Povo que já nascia em comunhão com Deus, os Israelitas inauguram a sua nação estabelecendo-a concomitantemente com a instituição do Sacerdócio dos Primogênitos (Ex 13,1-16). Além da Páscoa, outros sacrifícios constituiriam a base do seu culto e, identificando-se com a Aliança dos Patriarcas, estabelece o seu Sacerdócio, "primícias do poder de Deus" (Gn 49,3). Sem sacerdócio não há sacrifícios (Hb 5,1-3; 8,3). Assim organizados, ou expulsos ou fugindo, saem do Egito após a celebração da Páscoa, sabendo que "naquele mesmo dia o Senhor tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos" (Ex 12,51), "levando-os não pelo caminho habitual da terra dos filisteus" (Ex 13,17), para que, despreparados para uma guerra contra os egípcios que iriam em sua captura, não fugissem. Apesar de "subirem armados da terra do Egito" (Ex 13,18b), do seu manejo não tinham prática nem consciência estratégica nem estavam preparados para defender a nacionalidade nascente. Além disso, como "Moisés levou consigo os ossos de José" (Ex 13,19), evidenciando a tônica religiosa de tudo o que acontecia, tendo por fulcro a Aliança dos Patriarcas, não se prepararam para uma guerra nem estavam assim conscientizados (Ex 13,17-19), e aproveitando-se da permissão que o Faraó dera para "servir a Iahweh como tendes dito" (Ex 12,31), escaparam, fugiram:
"Quando, pois, foi anunciado
ao rei do Egito que o povo havia fugido, mudou-se o coração
de Faraó, e dos seus servos, contra o povo, e disseram: Que é
isso que fizemos, permitindo que Israel saísse e deixasse de nos
servir? E Faraó aprontou o seu carro, e tomou consigo o seu povo;
tomou também seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito,
e capitães sobre todos eles. Porque o Senhor endureceu o coração
de Faraó, rei do Egito, e este perseguiu os filhos de Israel; pois
os filhos de Israel saíam afoitamente. Os egípcios, com todos
os cavalos e carros de Faraó, e os seus cavaleiros e o seu exército,
os perseguiram e os alcançaram acampados junto ao mar, perto de
Piai0rot, diante de Baal-Sefom" (Ex
14,5-9).
"Que é isso que fizemos, permitindo que Israel saísse e deixasse
de nos servir?" - retrata uma situação que não
se pode deixar de lado quando se examina esse quadro. O Povo do Egito,
apesar de várias vezes mencionado como partícipe da opressão
aos israelitas, não poderia estar participando dela, eis que, da
instrução dada por Deus constata-se a existência de
uma situação peculiar:
"Fala agora ao povo,
que cada homem peça ao seu vizinho, e cada mulher à sua vizinha,
jóias de prata e jóias de ouro. E o Senhor deu ao povo graça
aos olhos dos egípcios. Além disso o varão Moisés
era muito importante na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó
e aos olhos do povo" (Ex
11,2-3)
"Fizeram, pois, os filhos
de Israel conforme a palavra de Moisés, e pediram aos egípcios
jóias de prata, e jóias de ouro, e roupas. E Iahweh deu ao
povo graça aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhe
davam o que pedia; e despojaram aos egípcios" (Ex
12,35-36).
Este comentário do narrador é suficiente para se entender
bem a situação dos israelitas, pois não é de
se estranhar essa demonstração de amizade dos egípcios
que se encontrou. Principalmente quando se lembra que o sistema econômico
instalado por José, no início de seu governo, ainda vigorava
(Gn 47,13-27). Pelo menos não há
registro bíblico de nenhuma revogação e o regime de
servidão a que os israelitas estavam sujeitos era compartilhado
pelos cidadãos egípcios, também vítimas. Então
os que perseguiam os israelitas eram os soldados, serviçais do Faraó
e sua corte, não o povo egípcio em si. Outros originavam-se
de vários outros povos aproveitando a oportunidade fugiram também,
pois "subiu com eles uma multidão com ovelhas, gado e muitíssimos
animais" (Ex 12,38). E os perseguiam a todos
exclusivamente por causa da crise econômica que seria causada com
a perda do "quinto de produção" estabelecidos (Gn
47,26) e da mão de obra barata e competente que "construiu
para Faraó as cidades armazéns de Pitom e Ramsés"
(Ex 1,11). Não é de hoje que
a economia justifica a tirania e o imperialismo dos poderes do mundo profano.
Ainda outro fato digno de nota é que "Deus ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os alumiar", assim protegendo e conduzindo o Seu Povo. E estrategicamente o conduz fazendo até mesmo o Faraó pensar que estivessem perdidos e desorientados no deserto e se animasse a perseguí-los, com a intenção de os encurralar em frente ao Mar Vermelho, onde mais uma vez manifestaria o Seu Poder:
"Assim partiram de Sucot,
e acamparam-se em Etam, à entrada do deserto. E o Senhor ia adiante
deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite
numa coluna de fogo para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e
de noite. Não desaparecia de diante do povo a coluna de nuvem de
dia, nem a coluna de fogo de noite. Disse o Senhor a Moisés: 'Fala
aos filhos de Israel que se voltem e (...) assentareis o acampamento junto
ao mar. Então Faraó dirá dos filhos de Israel: "Eles
estão desorientados na região, o deserto os encerrou." Eu
endurecerei o coração de Faraó, e ele os perseguirá;
glorificar-me-ei em Faraó, e em todo o seu exército; e saberão
os egípcios que eu sou o Senhor'. E eles fizeram assim"
(Ex 13,20-14,4).
Foi um momento por demais dramático em que o Povo dos Filhos de
Israel, despreparado, percebeu que apesar da "coluna de nuvem e fogo" estava
entrincheirado entre o mar e o exército do Faraó, e mesmo
assim é muito natural que temesse e se amedrontasse. Anuncia-se
uma séria dificuldade a enfrentar, o Povo clamou a Deus e, se bem
que protestando energicamente, procurou o próprio Moisés
para uma solução e a resposta que lhe deu mostra a fé
que se depositava em Deus. Não se tem notícia de alguma deserção
nem de que alguns se entregassem ao Faraó, que teria recebido de
braços abertos os que voltassem. Moisés não perde
a calma e o controle da situação, o Povo a recupera e também
crê, percebendo-se que propositadamente "se tomou outro caminho que
o dos filisteus" (Ex 13,17):
"Quando Faraó
se aproximava, os filhos de Israel levantaram os olhos, e eis que os egípcios
marchavam atrás deles; pelo que tiveram muito medo os filhos de
Israel e clamaram ao Senhor! E disseram a Moisés: 'Foi porque não
havia sepulcros no Egito que de lá nos tiraste para morrermos neste
deserto? Por que nos fizeste isto, tirando-nos do Egito? Não é
isto o que te dissemos no Egito: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios?
Pois melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto'.
Moisés, porém, disse ao povo: 'Não temais; permanecei
firmes e vereis o que o Senhor hoje fará para vos livrar; porque
os egípcios que hoje vedes, nunca mais tornareis a ver; o Senhor
pelejará por vós; e vós vos tranqüilizareis"
(Ex 14,10-14).
Ali onde o Faraó pensara que os israelitas estavam perdidos acontece
então um fato ou fenômeno que permanece humanamente inexplicável,
conhecido como a "passagem milagrosa do Mar Vermelho", que se abriu
para os israelitas e se fechou afogando os egípcios:
"Então disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? dize aos filhos de Israel que marchem. E tu, levanta a tua vara, e estende a mão sobre o mar e fende-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em seco. Eis que eu endurecerei o coração dos egípcios, estes entrarão atrás deles; e glorificar-me-ei em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando me tiver glorificado no Faraó, nos seus carros e nos seus cavaleiros. Então o anjo de Deus, que ia adiante do exército de Israel, se retirou e se pôs atrás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles e se pôs atrás, colocando-se entre o campo dos egípcios e o campo dos israelitas; assim havia nuvem e trevas; contudo aquela clareava a noite para Israel; de maneira que em toda a noite não se aproximou um do outro. Então Moisés estendeu a mão sobre o mar; e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite, e fez do mar terra seca, e as águas foram divididas. E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco; e as águas foram-lhes qual muro à sua direita e à sua esquerda. E os egípcios os perseguiram, e entraram atrás deles até o meio do mar, com todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros. Na vigília da manhã, o Senhor, na coluna do fogo e da nuvem, olhou para o campo dos egípcios, e alvoroçou o campo dos egípcios; embaraçou-lhes as rodas dos carros, e fê-los andar dificultosamente; de modo que os egípcios disseram: Fujamos de diante de Israel, porque o Senhor peleja por eles contra os egípcios" (Ex 14,15-25).
Pela narrativa percebe-se que Moisés não titubeou um instante
sequer, chegando a dizer que "os egípcios que hoje vedes, nunca
mais tornareis a ver" (Ex 14,13), e " estendeu
a mão sobre o mar; e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento
oriental toda aquela noite, e fez do mar terra seca, e as águas
foram divididas". Não foi um acontecimento instantâneo como
pode parecer, eis que o mar foi açoitado "por um forte vento oriental
toda aquela noite" e não se tratava de um pequeno grupo de
pessoas que passou a "pé enxuto". Mas, o retorno das águas
ao seu nível normal foi sem demora, a ponto de atingir o exército
faraônico de surpresa:
"Nisso o Senhor disse
a Moisés: Estende a mão sobre o mar, para que as águas
se tornem sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus
cavaleiros. Então Moisés estendeu a mão sobre o mar,
e o mar retomou a sua força ao amanhecer, e os egípcios fugiram
de encontro a ele; assim o Senhor derribou os egípcios no meio do
mar. As águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros, todo
o exército de Faraó, que atrás deles havia entrado
no mar; não ficou nem sequer um deles. Mas os filhos de Israel caminharam
a pé enxuto pelo meio do mar; as águas foram-lhes qual muro
à sua direita e à sua esquerda. Assim o Senhor, naquele dia,
salvou Israel da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios
mortos na praia do mar. E viu Israel a grande obra que o Senhor operara
contra os egípcios; pelo que o povo temeu ao Senhor, e creu no Senhor
e em Moisés, seu servo" (Ex
14,26-31).
Para o fenômeno ocorrido não se encontrou até hoje
uma explicação natural que fosse satisfatória ou exata
ou definitiva, e tudo indica que nunca se conseguirá, principalmente
porque os israelitas estavam encurralados e conseguiram passar o Mar Vermelho
sem uma baixa sequer. Algo de miraculoso aconteceu e sua descrição
minuciosa se mesclou com o nacionalismo nascente e poético não
permitindo outra visão que a descrita. A título ilustrativo
conta-se:
"A mãe pergunta a seu filho o que está estudando no Catecismo
Paroquial. O menino responde que "o Padre ensinou que quando Moisés
tirou o Povo de Deus do Egito, fez construir uma baita ponte de concreto
armado para o povo passar. Quando os egípcios vieram atrás
dos israelitas, Moisés dinamitou a ponte, caíram no mar e
morreram todos." Assustada a mãe retorna: "Meu Deus! É isso
mesmo que o Padre está ensinando, meu filho?!" Responde o menino,
assustado com a reação da mãe: "Não mamãe,
não foi isso o que o Padre ensinou. Mas se eu contar o que o Padre
ensinou a senhora não vai acreditar"!!!
Há pouco tempo num filme de Jesus Cristo, desses que a única
coisa que faz é falsificar tudo, em determinado momento fictício,
apresenta Pilatos dizendo a Caifás: "Vocês chegam a pensar
que Deus abriu o mar para vocês passarem". Ao que Caifás respondeu:
"É, mas nós passamos". Nessa resposta do roteiro está
uma explicação sucinta do fenômeno: alguma coisa aconteceu
para que ficasse tão impregnada na História de Israel:
"E viu Israel a grande
obra que o Senhor operara contra os egípcios; pelo que o
povo temeu ao Senhor, e creu nEle e em Moisés, seu servo"
(Ex 14,31).
"... o povo temeu ao Senhor, e creu nEle e em Moisés,
seu servo" - da mesma forma que com as "pragas" repete-se o reconhecimento
do Povo de Deus pelo acontecimento ou fenômeno, que não pode
ter sido algo assim normal ou costumeiro, pois foi suficiente para incutir
um temor reverencial e ao mesmo tempo fé, tanto em Deus como em
Moisés. Isso é o que importa, não a procura de explicação
para um fenômeno, nunca se conseguindo a contento e além disso
por demais desnecessário a não ser aquilo que prefigurava
a "se cumprir" em Cristo (Mt 5,17). É
São Paulo quem mostra esse "cumprimento":
"Pois não quero,
irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da
nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos foram
batizados em Moisés, e todos comeram do mesmo alimento espiritual;
e beberam todos da mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual
que os acompanhava; e a pedra era Cristo" (1Cor
10,1-4).
Outra confusão que é muito freqüente é a da Páscoa
com essa "passagem" do Mar Vermelho. Apesar de próximos ambos os
acontecimentos a referência entre eles é apenas cronológica
ou as mais das vezes "figura" pela semelhança fática entre
a "libertação do Egito" (pela água) e a "libertação
do pecado" pelo "batismo na água". Fenômeno semelhante irá
acontecer e se repetir nas águas do Jordão quando o Povo
de Israel passar "pelo seco" e entrar com os Sacerdotes carregando a Arca
da Aliança na Terra Prometida (Js 3,14-17).
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