Terminada a exposição e promulgação pública dos dez mandamentos, o Povo de Israel se manifesta e pede:
"Ora, todo o povo presenciava
os trovões, e os relâmpagos, e o sonido da trombeta, e o monte
a fumegar; e o povo, vendo isso, estremeceu e pôs-se de longe. E
disseram a Moisés: Fala-nos tu mesmo, e ouviremos; mas não
fale Deus conosco, para que não morramos. Respondeu Moisés
ao povo: Não temais, porque Deus veio para vos provar, e para que
o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis.
Assim o povo estava em pé de longe; Moisés, porém,
se chegou às trevas espessas onde Deus estava. Então disse
o Senhor a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: Vós
tendes visto que do céu eu vos falei. Não fareis outros deuses
de prata junto a mim, nem deuses de ouro fareis para vós"
(Ex 20,18-23).
Constata-se inicialmente a presença da expressão "...NÃO
TEMAIS...", expressão que surge sempre que um eleito
se vê face a face com uma missão a que Deus o convoca,
tal como com Abraão, Isaac e Jacó, aqui com os Filhos de
Israel e em várias oportunidades no Novo Testamento (Gn
15,1; 26,24; 46,3; 50,19-21; Ex 20,20;...; Mt 1,20; 10,26.28.31; Lc 1,13.30;...),
bem como quando da oposição que as mais das vezes surge do
desencontro da fé com as coisas do mundo. Aconteceu isso com Abraão,
ao recusar os despojos a que tinha direito (cfr. Gn
15,1), e que desde a sua conversão teve que enfrentar inúmeras
dificuldades, tendo que se afastar de seu clã, garantia de sua segurança
e sobrevivência naquele tempo. Numa época em que se acreditava
em vários deuses, cada clã ou tribo se formava em torno de
um deles. Já foi visto anteriormente e é até bom repetir,
que quando Abraão deixa de adorar o deus do clã (Jos
24,2) e passa a adorar Iahweh ou El Shaddai (Ex
6,3), não poderia mais nele permanecer. São coisas
da cultura do tempo em que se deram tais fatos. Atualmente, e para qualquer
pessoa, não é um problema insuperável se afastar da
família, do convívio dos conterrâneos ou da terra natal,
e até mesmo da religião. Pode-se viver praticamente em segurança
em qualquer lugar do mundo. Mas, nos dias de Abraão, era-lhe por
demais comprometedora a sobrevivência. Basta se lembrar que foi esse
o castigo imposto por Deus a Caim (Gn 4,11-14),
e, o mesmo Abraão, sentiu-se obrigado a pedir que sua mulher Sara
dissesse ser sua irmã, por causa do perigo de ser morto para dela
se apropriarem (Gn 12,10-13; 20,1-7). Da mesma
forma, não reteve os despojos advindos da sua vitória, libertando
Lot e os Reis reduzidos à escravidão (Gn
14,21-24). Se bem que, além da prudência, havia também
a sua consagração a Deus (Gn 14,22-23
/ 2Rs 5,16) e, não pertencendo a um clã que lhe servisse
de suporte, adorando um deus desconhecido e impotente face aos olhos do
mundo de então, temeu. O próprio Deus vem então
em seu socorro, ocasião em que Abraão exala a sua ansiedade
mais íntima: faltava-lhe um filho, um herdeiro (Gn
15,1-6), a quem pudesse deixar os despojos como herança.
Sua consagração a Deus o situava em conflito com o mundo
de então.
Quando o narrador situa essa manifestação de Iahweh "depois
desses acontecimentos..." a está situando após todos
os fatos narrados desde a conversão de Abraão, que modificara
e dificultara por demais a sua vida. Não tendo filho, teria que
se contentar com um herdeiro que não era de sua descendência,
como lhe exigia a cultura do tempo. De tudo isso e da entrega incondicional,
adveio-lhe o temor seguido do consolo, que o próprio Deus
lhe traz com o "não temas". Essa expressão aparece
também tanto na Anunciação de João Batista
(a Zacarias) como na Anunciação de Jesus Cristo (a
Maria):
| "Não temas, Abrão! Eu sou o teu escudo, tua recompensa será muito grande" (Gn 15,1). | "Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida..." (Lc 1,13). | "Não temas, Maria! Encontraste Graça junto de Deus..." (Lc 1,30). |
Agora também ao Povo de Israel, ali no Monte Sinai, Moisés lhe dirige o "não temas" vocacional, esclarecendo-se assim o motivo do "temor" então reinante face a impressionante teofania (Ex 19,16-21), sem que ocorresse uma debandada geral. É que não foi um temor ocasionado pelos mesmos motivos de um medo irracional, que tudo submete ao instinto de conservação e provoca o desespero, o pânico e a fuga. Era sim, aquele temor reverencial face ao sagrado do acontecimento e da seriedade do compromisso para o que foram todos os Filhos de Israel conscientizados, preparados e conduzidos, tal como nos casos dos demais eleitos. Era o remate final de uma longa e difícil trajetória, marcada ainda pela responsabilidade de outra tão espinhosa como a primeira missão, que se inicia com duas novas situações. A primeira coloca Moisés como o interlocutor oficial dos israelitas com Deus, quando se inicia como profeta (Dt 18,16-17):
"E disseram a Moisés:
Fala-nos tu mesmo, e ouviremos; mas não fale Deus conosco, para
que não morramos" (Ex 20,19).
"Assim dirás aos Filhos de Israel (Ex 20,22)
(...) Eis as leis que lhes proporás..." (Ex
21,1) - Moisés em nome de Deus, de acordo com o pedido deles,
passa a descrever alguns procedimentos costumeiros, firmando-os como normas
de comportamento. Com elas regulamenta oficialmente o relacionamento geral,
a partir de sua experiência como "juiz" (Ex
18,13-16), e cuja principal finalidade é a de manter a paz
comunitária, fruto da comunhão com Deus que se estabeleceria
pelos sacrifícios oferecidos e pela obediência aos preceitos
delineados. É de se destacar a instituição oficial
de uma pena, mencionada desde Caim (Gn 4,14)
e Lamec (Gn 4,14), espécie de vingança
legal que se resume em "tal dano tal punição",
donde o nome de talião:
"Mas se resultar dano
grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por
dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por
queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe"
(Ex 21,23-25).
Jesus vai revogar esse dispositivo, estabelecendo:
"Ouvistes que foi dito:
Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que
não resistais ao homem mau; mas, a qualquer que te bater na face
direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo,
e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer
te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil" (Mt
5,38-41).
Os demais dispositivos se agrupam em ordenações acerca dos
escravos (Ex 21,1-11), leis contra os homicídios
e lesões corporais (Ex 21,12-32), leis
contra os danos à propriedade privada (Ex 21,33-22,5), regulando
o crédito e o empréstimo (Ex 22,6-14),
quanto à violação de uma virgem (Ex
22,15-16), deveres para com os inimigos e estrangeiros (Ex
23,1-9) e as leis morais e religiosas (Ex
22,17-30 / 23,10-33). Uma simples leitura será suficiente
para se dimensionar a forma rudimentar dos costumes de então principalmente
no campo que atualmente se diz dos direitos civil e penal. O que não
se deve fazer é analisar tais dispositivos confrontando-os com as
conquistas modernas e definições ideológicas ou até
mesmo religiosas atuais, mas situá-los no seu devido tempo e procurar
compreender a cultura de então, para melhor penetrar nos meandros
dos desígnios de Deus ali se debatendo para se deixar conhecer,
além de conduzir a História. Assim vão se destacar
as leis morais e religiosas como arremate final, iniciando com a condenação
da feiticeira, a morte do que praticar ato sexual com um animal, o anátema
para quem sacrificar a outros deuses, modo de se comportar com os estrangeiros,
a viúva ou órfão e principalmente com o "próximo",
que naquele tempo era outro Israelita (Ex 22,17-27).
Quase ao final dessa minuciosa exposição legal aparece uma
frase aqui colocada como demonstração da finalidade de tudo:
"Ser-me-eis homens santos"
(Ex 22,30).
Há uma relação legal entre o comportamento e a santidade,
modo do Homem se posicionar tal como "no princípio", "imagem e semelhança
de Deus". Vai prosseguir assim na casuística moral até desaguar,
após os sábados (passa a se mencionar o Ano Sabático
junto com o dia do Sábado) nas festas religiosas de ordem pública,
obrigando os homens ao comparecimento diante do Senhor Deus, pelo que não
se menciona a Páscoa, que era uma festa mais íntima, familiar
(Ex 23,13-19). Tudo se encaminha para um desfecho
em que transparece a missão de Israel junto aos povos que seriam
derrotados na conquista a que se destinam:
"Porque o meu anjo irá
adiante de ti, e te introduzirá na terra dos ("nomeiam-se sete
povos") e eu os aniquilarei. Não te inclinarás diante
dos seus deuses, nem os servirás, nem farás conforme as suas
obras; antes os derrubarás totalmente, e quebrarás de todo
as suas colunas. Servireis, pois, ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará
o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós
as enfermidades. (...) Não habitarão na tua terra, para
que não te façam pecar contra mim; pois se servires os
seus deuses, certamente isso te será uma armadilha"
(Ex 23,20-33).
"Não te inclinarás diante dos seus deuses, nem os servirás,
nem farás conforme as suas obras; antes os derrubarás totalmente,
e quebrarás de todo as suas colunas...": Eis aqui a principal
missão de Israel, a erradicação do culto a outros
deuses destruindo-os completamente juntamente com a fidelidade a Iahweh
a quem "servireis, pois, ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará
o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós
as enfermidades". Tudo isso bem definido Moisés se encaminha
para a ratificação da Aliança, agora com o Povo dos
Filhos de Israel, a quem apresenta as condições ditadas por
Deus:
"Veio, pois, Moisés
e relatou ao povo todas as palavras do Senhor e todos os estatutos; então
todo o povo respondeu a uma voz: "Faremos tudo o que o Senhor disse"
(Ex 24,3).
Após a apresentação de todo o Código da Aliança,
em adendo ao Decálogo, e a adesão incondicional do Povo dos
Filhos de Israel, o compromisso mútuo é selado com o sangue
de um sacrifício:
"Então Moisés
escreveu todas as palavras do Senhor e, tendo-se levantado de manhã
cedo, edificou um altar ao pé do monte, e doze colunas, segundo
as doze tribos de Israel, e enviou certos jovens dos filhos de Israel,
os quais ofereceram holocaustos, e imolaram bois ao Senhor em
sacrifícios pacíficos. E Moisés tomou a metade
do sangue, e a pôs em bacias; e a outra metade do sangue espargiu
sobre o altar. Também tomou o Livro da Aliança e o leu perante
o povo; e o povo disse: Tudo o que o Senhor disse nós faremos, e
obedeceremos. Então tomou Moisés aquele sangue, e
espargiu-o sobre o povo e disse: Eis aqui o Sangue da Aliança
que o Senhor fez convosco através de todas estas cláusulas.
(...) ... depois comeram e beberam" (Ex
24,4-8.11c).
Aquela Aliança iniciada com Abraão é agora ratificada
com os seus descendentes, com aspersão de sangue num sacrifício
com os Filhos de Israel (ou Jacó), cumprindo-se a Promessa e continuando
a busca do mesmo desígnio de Deus em busca de estabelecer com o
Homem a comunhão de vidas do Jardim do Éden:
"Eu farei de ti um
grande povo, abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu,
sê uma bênção" (Gn 12,2) / "...não mais
serás chamado Abrão, mas Abraão será o teu
nome; pois te faço pai de muitas nações; far-te-ei
frutificar extraordinariamente, e de ti farei nações, e reis
sairão de ti; estabelecerei a minha Aliança contigo e com
a tua descendência depois de ti em suas gerações, como
Aliança perpétua, para ser o teu Deus e de tua descendência
depois de ti. Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de
ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã,
em perpétua possessão; e serei o seu Deus"
(Gn 17,5-8).
É essa Aliança que se consumará definitivamente com
Jesus Cristo:
"Semelhantemente também,
depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é
a Nova Aliança em meu Sangue; fazei isto, todas as vezes
que o beberdes, em memória de mim" (1Cor
11,25).
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