1. FUNDAMENTOS GERAIS
O Povo dos Filhos de Israel foi denominado pelo próprio Deus
de "meu filho primogênito" (Ex 4,22),
cujas características e implicações pertencentes ao
Instituto da Primogenitura de "primícia" e
"sacerdócio" já se traduzia e lhe conferia uma missão
específica que a pouco e pouco se amplia e se esclarece:
"Assim fala o Senhor:
Israel é meu filho, meu primogênito" (Ex
4,22)
"Agora, pois, se ouvirdes
a minha voz e guardardes a minha Aliança, sereis a minha propriedade
peculiar entre todos os povos, porque minha é toda a terra; e vós
sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa..."
(Ex
19,5-6)
"Quando o anjo marchar
na tua frente e te introduzir na terra dos (..."vários povos"...),
e eu os exterminar, não adorarás os seus deuses, nem lhes
prestarás culto, imitando seus costumes. Ao contrário derrubarás
e quebrarás as suas colunas. Servireis ao Senhor vosso Deus, e ele
abençoará teu pão e tua água, e afastará
do teu meio as enfermidades. (...) Não farás aliança
com eles nem com seus deuses. ...te fariam pecar contra mim: Servirias
aos seus deuses, e isso seria uma armadilha para ti" (Ex
23,23-33).
"... vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação
santa" conjuga-se com "...não adorarás os seus deuses, nem
lhes prestarás culto, imitando seus costumes; ao contrário
derrubarás e quebrarás as suas colunas; servireis ao Senhor
vosso Deus..." - com tais desígnios é fixada a mesma Missão
da Difusão do Nome de Deus, com e exclusão e eliminação
de quaisquer outros. Assim, tal como desde Abraão, para o testemunho
da adoração a Iahweh, forçosamente é indispensável
a presença constante de um Altar de Sacrifício. Fazendo do
Culto o Centro Gravitacional da Aliança contraída, agora
que ela se consuma no Monte Sinai e se corporifica com o Povo de Deus,
ratifica-se e recorda-se tanto a Missão como a assumida fidelidade
absoluta e exclusiva:
"Do nome de outros
deuses nem fareis menção, nem se ouça da vossa boca"
(Ex
23,13)
"... se ouvirdes a minha
voz e guardardes a minha Aliança, sereis a minha propriedade peculiar
entre todos os povos, porque minha é toda a terra; e vós
sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa..."
(Ex
19,5-6).
Já não se trata de um relacionamento individual ou de uma
tribo num regime patriarcal, mas de estrutura mais ampla, como a de um
povo, o Povo de Israel, "separado" dentre outros povos que também
são de Deus ("porque minha é toda a terra"). Por isso, dadas
as novas dimensões e exigências coletivas, estabelecem-se
normas para o culto principal da Aliança contraída, descrevendo-se
inicialmente as exigências básicas para a construção
de um Altar de Sacrifícios, a mesma tradição de Centro
Gravitacional do Culto, agora do Povo dos Filhos de Israel:
"...Não me coloqueis
entre os deuses de ouro ou de prata, deuses que não devereis fabricar
para vós. Deverás fazer para mim um altar de terra, sobre
o qual me oferecerás os holocaustos, os sacrifícios pacíficos,
as ovelhas e os bois. Em qualquer lugar em que fizer recordar o meu nome,
virei a ti e te abençoarei. Se me construíres um altar de
pedra, não o faças de pedras lavradas, porque ao manejar
o cinzel contra a pedra, tu a profanarias..." (Ex
20,21-26).
"...Não me coloqueis entre os deuses de ouro ou de prata, deuses
que não devereis fabricar para vós" - é como de Deus
dissesse: "não me incluam entre outros deuses como num panteão,
eu sou "o Deus verdadeiro e o Único Deus para vocês"; e, "um
altar de terra me farás..." (...) "E se me fizeres um altar de pedras,
não o construirás de pedras lavradas..." - Pode-se até
ser denominado de "altar de campanha" ou de "santuário peregrino"
tal a forma rudimentar de sua construção para o uso durante
a peregrinação que fariam pelo deserto. Só poderia
ser erguido havendo prévia manifestação de Deus, em
forma de "bênção" - algo de "fecundo ou fértil"
que acontecendo deixasse clara a Sua presença no local, agindo em
benefício de todo o povo. Moisés, então, em nome de
Deus ("Estes são os estatutos que lhes proporás..." - Ex
21,1), apresenta ao Povo ali reunido normas de comportamento em
forma de leis de aplicação quotidiana, oficializando o que
já se praticava. Como todas elas estão desordenadas e as
mais das vezes mescladas com outros dispositivos é preciso separá-las
para melhor entendimento. Um exemplo explica melhor:
"Não deixarás
com vida uma feiticeira. Quem tiver relações com um animal,
será punido de morte. Quem oferecer sacrifícios aos deuses,
e não unicamente ao Senhor , será condenado ao extermínio.
Não maltrates o estrangeiro nem o oprimas, pois vós fostes
estrangeiros no Egito. Jamais oprimas uma viúva ou um órfão.
Se os oprimires, clamarão a mim e eu lhes ouvirei os clamores. Minha
cólera se inflamará e eu vos matarei à espada. Vossas
mulheres se tornarão viúvas, e órfãos os vossos
filhos. Se emprestares dinheiro a alguém de meu povo, a um pobre
que vive ao teu lado, não sejas um usurário. Não lhe
deveis cobrar juros. Se tomares como penhor o manto do próximo,
deverás devolvê-lo antes do pôr-do-sol. Pois é
a única veste para o corpo, e coberta que ele tem para dormir. Se
ele recorrer a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso. Não
blasfemarás contra Deus, nem injuriarás o príncipe
do povo.28
Não atrasarás
a oferta de tua colheita e do teu lagar. Deverás dar-me o primogênito
de teus filhos" (Ex
22,19-28).
Neste pequeno trecho que se escolheu para o exemplo, facilmente se destacam
os seguintes versículos que se referem estritamente ao relacionamento
com Deus e ao culto, sendo os demais de cunho moral, referindo-se ao comportamento
individual, inseparáveis para o Israelita:
"Não deixarás
com vida uma feiticeira. (...) Quem oferecer sacrifícios aos deuses,
e não unicamente ao Senhor , será condenado ao extermínio.
(...) Não blasfemarás contra Deus, nem injuriarás
o príncipe do povo. Não atrasarás a oferta de tua
colheita e do teu lagar. Deverás dar-me o primogênito de teus
filhos " (Ex
22,19-28).
Da mesma forma são inseridas aqui também normas para o culto
tais como a consagração dos "primogênitos dos filhos"
para o sacerdócio, a oferenda dos "das vacas e das ovelhas" (v.
tb. Ex 13,12) e "as primícias dos primeiros
frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus" (Ex
23,19), costume e sistema que será oficializado futuramente
para a manutenção do sacerdócio, destacando-se também
as "oferendas" e o "dízimo":
"Não atrasarás
a oferta de tua colheita e do teu lagar. Deverás dar-me o primogênito
de teus filhos. O mesmo farás com o primogênito das vacas
e das ovelhas: ficará sete dias com a mãe, e no oitavo tu
o entregarás a mim. Sede homens santos para mim. Não comais
carne de animal dilacerado no campo, mas lançai aos cães"
(Ex
22,28-30).
Todas essas normas foram integradas indestacavelmente na ratificação
da Aliança (Ex 24,3-8), destacando-se
ainda as festas religiosas já então constando como instituídas,
eis que já do uso costumeiro, insistindo-se na exclusividade de
Iahweh:
"Do nome de outros
deuses nem fareis menção; nunca se ouça da vossa boca.
Três vezes no ano me celebrarás festa: A Festa dos Ázimos
guardarás: durante sete dias comerás pães ázimos
como te ordenei, ao tempo apontado no mês de Abibe, porque nele saíste
do Egito. Ninguém apareça perante mim de mãos vazias.
Guardarás a Festa da Messe, a das Primícias do teu trabalho
de semeadura no campo; e, igualmente guardarás a Festa da Colheita
no fim do ano, quando tiveres recolhido do campo os frutos do teu trabalho.
Três vezes no ano todos os teus homens aparecerão diante do
Senhor Deus. Não oferecerás o sangue do meu sacrifício
com pão levedado, nem ficará da noite para a manhã
a gordura da minha festa. As primícias dos primeiros frutos da tua
terra trarás à casa do Senhor teu Deus. Não cozerás
o cabrito no leite de sua mãe" (Ex
23,13-19).
Aparecem aqui três das festas religiosas dos Israelitas:
1.º) "A Festa dos Pães Ázimos" (Ex
23,15), criada à saída do Egito juntamente com a Instituição
da Páscoa (Ex 12,1-13 - 'Páscoa'
/ Ex 12,14-20 - 'Ázimos' = 'sem fermento'):
"...Quando o Senhor
te houver introduzido na terra (...) que ele jurou a teus pais que te daria,
terra que mana leite e mel, guardarás este culto neste mês.
Sete dias comerás pães ázimos, e ao sétimo
dia haverá uma festa ao Senhor. Sete dias se comerão pães
ázimos..." (Ex
13,3-12).
2.º) "Guardarás a Festa da Messe ou De Pentecostes ou da Colheitas,
e a das Primícias do teu trabalho de semeadura no campo..." (Ex
23,16) - Esta festa agora oficializada (cfr. tb. Ex
34,22) será regulamentada mais tarde, quando já na
Terra Prometida (Lv 23,15-22). O seu nome
lhe advém do espaço de "sete semanas" ou "cincoenta dias"
("Pentecostes", em grego), contados do início da colheita até
o dia da festa. Para os cristãos esta festa marcará o início
das atividades missionárias da Igreja com o "Batismo dos Apóstolos"
(At 1,5) na "Vinda do Espírito Santo":
"Chegando o Dia de
Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do
céu um ruído, como de um vento impetuoso, que encheu toda
a casa em que estavam sentados. E viram, então, uma espécie
de línguas de fogo, que se repartiram e foram pousar sobre cada
um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram
a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes
concedia" (At
2,1-4).
3.º) "Guardarás a Festa da Colheita (Festa dos Tabernáculos
Ex 23,16) no fim do ano, quando tiveres recolhido
do campo os frutos do teu trabalho" (Lv 23,33-44).
Esta festa também ficará para sempre ligada à História
Cristã, durante a qual ocorreu aquilo que se comemora como a Entrada
Triunfal de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, desenvolvido
e esclarecido por São João:
"Depois disso, Jesus
andava pela Galiléia. Não queria andar pela Judéia
porque os judeus dali o queriam matar. Estava perto a festa dos judeus,
chamada das Tendas (...) No último dia, o mais importante da festa,
Jesus falou de pé e em voz alta: "Se alguém tiver sede venha
a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior
correrão rios de água viva". Referia-se ao Espírito
que haviam de receber aqueles que cressem nele. De fato, ainda não
tinha sido dado o Espírito, pois Jesus ainda não tinha sido
glorificado" (Jo
7,1-39)
"...Eu sou a luz do mundo.
Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz
da vida" (Jo
8,12).
Nesta festa os israelitas habitavam durante sete dias em tendas ou
cabanas, donde o seu nome (Festa das Tendas ou Festa das Cabanas), para
comemorar o tempo de peregrinação no deserto:
"No primeiro dia tomareis
folhagem de árvores ornamentais, ramos de palmeiras, galhos
de árvores frondosas, de salgueiros da torrente, e vos alegrareis
durante sete dias diante do Senhor vosso Deus. Celebrareis esta festa em
honra do Senhor cada ano durante sete dias. É uma lei perpétua,
válida para vossos descendentes. Celebrareis a festa no sétimo
mês. Sete dias morareis em cabanas. Todos que forem naturais de Israel
morarão em cabanas, para que vossos descendentes saibam que eu fiz
morar os israelitas em cabanas quando os tirei do Egito. Eu sou o Senhor
vosso Deus" (Lv
23,40-43).
Com o tempo e por causa da simbologia da água e da luz usadas no
cerimonial essa festa vai tomar um sentido messiânico (Ex
17,1-7; 1 Cor 10,4; Zc 14,8; Ez 47,1-2; Is 9,1-6; 60,19-21) que
Jesus reivindicará ao se comparar com a "água viva que dará
e com a luz do mundo que é" (Jo 7,39 e 8,12).
As festas tinham o colorido de um banquete, duravam uma semana, e eram
celebradas com o seu memorial e objetivo, onde tudo girava em torno de
verdadeiro culto e sacrifício ("...vos alegrareis durante sete dias..."):
"Estas são as
solenidades do Senhor nas quais convocareis assembléias litúrgicas
para oferecer ao Senhor sacrifícios pelo fogo, holocaustos e oblações,
vítimas e libações, prescritos para cada dia, além
dos sacrifícios ao Senhor aos sábados, dos dons, votos e
todas as ofertas voluntárias que apresentareis ao Senhor" (Lv
23,37-38)
"Três vezes ao
ano, todos os teus homens deverão apresentar-se perante o Senhor
teu Deus, no lugar que ele tiver escolhido: na festa dos Ázimos,
na festa das Semanas e na festa dos Tabernáculos. Ninguém
aparecerá perante o Senhor de mãos vazias mas cada qual fará
suas ofertas conforme as bênçãos que o Senhor teu Deus
lhe houver concedido" (Dt
16,16-17).
Para todas elas a regra básica era a exigência de "ninguém
apareça perante mim de mãos vazias 'mas cada qual fará
suas ofertas conforme as bênçãos que o Senhor teu Deus
lhe houver concedido" (Ex 23,15; Dt 16,16-17),
cujas oferendas seriam elevadas à santificação sacrificial.
Assim, consoante esse dispositivo, pode-se compreender a consagração
dos primogênitos dos animais e das primícias que já
se viu, os quais se destinavam ao culto litúrgico de então.
Além disso aparecem os sábados de anos, uma novidade legal
para o "repouso" da terra, não mandamental. O Sábado do Decálogo
será para sempre como um Sinal da Aliança, e vai desaguar
com essa tônica principalmente no judaísmo (Ne
13,15-22; 1Mc 2,32-41):
"Durante seis anos
semearás a terra e recolherás os produtos. No sétimo
ano, porém, deixarás de colher e de cultivar a terra, para
que se alimentem os pobres de teu povo, e o resto comam os animais do campo.
O mesmo farás com a vinha e o olival. Seis dias trabalharás,
e no sétimo descansarás, para que descansem também
o boi e o jumento, o filho de tua escrava e o estrangeiro possam tomar
fôlego. Guardai tudo o que vos disse: Não invocareis o nome
de outros deuses; que o seu nome não se ouça em tua boca"
(Ex
23,10-13).
Após a ratificação da Aliança e de todas essas
admoestações, de ordem religiosa mescladas com as de outra
ordem, começa-se a estruturar especificamente o culto com os seus
ornamentos e aparatos indispensáveis. Era preciso ali mesmo e ainda
no deserto buscar regulamentar todo o cerimonial com a mesma pompa com
que eram ornados os rituais dos deuses pagãos, de cuja lembrança
ainda se retinha na memória. Não que se copiasse ou plagiasse
o culto egípcio, mas aquilo que lá se usava nos cultos era
culturalmente comum a todos os povos. Apesar das variações
naturais e peculiares de cada povo, havia muita coisa em comum, fruto de
uma mesma cultura histórica.
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