizeram. E aconteceu que à meia-noite o Senhor feriu todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se assentava em seu trono, até o primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais. E Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos, e todos os egípcios; e fez-se grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto" (Ex 12,28-29).
Imediatamente o Faraó e os egípcios conheceram a qual Deus deveriam respeitar (Ex 12,32 - "... abençoai a mim também") e resolve-se definitivamente e sem mais delongas ou condições a saída dos israelitas em fuga do Egito:
"Então Faraó chamou Moisés e Aarão de noite, e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; e ide servir ao Senhor, como tendes dito. Levai também convosco os vossos rebanhos e o vosso gado, como tendes dito; e ide, e abençoai-me também a mim. (...) E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhe davam o que pedia, e despojaram os egípcios. Assim viajaram os filhos de Israel de Ramsés a Sucot, cerca de seiscentos mil homens a pé, sem contar as crianças. Também subiu com eles uma grande mistura de gente; e, em rebanhos e manadas, uma grande quantidade de gado. E cozeram pães ázimos da massa que levaram do Egito, porque ela não se tinha levedado, porquanto foram expulsos do Egito; e não puderam deter-se, nem haviam preparado provisões para o caminho" (Ex 12,30-39).
A Instituição da Páscoa foi fundamental para a Nação Israelita, e sem ela é possível que a História da Salvação não teria o mesmo traçado, satisfazendo os desígnios de Deus, nem o Povo de Deus teria consciência plena de sua condição de "eleito", e da dimensão de "Filho Primogênito". Para se entender um pouco mais o significado dessa expressão "Filho Primogênito" pode-se recorrer ao que ensina São Paulo quando usa o mesmo qualificativo para Jesus Cristo, guardadas as devidas proporções, comparando-se com a Bênção de Jacó:
"Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8,29).
"...nos transportou para o reino do seu Filho Amado, em quem temos a redenção, a saber, a remissão dos pecados. Ele é a Imagem do Deus invisível, o PRIMOGÊNITO de toda a criação, porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades, tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas. Ele é a Cabeça da Igreja, que é o Seu Corpo. ELE É O PRINCÍPIO, O PRIMOGÊNITO DENTRE OS MORTOS, para que em tudo tenha a primazia, porque aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude..." (Cl 1,13-19).
"Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, preeminente em dignidade e preeminente em poder" (Gn 49,3).
Uma comparação em colunas
vai mostrar melhor as semelhanças e as diferenças notáveis
e que vão nos auxiliar a compreender melhor a História da
Salvação, pelas instituições a que seu povo
era ligado culturalmente, respeitadas e usadas por Deus, e tal como a Bíblia
expõe:
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| Rúben, tu és meu primogênito | nos transportou para o reino do seu Filho Amado, em quem temos a redenção, a saber, a remissão dos pecados. Ele é a Imagem do Deus invisível, o PRIMOGÊNITO de toda a criação |
| minha força | porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades, tudo foi criado por ele e para ele. |
| e as primícias do meu vigor | Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas |
| preeminente em dignidade
e
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Ele é a Cabeça da Igreja, que é o Seu Corpo. ELE É O PRINCÍPIO, O PRIMOGÊNITO DENTRE OS MORTOS, para que em tudo tenha a primazia, porque aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude |
| preeminente em poder | tudo foi criado por ele e para ele. |
"E naquele mesmo dia o Senhor tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos" (Ex 12,51)
"Então falou o Senhor a Moisés, dizendo: Santifica-me todo primogênito, todo o que abrir a madre de sua mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais; porque meu é"
"Também quando o Senhor te houver introduzido na terra dos cananeus, como jurou a ti e a teus pais, quando ta houver dado, separarás para o Senhor tudo o que abrir a madre, até mesmo todo primogênito dos teus animais; os machos serão do Senhor. (...) E quando teu filho te perguntar no futuro, dizendo: Que é isto? responder-lhe-ás: O Senhor, com mão forte, nos tirou do Egito, da casa da servidão. Porque sucedeu que, endurecendo-se Faraó, para não nos deixar ir, o Senhor matou todos os primogênitos na terra do Egito, tanto os primogênitos dos homens como os primogênitos dos animais; por isso eu sacrifico ao Senhor todos os primogênitos, sendo machos; mas a todo primogênito de meus filhos eu resgato. (Ex 13,1-2,11-15).
"Santifica-me todo primogênito, todo o que abrir a madre de sua mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais; porque meu é" (...) "...separarás para o Senhor tudo o que abrir a madre, até mesmo todo primogênito dos teus animais; os machos serão do Senhor" - vê-se daí que primogênito é "todo o que abrir a madre de sua mãe" e "tudo o que abrir a madre, até mesmo dos teus animais". Trazia então uma conotação profundamente vinculada à idéia de mediação, vida e fecundidade, "o que abre ou inaugura a fecundidade da madre", tal como Jacó disse a Rúben: "minha força e as primícias do meu vigor" e São Paulo de Jesus Cristo: "Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas". Por isso também é o Primogênito dos Mortos, fecundando de vida a morte, abrindo as portas da vida eterna. Essas referências aos israelitas, a quem foi ratificada a Promessa de Abraão, embutida na Aliança e que tomaria no futuro o nome de Libertação Messiânica, está traduzida na "terra que mana leite e mel", presente aqui na Instituição da Páscoa:
"Quando o Senhor te houver introduzido na terra (...) que ele jurou a teus pais que te daria, terra que mana leite e mel, guardarás este culto neste mês" (Ex 13,5).
Vai o primogênito desempenhar a função sacerdotal em virtude de sua mediação e pela consagração ensejada. Tanto é assim que quando for instituído o sacerdócio auxiliar, este substituirá os primogênitos no exercício dessa função junto a Casa de Aarão, também da Tribo de Levi, que detinha o sacerdócio pleno (Ex 29): Além da chefia da tribo ou do clã, detinha o primogênito o exercício do sacerdócio, tal como mostram as citações seguintes:
"E disse o Senhor a Moisés: Faze chegar a tribo de Levi, e põe-nos diante de Aarão, o sacerdote, para que o sirvam; eles cumprirão o que é devido a ele e a toda a congregação, diante da tenda da reunião, fazendo o serviço do tabernáculo; cuidarão de todos os móveis da tenda da reunião, e zelarão pelo cumprimento dos deveres dos filhos de Israel, fazendo o serviço do tabernáculo. Darás, pois, os levitas a Aarão e a seus filhos; de todo lhes são dados da parte dos filhos de Israel. Disse mais o Senhor a Moisés: Eu, eu mesmo tenho tomado os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo primogênito, que abre a madre, entre os filhos de Israel; e os levitas serão meus, porque todos os primogênitos são meus. No dia em que feri a todos os primogênitos na terra do Egito, santifiquei para mim todos os primogênitos em Israel, tanto dos homens como dos animais; meus serão. Eu sou o Senhor" (Nm 3,11-13).
"Assim separarás os levitas do meio dos filhos de Israel; e os levitas serão meus. Depois disso os levitas entrarão para fazerem o serviço da tenda da reunião, depois de os teres purificado e oferecido como oferta de movimento. Porquanto eles me são dados inteiramente dentre os filhos de Israel; em lugar de todo aquele que abre a madre, isto é, do primogênito de todos os filhos de Israel, para mim os tenho tomado. Porque meu é todo primogênito entre os filhos de Israel, tanto entre os homens como entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo primogênito, os santifiquei para mim. Mas tomei os levitas em lugar de todos os primogênitos entre os filhos de Israel. Dentre os filhos de Israel tenho dado os levitas a Aarão e a seus filhos, para fazerem o serviço dos filhos de Israel na tenda reunião, e para fazerem expiação por eles, a fim de que não haja praga entre eles, quando se aproximarem do santuário" (Nm 8,14-19).
Daí se vê que Deus fulminou
os deuses do Egito quando fulminou de morte todos os primogênitos,
acabando com o sacerdócio deles e com as suas vítimas constituídas
pelos primogênitos dos animais, conforme o costume ritual daquele
tempo. Para substituí-los e começarem a funcionar oficialmente
Deus agora prepara o Seu Sacerdócio com os primogênitos poupados
dos israelitas, do Povo que é o seu Filho Primogênito, que
tem uma missão de primícia sacerdotal, medianeira.
| <= Índice/Capítulo 3 |
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