Após tal façanha os Israelitas se inflamam com a grandeza do acontecido e junto com Moisés, com o acompanhamento de sua irmã Maria e todas mulheres, entoaram e dançaram um poema tal como é muito comum ainda no Oriente Médio (Ex 15,1-21). Entoam um canto a Iahweh reconhecendo Seu Poder e Soberania, bem como a força do Seu Espírito ("sopro"), "entre todos os deuses", como se fora um Hino da Independência, mencionando sua santidade, forma de caracterizar biblicamente a transcendência de Deus, separado e distinto dos seres que criou e tendo sobre eles ainda pleno domínio:
"Ao sopro das
tuas narinas amontoaram-se as águas, as correntes pararam como montão;
os abismos coalharam-se no coração do mar. O inimigo dizia:
Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; deles se satisfará
a minha alma; arrancarei a minha espada, a minha mão os destruirá.
Sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu; afundaram-se como chumbo
em águas profundas. Quem entre os deuses é como tu,
ó Senhor? Quem é como tu poderoso em santidade, admirável
em louvores, operando maravilhas? Estendeste a mão direita, e a
terra os tragou." (Ex 15,8-12).
Realçam a misericórdia de Deus libertando e conduzindo o
Povo de Israel para a Terra Prometida, aqui referenciada com uma frase
que fora introduzida no poema para esclarecimento tempos depois. Isso aconteceu
quando se assumiu a posse dela, nela residindo e estabelecido, já
com uma organização ritual do Templo, aqui denominado de
santuário, e tendo sido derrotados e dominados os pagãos
ou gentios, tal como se lê:
"Na tua bondade guiaste
o povo que remiste; na tua força o conduziste à tua santa
habitação. Os povos ouviram e estremeceram; dores
apoderaram-se dos a habitantes da Filistéia. Então os príncipes
de Edom se pasmaram; dos poderosos de Moab apoderou-se um tremor; derreteram-se
todos os habitantes de Canaã. Sobre eles caiu medo, e pavor;
pela grandeza do teu braço emudeceram como uma pedra, até
que o teu povo passasse, ó Senhor, até que passasse este
povo que adquiriste. Tu os introduzirás, e os plantarás no
monte da tua herança, no lugar que tu, ó Senhor, aparelhaste
para a tua habitação, no santuário, ó
Senhor, que as tuas mãos estabeleceram. O Senhor reinará
eterna e perpetuamente" (Ex 15,13-18).
Não se pode deixar de registrar essa inclusão de esclarecimentos
com fatos ocorridos no futuro que mostra algo muito comum na confecção
das Escrituras Sagradas e que muitas das vezes confunde o estudioso. Um
exemplo claro disso foi a frase usada na narrativa da "saída" do
Egito em que se diz que Deus "levou-os não pelo caminho habitual
da terra dos filisteus" (Ex 13,17), sabendo-se
que a esse tempo os filisteus ainda não habitavam na Palestina.
Narra-se o acontecimento com a cultura e os conhecimentos que se tem na
ocasião da narrativa e não conforme a ocasião em que
aconteceram realmente. Também, costuma o narrador mesclar algum
versículo estranho ao contexto e fora do assunto, tal como nesse
poema, acrescentado muito tempo depois, trechos fora de lugar e entrecortados
por uma espécie de parêntesis, destinados à satisfação
de algum esclarecimento exigido por tradição oral distinta
da narrada. Neste ponto parece que se extravia do assunto para outro aspecto
da viagem, abrindo-se uma espécie de "parêntesis", dizendo:
"Depois Moisés
fez partir a Israel do Mar Vermelho, e saíram para o deserto de
Sur; caminharam três dias no deserto, e não acharam água.
E chegaram a Mara, mas não podiam beber das suas águas, porque
eram amargas; por isso chamou-se o lugar Mara. E o povo murmurou contra
Moisés, dizendo: Que havemos de beber? Então clamou Moisés
ao Senhor, e o Senhor mostrou-lhe uma árvore, e Moisés lançou-a
nas águas, as quais se tornaram doces. Ali Deus lhes deu um estatuto
e uma ordenança, e ali os provou, dizendo: Se ouvires atentamente
a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é reto diante de seus
olhos, e inclinares os ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos
os seus estatutos, sobre ti não enviarei nenhuma das enfermidades
que enviei sobre os egípcios; porque eu sou o Senhor que te sara.
Então vieram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta
palmeiras; e ali, junto das águas, acamparam" (Ex
15,22-27).
Não se pode deixar de lado e esquecer a presença na vida
humana das conseqüências do pecado e se manifestar sempre, mesmo
com os eleitos, os escolhidos por Deus para uma missão. Deus usa
delas para os amadurecer, "prová-los" (Ex
15,25), em outras palavras mais adequadas à realidade, "temperá-los"
ou mesmo "prepará-los", para aquilo que deles espera; pois, já
os conhece bem e não necessita submeter ninguém à
prova, para saber com quem lida (1Sm 16,7; 11,20;
Jó 10,4; Jr 17,10; Is 55,8-9; Jo 2,25). Também não
se pode deixar de lado que a Bíblia não é um livro
especializado em História ou em Psicologia ou em qualquer ciência
e que o centro gravitacional dela é a fé em Iahweh. Além
de tudo isso não se pode analisar um fato do passado apressadamente
sem considerar o situação real do acontecimento, ou com a
cultura atual. Principalmente ainda pelo fato de que a Bíblia teria
sido escrita não para o homem atual mas para os israelitas daquele
tempo e a disposição lógica dos fatos do que se narra
se adequava a eles, com a sua cultura e modo de raciocinar. As narrativas
daquele tempo nem sempre se identificam ao sistema atual de relatar fatos
ou acontecimentos nem seguem a mesma ordem lógica ou cronológica.
Tomando-se em consideração todos esses fatores pode-se agora examinar o que se refere ao clima originário entre os israelitas por causa da falta de água. Tudo indica que a reclamação teria sido séria e até mesmo quase próxima ao desespero. Mas, é isso mesmo que soe acontecer a um povo sedentário que de uma hora para outra vai "às pressas" para a vida nômade, completamente despreparado para ela. Na realidade vivia no Egito na amargura de uma servidão, mas tinham água para beber e comida com a fartura necessária para manter-se e a própria família. Não era um regime de escravidão plena como se pensa e muitas vezes se propaga mas um sistema econômico que reduziu todo o povo a um regime de servidão semelhante ao que se denomina "corvéia", onde não lhes faltava o alimento necessário à subsistência, para manter o ritmo do trabalho e da produção (Ex 14,12; 16,3). Agora, porém, sem esse conforto, caminhando errante num deserto com todos os familiares, expostos a toda a sorte de intempéries, tendo que encontrar uma fonte de água para se dessedentar, com o pão ainda sem o fermento mal preparado e agora esgotado, sem mais alimentos e não conhecendo ainda a vida no deserto, é muito natural que se desesperem. De novo se observa que não desertaram, procuraram Moisés e Aarão e reclamaram. É essa transformação de vida que o narrador quer mostrar e a situação em que se encontravam, demonstrando pelo resultado alcançado que não houve uma sedição propriamente dita, mas uma situação de emergência contornada da qual o povo saiu amadurecido e preparado para o prosseguimento da "peregrinação" em busca da consumação da Promessa da Terra Prometida que apenas se iniciava. Deus os prepara desde já e tal como com os Patriarcas pelo sofrimento, pelo que recebem de Deus a aprovação:
"...Ali Deus lhes deu
um estatuto e uma ordenança, e ali os provou, dizendo: Se ouvires
atentamente a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é reto diante
de seus olhos, e inclinares os ouvidos aos seus mandamentos, e guardares
todos os seus estatutos, sobre ti não enviarei nenhuma das enfermidades
que enviei sobre os egípcios; porque eu sou o Senhor que te cura"
(Ex 15,25-26).
Essas palavras não se aplicariam a um povo rebelde que tivesse realmente
se revoltado contra Deus. Recorreram a quem deveriam recorrer e pelo fato
da prática adquirida por Moisés da vida no deserto, onde
aprendeu os seus segredos e as condições necessárias
para a sobrevivência nele e nas mais adversas, foi tudo solucionado.
É que o Povo de Israel seguia o mesmo trajeto, que lhe era muito
familiar, até atingir o Monte Sinai, onde Deus lhe aparecera e onde
apascentava o rebanho de seu sogro (Ex 3,1).
No local onde Deus seria "adorado" (Ex 3,12)
quando fosse libertado, comprovando-se assim o cumprimento da promessa
de Deus de libertá-lo, em que acreditavam, ele e o Povo. Por causa
disso é que Moisés soube que tipo de madeira colocar na água
para a "adoçar". Aqui é que não se pode analisar como
se fora uma narração comum, mas deve-se levar em conta a
fé, já que tanto a "água amarga" como seu "adoçante"
são como que figuras das muitas dificuldades encontradas trazendo
o amadurecimento dos israelitas no contato com a vida selvagem e rude:
"Então vieram
a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras; e ali,
junto das águas, acamparam" (Ex
15,27)
Quando muitas vezes não se entende o que se lê na Bíblia
é que foi deixado de lado o sentido religioso que, por excelência,
foi escrito com primazia. Também, o Povo Israelita não era
apenas um amontoado de pessoas com costumes, sentimentos, ambições,
história e normas comuns, mas um povo organizado em torno de uma
religião comum, centro irradiador de todos os demais elementos constitutivos
de sua realidade. Então o significado imediato do versículo
acima transcrito não se limita a um relato apenas cronológico
ou seqüencial da peregrinação. É que as doze
fontes são como que representação das doze tribos
dos filhos de Israel, frutos das setenta pessoas que desceram ao Egito
(Ex 1,5 / Gn 46,27), representadas pelas setenta
palmeiras, onde fertilmente se proliferaram e "acamparam junto das águas"
("rio Nilo"), qual seja de seu Senhor, recebem a Sua Bênção,
a "fonte" da fecundidade, motivo da grande proliferação dos
Filhos de Israel (Ex 1,7.12).
Inegavelmente a libertação do Povo de Israel do Egito é um mistério insondável. Por isso, muitas das vezes se diz que aquelas "pragas" não passaram de fenômenos naturais elevados ao grau máximo pelo nacionalismo e que seriam lendas. Porém, com a "passagem do Mar Vermelho", não se tem outro recurso e não se pode deixar de reconhecer a presença ativa de Deus que o liberta. Da mesma forma se diz das "águas amargas" que Moisés "adoçou" com um pedaço de madeira (Ex 15,23-24), do fenômeno das codornizes atravessando o mar em busca de terra firme (Ex 16,13) com que se fartaram de carne e da "água do rochedo" (Ex 17,1-7) com que saciaram a sede; e, também, quando se esbarra com o Maná, impõe-se o reconhecimento da mesma presença ativa de Deus (Ex 16,9-35):
"Depois disse Moisés
a Aarão: Dize a toda a congregação dos filhos de Israel:
Chegai-vos à presença do Senhor, porque ele ouviu as vossas
murmurações. E quando Aarão falou a toda a congregação
dos filhos de Israel, estes olharam para o deserto, e eis que a glória
do Senhor apareceu na nuvem" (Ex 16,9-10).
São relatos do que a vida dura no deserto esculpiu na personalidade
e no caráter do Povo de Deus amadurecendo-o para a envergadura da
missão que o aguardava assumindo a Aliança de Abraão,
Isaac e Jacó. Deus levou-o com uma pedagogia apropriada à
tomada de consciência de sua tarefa de Povo Primogênito, "as
primícias da fecundidade do Senhor" (Gn
49,3), sustentado e alimentado pelo próprio Deus, com o Maná,
"figura" da Eucaristia, do mesmo modo que irá alimentar o Povo da
Nova Aliança com o Corpo e Sangue de Seu Filho:
"Ora, os filhos de Israel
comeram o maná quarenta anos, até que chegaram a uma terra
habitada; comeram o maná até que chegaram aos termos da terra
de Canaã" (Ex 16,35).
A significação messiânica desses fenômenos religiosos
será constatada de várias formas, tal como fez São
Paulo (1Cor 10,1-4), quando "se cumprirem"
em Jesus (Mt 5,17), destacando-se o Maná:
"Pois não quero,
irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da
nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos foram batizados
em Moisés, e todos comeram do mesmo alimento espiritual;
e beberam todos da mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual
que os acompanhava; e a pedra era Cristo" (1Cor
10,1-4).
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