4. "O BEZERRO DE OURO"
Moisés continuava no Monte Sinai e o Povo de Israel sem o seu
comando e controle sentiu como se fora abandonado e como tal reage:
"Vendo que Moisés demorava a descer do monte, o povo reuniu-se em torno de Aarão e lhe disse: "Vamos! Faze-nos "deus" ("Elohim", no texto hebraico) que "caminhe" à nossa frente. Pois quanto a Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu" (Ex 32,1-2).
Esta frase "vamos! faze-nos "deus" que "caminhe" à nossa frente..."
e a reação de Moisés quanto ao fato (Ex
32,19-28), insinuam a existência de uma "idolatria" pois Aarão,
de posse de objetos de ouro, fundira um Bezerro de Ouro:
"Aarão lhes disse: "Tirai os brincos de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas, e trazei-os a mim". Todo o povo arrancou os brincos de ouro que usava, e os trouxe para Aarão. Recebendo o ouro, ele o moldou com o cinzel e fez um bezerro fundido. Então eles disseram: "Aí tens, Israel, "Elohim" (= "deuses") que te fez sair do Egito!". Ao ver isto, Aarão construiu um altar diante dele e proclamou: "Amanhã haverá festa em honra do Senhor". Levantando-se na manhã seguinte, ofereceram holocaustos e apresentaram sacrifícios pacíficos. O povo sentou-se para comer e beber, e depois levantou-se para se divertir" (Ex 32,2-6).
"Elohim" é um dos nomes com que era conhecido o Deus dos hebreus e é dele que se faz a imagem. Não se tratou de uma simples representação pois "levantando-se na manhã seguinte, ofereceram holocaustos e apresentaram sacrifícios pacíficos; o povo sentou-se para comer e beber, e depois levantou-se para se divertir" (Ex 32,6). O Povo ofereceu-lhe um Sacrifício do tipo denominado "pacífico", uma "refeição sagrada", pelo que é incriminado por Iahweh (Ex 32,7-8). Ao que tudo indica, houve ai uma causa muito séria eis que culminou com a morte de "cerca de três mil homens" (Ex 32,28). Moisés, ao "ver o Bezerro de Ouro e as danças, num acesso de cólera, arroja e quebra as tábuas de Pedra" escritas por "Elohim" (Ex 32,19), "queimou o Bezerro, triturou-o, reduziu-o a pó e, misturando-o na água, obriga o povo a bebê-la". Em virtude do conflito aqui manifestado entre o nome Iahweh e Elohim, impõe-se uma análise cultural dos nomes de Deus, que aparece nesse trecho como "Elohim", de quem se fez a imagem (Ex 32,4.8), contra quem se insurge "Iahweh" (Ex 32,7-8).
Com já se viu quando da análise feita por ocasião da Bênção de Jacó (cfr.: Capítulo 2, n.º 12, Gn 49), à tribo de Efraim, após José, caberia o exercício da chefia do clã na forma da tradição cultural correspondente ao equilíbrio entre as tribos em vigor na época.
Nesse episódio do Bezerro de 0uro manifestam-se aspectos daquela
hostilidade latente no seio do povo, a que lá se referiu, desde
quando ainda se resumia na Tribo de Jacó somente. Como se viu, e
não faz mal repetir, José era o filho predileto de Jacó
e os seus irmãos o odiavam, seja por causa disso seja por causa
de sonhos dele, que previam sua supremacia futura (Gn
37,3-4.5-11). José e Judá são os dois filhos
primogênitos de ambas as mulheres de Jacó, Raquel e Lia. De
Lia, Judá seria o primogênito em lugar de Rúben, Simeão
e Levi que perderam o direito (Gn 49,4-6);
e, de Raquel, José, a quem Jacó amava com predileção
e a quem deu a primogenitura (Gn 49,22-26).
Por sua vez, foi a tribo de Judá abençoada por Jacó
com um colorido messiânico (Gn 49,8-12),
cabendo-lhe o direito da primogenitura na ordem cronológica de nascimento
(Gn 29,31-35), pela destituição
de Rúben e Simeão (Gn 49,5-7).
Assim como Esaú odiou Jacó por causa da primogenitura, pelo
mesmo motivo é de se esperar o ressentimento de Judá quando
foi ela destinada a José, tanto com a correspondente bênção,
como com Efraim igualado a Rúben (Gn 48,5)
e na porção maior dada a José (Gn
48,22). Não se deve perder de mira que foi Judá quem
chefiou a venda de José para os ismaelitas (Gn
37,26-27), contra a vontade de Rúben que o queria restituir
ileso ao pai (Gn 37,22), e isso se deu antes
da bênção de Jacó (Gn
49). Também Rúben, que detinha o direito, não
deve ter aceito a destituição sem em contrapartida devotar
alguma ojeriza por perdê-lo. Assim, os antagonismos familiares fervilhavam,
fermentando-se uma divisão futura. Esses fatos são confirmados
biblicamente:
"A descendência de Rúben, o primogênito de Israel: Ele era na realidade o primogênito, mas porque profanou o leito do pai, o direito da primogenitura foi conferido aos filhos de José filho de Israel, e assim os rubenitas não foram registrados como primogênitos. Na verdade, Judá veio a predominar entre os irmãos e dele saiu um príncipe; mas a primogenitura ficou com José" (1Cor 5,1-2)
"Hosa, da descendência de Merari, tinha filhos: Semri era o chefe; o pai o nomeara chefe, embora não fosse o primogênito" (1Cor 26,10).
Uma análise, mesmo superficial como esta, mostra que nesse episódio se concentram, dentre outros, esses conflitos e tradições tribais. Em primeiro lugar, algumas traduções falam em "deuses" quando traduzem Ex 32,1.4.8 e 23, segundo a Septuaginta e a Vulgata, que é a tradução literal de "Elohim" no hebraico. Sabe-se que "Elohim" era um dos nomes hebraicos de Iahweh por que em Gn 1,1 a tradução literal seria "no princípio 'deuses (= 'Elohim')' 'criou (= 'bara') 'os céus e a terra". Pelo fato de se colocar o verbo no singular se conclui que "Elohim" aqui é o nome do Deus - Criador e não o plural da palavra hebraica "El (=deus)". Hoje se reconhece na contextura das Escrituras Sagradas a existência de narrativas oriundas de várias tradições documentárias, destacando-se dentre elas as denominadas de "Eloísta" e "Javista", conforme o texto se refira à tradição de Elohim ou à tradição de Iahweh, tal o nome dado a Deus. É muito fácil saber qual o nome se encontra no texto original pela tradução: - se o nome no texto traduzido for "Senhor" no original está "Iahweh", se o nome traduzido for "Deus" então no original se encontra "Elohim". No trecho em exame (Ex 32) nota-se uma espécie de simbiose, fazendo com que alguns especialistas o atribuam às duas tradições documentárias. Não se pretende participar aqui destes debates, destinando-se o comentário apenas a confirmar o raciocínio exposto.
Só se pode concluir que Moisés seja o patrono do nome "Iahweh" (Ex 3,13-15; 6,2-3), cabendo-lhe a sua "apresentação" ao Povo de Israel que o designava com outros nomes: Elohim e Iahweh (Gn 1,1; 4,6.26; 12,1; Ex 6,2-4), El-Shaddai (Gn 17,1; 28,3; 43,14; Ex 6,3), El Elyon (Gn 14,18-24), El '0lam (Gn 21,33), El Ro'i (Gn 16,13), Iahweh Yir'el (Gn 22,14), El Bete (Gn 31,13; 35,7), Adonai (Gn 15,2.8) etc.. Pelos prodígios do Egito o nome Iahweh se impôs aos Filhos de Israel bem como Moisés, o seu Profeta, superando-se a rejeição ocorrida no início da luta (Ex 2,14). Não pertencia a nenhuma das tribos que detinham o direito advindo da primogenitura e a de Levi, que era a dele (Ex 2,1-2.10), fora dele excluída por Jacó (Gn 49,5-7), não lhe cabendo o encargo. Grande vantagem lhe adveio em virtude de pertencer à corte faraônica (Ex 2,10) fazendo com que em parte o fato fosse contornado, aliando-se a isso os prodígios de Iahweh, realizados por seu intermédio e Aarão, bem como o "ministério" de Josué, habilmente lotado como um seu "primeiro ministro" (Ex 24,13), membro da Tribo de Efraim: essa escolha parece ser uma evidência da exigência do direito da tribo que assim teria sido pacificada, além do fato de ser destinado a substitui-lo, confirmando-lhe a preeminência (Nm 28,18-23 / Dt 31,3-8 / Js 1,1-9).
Quando Moisés subiu ao monte e lá permaneceu "quarenta
dias e quarenta noites" (Ex 24,18), levando
consigo Josué (Ex 24,13), o povo sentiu-se
desguarnecido e abandonado por Yahweh e seu profeta e buscaram apoio em
Elohim, tal como registra a Bíblia Hebraica:
"Mas o povo, vendo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e lhe disse: Levanta-te, faz-nos "Elohim" (= deuses, - cfr.: consta "Elohim" na Bíblia Hebraica) que vá adiante de nós; porque, quanto a esse Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu..." (Ex 32,1.23).
Sabe-se que quando se usa a quantidade bíblica de "quarenta dias
e quarenta noites" não se trata de uma numeração exata,
mas simbólica, caracterizando-se "um tempo necessário para
algum ato". Tal ausência se dá após a promulgação
do Decálogo e a ratificação da Aliança, antes
da instituição do Tabernáculo ou Santuário
e do Sacerdócio. Tanto é assim que a alegação
"não sabemos o que lhe aconteceu" caracteriza bem que não
se tratava de uma ausência pequena, mas de muito tempo a ponto do
povo sentindo-se desguarnecido e abandonado voltar a buscar apoio no antigo
Deus tribal: Elohim. Com isso manifestou-se o que se deu a entender
ser uma espécie de sedição, aparecendo então
aquela divisão já latente no seio do povo desde a sua condição
tribal, tendo agora por estopim a violação do direito de
primogenitura. A sedição teve por fulcro a volta a Elohim,
para que assumisse a posição de comando a que tinha direito,
naturalmente sob o comando de Efraim, o detentor do direito advindo da
primogenitura e adoção que recebera pelas mãos de
Jacó. Tanto está certa esta conclusão que, descoberta
a sedição, coloca-se Moisés "à entrada do acampamento
exclamando:
Esta frase só tem sentido no contexto se a sedição se deu contra a Aliança contraída com Iahweh e concluída no Sinai por meio de Moisés. É por isso que Moisés quebra as Tábuas de Pedra (Ex 32,19), escritas "pelo dedo de Elohim" (Ex 31,18, texto hebraico). Também a frase: "Moisés viu que o povo estava abandonado, pois que Aarão o abandonara, expondo-o à zombaria dos adversários" (Ex 32,25) só tem sentido em referência aos que permaneceram fiéis a Iahweh e Moisés. Tudo isso confirma que o episódio do Bezerro de Ouro não se refere a uma idolatria, isto é, à adoração de um ídolo. Vem em favor dessa conclusão o fato de Aarão não ter sido punido, tendo ele fundido a imagem (Ex 32,4), apesar da sedição não ter sido da Tribo de Levi à qual pertencia. Foram os levitas que apoiaram Moisés (Ex 32,26), correspondendo bem à fama que desfrutavam de sanguinários, motivo da recusa deles na escala descendente da substituição de Rúben pelo próprio Jacó (Gn 34,25-31 / 49,5-7), matando naquele dia "três mil homens" (Ex 32,28). A frase de Moisés: "Cinge, cada um de vós, a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo acampamento, de porta em porta, e mate, cada qual, a seu irmão, a seu amigo, a seu parente" (Ex 32,27), só teria sentido e melhor se identifica se dirigida também a Josué, "braço direito de Moisés", responsável pela pacificação e sendo da tribo de Efraim, por força do cargo a ele cabia também a reação, até mesmo por uma questão de ordem e disciplina.
Mas, o exercício do sacerdócio, como já foi amplamente
disposto, vinculava-se indestacavelmente à primogenitura, pelo que
pertenceria exclusivamente à tribo de Efraim. 0 próprio Moisés
reconhece:
"De José disse: Abençoada pelo Senhor seja a sua terra, (...)...venha tudo isso sobre a cabeça de José, sobre o alto da cabeça daquele que é consagrado entre seus irmãos. Ele é o seu touro primogênito; ele tem majestade; e os seus chifres são chifres de búfalo; com eles ele fere todos os povos, todas as extremidades da terra de vez. Tais são as miríades de Efraim, e tais são os milhares de Manassés" (Dt 33,13-17).
Vincula-se este trecho ao constante de Gn 49,22,
cuja tradução não é pacífica e é
cheia de controvérsias. Atualmente a "Edition Intégrale TOB,
1978", rompe com uma vertente "tradicional" de interpretação
e o traduz:
"Joseph est un jeune taureau, un jeune taureau près d'une source..." que se pode traduzir para o português por - "José é um bezerro, um bezerro junto de uma fonte..." (Gn 49,22).
A controvérsia que se observa existir nas traduções
deste trecho vem exatamente do fato de se desconhecer ou se desprezar a
instituição da primogenitura, não se levando em conta
a sua influência no meio social de então. Pela "Traduction
OEcuménique de la Bible" identifica-se por isso mesmo e com facilidade
José com a "consagração" e com o "touro primogênito",
ou com o "touro consagrado", advindo então da estreita relação
entre a tribo de José com o sacerdócio e é de se deduzir
que o "bezerro" é uma representação de "Elohim"
o nome de Deus para a tribo de Efraim. Ora, pelo fato de Moisés
ser da tribo de Levi, os levitas vieram em socorro de Iahweh, que
se pretendeu impor com exclusividade ao povo israelita e dominou a pretensa
sedição formada. Apesar de ter ela sido excluída da
primogenitura pelo próprio Jacó (Gn
49,5-7) seria premiada por isso com o Sacerdócio Pleno por
meio da consagração da Casa de Aarão (Ex
29,1-46) e com o Sacerdócio Auxiliar pela substituição
dos primogênitos por eles, os levitas (Nm
3,5-51 e 8,5-26). As rivalidades já existentes favorecem
a união de Levi com Judá, contra Efraim, em virtude da preferência
de Jacó por José desde os tempos passados, tal como o Profeta
Isaías registra:
"Também cessará o ciúme de Efraim, e os adversários de Judá serão eliminados; Efraim não terá mais ciúme de Judá e Judá não será mais o adversário de Efraim" (Is 11,13).
As frases "cessará o ciúme" e "não será mais adversário" caracterizam a existência de sentimentos hostis muito enraizados, não transitórios. Quando se estudar a origem do Reino do Norte, desligando-se de Judá (1Rs 12), ver-se-á ainda fervilhante tais antagonismos tribais, confirmando o que se demonstra aqui. Algo que foi fruto de dor culturalmente sentida e mergulhada no âmago do sentimento tribal, no seu orgulho, que não pode ter outra origem que a luta pelo direito da primogenitura, tal como ocorrera entre Jacó e Esaú, vai prosseguir na História de Israel, até mesmo na revolta de Absalão, que vai aproveitar a divergência levantando essas tribos tradicionalmente descontentes, contra seu pai Davi, da tribo de Judá (2 Sm 15-19).
Finalizando é de se dizer que não é possível concordar com o episódio do Bezerro de Ouro, tal como vem narrado em Ex 32, após tal teofania ou manifestação sensível de Deus ocorrida no Sinai (Ex 19,16-25), de tão vigorosas expressões dinâmicas do poder divino ao então recém-formado Povo de Deus. É simplesmente inacreditável. Após tão violenta manifestação "do meio do fogo" não é crível que se seguisse uma idolatria, tão colorida de aspectos gentílicos, mais apropriada aos outros povos cuja cultura religiosa o povo israelita rejeitara até mesmo no Egito. Nem mesmo é crível que após ratificar a Aliança de Yahweh com Abraão (Ex 24,1-8), viesse a violá-la com uma imagem esculpida de "outro deus" (Ex 20,4-5), o mesmo que "pronunciou o Decálogo" (Ex 20,1). Isto sem falar nos demais episódios que convenceram os Israelitas a deixarem uma vida já acomodada "comendo as cebolas e carnes no Egito" para se aventurarem em uma vida nômade num deserto desconhecido para eles, sem falar nos prodígios presenciados, na morte dos primogênitos do Egito com a poupança dos de Israel, no Maná, nos Codornizes e na Passagem do Mar Vermelho. Esses motivos concorreram para não fugirem e voltarem ao Faraó que os teria recebido com a satisfação de colorido bem econômico, recuperando a "mão de obra" servil e barata que perdera (Ex 14,5).
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