"... todos comeram do mesmo alimento espiritual..." - São João Evangelista dispõe, significativamente, o Anúncio da Eucaristia logo em seguida à Multiplicação dos Pães, após a qual ocorreu sério e drástico desencontro e desenlace (Jo 6,60.66-71). Ora, os Evangelistas não escreveram nada à toa, nem a disposição dos assuntos foi aleatória, sem motivo. Assim, quando João registra que os opositores de Jesus o desafiaram com o Maná, indica o motivo, o teor e a evocação do debate, e qual o significado que a Multiplicação dos Pães adquiriu para os Apóstolos, tal como lhes foi ensinado pelo próprio Jesus. É que, após o milagre, alimentando a multidão a partir de "cinco pães de cevada e dois peixes" (Jo 6,9.22-58.59-71), protestaram os dissidentes, com evidente desprezo:
"...: Que sinal realizas,
para que vejamos e creiamos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram
o maná no deserto, como está escrito: ‘Deu-lhes Pão
do Céu a comer’ " (Jo
6,30-31).
Queriam dizer com isso que Moisés fizera muito maior milagre, alimentando
o Povo de Deus no deserto, durante quarenta anos, do que "uma simples distribuição
de pães e peixes para cinco mil pessoas", tal como acontecera ali.
Jesus lhes dá a resposta e, como de seu costume, contesta-os doutrinando:
"Em verdade, em verdade,
vos digo: não foi Moisés quem vos deu o Pão do Céu,
mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro Pão do Céu;
porque o pão de deus é o Pão que desce do Céu
e dá vida ao mundo" (Jo 6,32-33).
Assim Jesus identifica o verdadeiro pão do céu como
o pão de deus, que desce do céu e dá vida ao mundo,
o que não deixa de ter referência clara com o Maná,
agora se aperfeiçoando pelo "pleno cumprimento" (Mt
5,17) que Ele próprio lhe imprime, por cujo meio dá
vida ao mundo. O Maná, por si só, não possuía
essa virtude vivificante, tendo sido dado para alimentá-los, tão
somente, mesmo que material e espiritualmente, como resposta de Iahweh
às murmurações do Povo de Israel:
"Antes fôssemos mortos pela mão de Iahweh na terra do Egito, quando (...) comíamos PÃO com fartura! (...) Iahweh disse a Moisés: ‘Eis que vos farei chover PÃO DO CÉU; sairá o povo e colherá a porção de cada dia..." (...) "Isto é o Pão que Iahweh vos dará para vosso alimento" (Ex 16,3-4.15).
"Todos comeram o mesmo
alimento espiritual" (1Cor 10,3).
Assim, tal como o Maná é o pão do céu
e alimento, da mesma forma a vítima do sacrifício
recebe a mesma denominação, tal como se vê na recomendação
de Iahweh com respeito aos sacerdotes:
"Serão consagrados
a seu Deus e não profanarão o nome do seu Deus, porque são
eles que apresentam as oferendas queimadas a Iahweh, o pão do
seu deus, e devem estar em estado de santidade. (...) "Tu o tratarás
como santo, pois oferece o pão do teu deus"
(Lv 21,6-8).
Ora, quando se fala em "alimento e pão" se fala em "sacrifício
ou refeição sagrada", donde se deduz a que Jesus também
se refere ao mencionar o "pão do céu ou pão de
deus", manifestando quem Deus daria para ser vítima para a vida
do mundo, recordando-se da missão dos sacerdotes desde sua instituição,
ainda no deserto, agora os substituindo (Hb 9,11-14).
Pois, a vítima imolada num sacrifício (ou a "oferenda
queimada a Iahweh") era considerada "Pão ou Alimento
de Deus", aqui e em outros lugares (destacando-se: Lv
1,9; 3,3.11.16; 21,17.21; Nm 9,13;28,1). Também o Maná,
da mesma forma que a Vítima dos Sacrifícios, era conhecido
simplesmente por "pão do céu" ou "alimento" (‘espiritual’,
diz são Paulo), como nos textos acima transcritos. Não
foi sem motivo que Jesus faz referências ao Pão de Deus
e ao Pão do Céu (Jo 6,33.58),
na discussão que travou, identificando-se com ambos e mostrando
as diferenças "cumpridas" por Ele (Mt 5,17):
"Este é o pão
que desceu do céu, ele não é como o que os pais comeram
e pereceram; quem come este pão viverá para sempre"
(Jo 6,58).
"... quem come este pão viverá para sempre" - Existem
aspectos na narrativa da Multiplicação dos Pães em
São João (6,1-15) que a tornam
bem distinta da dos demais Evangelhos, seja situando-a "próxima
à Páscoa, a festa dos judeus" (6,4),
seja tratando os que se alimentavam como convivas de uma refeição,
seja pelo debate ocorrido a respeito do Maná, seja pelo gesto de
Jesus que, "tomando os pães, dá graças"
(6,11), tal como na Instituição
da Eucaristia (Lc 22,19 / 1Cor 11,24). Também,
no que evidencia se tratar de um banquete ou de refeição
sagrada, o "convite" que transparece quando Jesus diz "onde compraremos
pão para alimentá-los" (6,5)
e "fazei que se acomodem pelo chão" (6,10), numa acomodação
para os "amesendados" [6,10.11 () ], -
‘fala como um anfitrião’; na ação
de graças peculiar a uma refeição comum ou sagrada
ou ao sacrifício de comunhão; bem como, "no recolhimento
dos doze cestos do que restou", por se tratar de "coisa santificada"
(Ex 29,37 / Jo 6,12-13). Não há
outro motivo para se recolher a sobra de uma refeição!
Por outro lado, João também relata que:
"Os judeus murmuravam,
então, contra ele, porque dissera: ‘Eu sou o pão descido
do céu" (Jo 6,41).
Fosse alguma figura de linguagem não haveria motivo para isso. "Murmuravam"
porque a afirmação foi muito séria, Jesus se referia
a si mesmo e eles o entenderam. Jesus nada corrige e ainda prossegue mais
incisivo:
"Eu sou o pão
vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá
eternamente. o pão que eu darei é a minha carne para a vida
do mundo" (Jo 6,51).
Jesus usa o futuro "DAREI a minha carne para a vida do mundo", anunciando
a futura doação, seja na Instituição da Eucaristia
seja na Cruz, pelo que, da mesma forma, falando sempre numa concretização
a se realizar, após a altercação novamente advinda
(6,52), é mais incisivo:
"Em verdade, em verdade,
vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não
beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o
ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é
verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a
minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como
o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele
que comer de mim viverá por mim" (Jo
6,53-57).
Neste ponto e ao finalizar o debate, diz especificamente e se identifica
ao Maná, o Pão que desceu do Céu:
"Este é o pão
que desceu do céu. Ele não é como o que os
pais comeram e pereceram; quem come este pão viverá
para sempre" (Jo 6,58).
Quando João narra tal acontecimento com tantos detalhes e diz que
"estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus"
(6,4), relaciona-o diretamente com Ela. É que Jesus estava anunciando
e começando então o que iria se "cumprir" nela. Só
se pode concluir então que a Multiplicação dos Pães
é o "Anúncio da Eucaristia", um sacrifício
em que a vítima "será" o próprio Jesus, de
que o Maná foi "figura".
Nota do Autor: ( ) Seria
uma tradução "literal" mais conforme à palavra do
"koiné" ("anapesein") ou latina ("discumbere") usada,
pelo Evangelista ou pela Vulgata, referindo-se aos "assentados" ou "presentes",
como se usa traduzir. Já, a Bíblia de Jerusalém e
a TOB, de edições francesas, melhor traduzem por "convives",
que em português significa "convivas ou convidados".
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