Qualquer que seja a posição tomada em face do acontecimento
do Bezerro de Ouro, idolatria ou sedição, ferindo substancialmente
a fidelidade e a unidade tribais, agora corporificadas em torno de um só
nome de Deus, mortos os insurretos, outro caminho não se poderia
trilhar que a ratificação dos termos da Aliança, agora
exclusivamente com Iahweh. Porém, o que não se pode desprezar
são as conseqüências do acontecimento em Moisés,
que sofre em virtude de ver o seu ideal frustrado, lutando para permanecer-lhe
fiel. Assim transparece confusamente em todo o relato, colorido com muita
privacidade e disfarce proposital das muitas dificuldades em sua alma,
até que encontra o caminho que o equilibra de novo, o que acata
por lhe significar a vontade de Deus (Ex 34,1-23).
Tira de tudo algumas conclusões e amadurece mais ainda para o encargo
e missão de levar todo o Povo de Israel à Terra Prometida
aos Patriarcas, os seus antepassados Abraão, Isaac, Jacó
e José. Tudo isso vem disposto após a ocorrência desastrosa
de maneira bem confusa e mesclada muitas vezes de colóquios muito
íntimos e pessoais que denotam uma indecisão causada. Nesse
estado de alma, a primeira conclusão a que chega é a da fidelidade
de Deus:
"O Senhor falou a Moisés e lhe disse: "Vamos! sai daqui, com o povo que fizeste sair do Egito, para a terra que prometi a Abraão, a Isaac e a Jacó, dizendo: ‘Eu a darei à tua descendência’. Enviarei na tua frente um anjo, para expulsar os cananeus, os amorreus, os hititas, os fereseus, os heveus e os jebuseus. Sobe para a terra onde corre leite e mel. Mas eu não subirei contigo, porque és um povo de cabeça dura; do contrário acabaria contigo no caminho". Ao ouvir esta ameaça, o povo pôs-se de luto e ninguém mais usou enfeites. É que o Senhor tinha dito a Moisés: "Dize aos israelitas: Sois um povo de cabeça dura; se por um instante subisse convosco, eu vos aniquilaria. Despojai-vos, pois, dos enfeites, e eu saberei o que fazer convosco". Os israelitas despojaram-se dos enfeites ao partir do monte Horeb" (Ex 33,1-6).
"O Senhor falou a Moisés e lhe disse: "Vamos! sai daqui,
com o povo que fizeste sair do Egito, para a terra que prometi a Abraão,
a Isaac e a Jacó, dizendo: ‘Eu a darei à tua descendência’.
Enviarei na tua frente um anjo..." - Deus permanecerá sempre fiel
à Promessa e à Aliança com os Patriarcas mesmo com
a ocorrência da infidelidade de "um povo de cabeça dura",
a quem se impõe uma nova demonstração de arrependimento
no abandono dos ornamentos que desde o Egito ainda usavam. Não compreende
tal serenidade de Iahweh e, até que serenassem os ânimos e
ressentimentos, Moisés ergueu o "tabernáculo" fora do acampamento
dos Israelitas a que deu o nome de "Tenda da Reunião":
"Moisés pegou a tenda e montou-a fora, a certa distância do acampamento, e deu-lhe o nome de tenda de reunião. Assim todo aquele que ia consultar o Senhor , saía para a tenda de reunião que estava fora do acampamento. Quando Moisés se dirigia à tenda, o povo todo se levantava e ficava de pé à porta da própria tenda, seguindo Moisés com os olhos até este entrar na tenda. Depois que Moisés entrava na tenda, a coluna de nuvens baixava, ficando parada à entrada da tenda, enquanto o Senhor falava com Moisés. Ao ver a coluna de nuvens parada à entrada da tenda, todo o povo se levantava e cada um se prostrava à entrada da própria tenda. O Senhor falava frente a frente com Moisés, como alguém que fala com seu amigo. Depois Moisés voltava para o acampamento. Mas seu ajudante, o jovem Josué filho de Nun, não se afastava do interior da tenda" (Ex 33,7-11).
Claro está que foi uma instalação provisória
onde o povo poderia "consultar o Senhor" e onde principalmente Moisés
o fazia "entrando nela enquanto uma nuvem baixava até a entrada
e dela o Senhor falava com ele, frente a frente", mantendo-se Josué
no interior dela, numa espécie de prontidão. Numa dessas
consultas quis Moisés, no estado de ânimo em que se encontrava,
ainda atordoado pela sedição ocorrida, "conhecer quais os
desígnios de Deus" que não reagira:
"Moisés disse
ao Senhor: "Ora, tu me dizes: ‘Faze subir este povo’; mas não
me indicaste ninguém para me ajudar na missão. No entanto
me disseste: ‘Eu te conheço pelo nome e tu mesmo gozas do meu favor’.
Se é, pois, verdade que gozo de teu favor, faze-me conhecer teus
caminhos, para que te conheça e assim goze de teu favor. Considera
que esta nação é o teu povo". O Senhor respondeu-lhe:
"Eu irei pessoalmente e te darei descanso". Moisés respondeu-lhe:
"Se não vens pessoalmente, não nos faças subir deste
lugar. Do contrário, como se saberia que eu e teu povo gozamos de
teu favor, senão pelo fato de caminhares conosco? Assim, eu e teu
povo, seremos distinguidos de todos os povos que vivem sobre a terra".
O Senhor disse a Moisés: "Farei também isto que pediste,
pois gozas de meu favor, e eu te conheço pelo nome" (Ex
33,12-17).
"Moisés disse ao Senhor: "Ora, tu me dizes: ‘Faze subir este
povo’; mas não me indicaste ninguém para me ajudar na missão"
- isso não poderia ser afirmado em estado de normalidade mental,
após Iahweh lhe haver dito que "enviaria na tua frente um anjo..."
(Ex 33,2). E é até natural que
Moisés esteja assim atordoado e confuso, eis que estava no Monte
Sinai em êxtase ou em contemplação recebendo os detalhes
do Santuário a ser erguido para Iahweh, quando explode o ato de
sedição ou idólatra ("faze subir este povo, mas não
me indicaste ninguém para me ajudar na missão; se é
verdade que gozo de teu favor faze-me conhecer teus caminhos..."). Nada
mais irreal e contrariando todos os fatos havidos desde que foi vocacionado
no episódio da Sarça ardente, em que Deus claramente lhe
mostrara todos os seus desígnios e em que Moisés depositara
tanta fé. O diálogo parece ser somente mental de Moisés
que o continua até que se recompõe, reconhecendo os desígnios
de Deus se realizando inexoravelmente, e desejoso de penetrar mais ainda
no mistério da natureza e divindade pede para "conhecer teus caminhos"
e "a tua glória", mas recebe só o que Deus lhe pode dar:
"Moisés disse:
"Mostra-me a tua glória!" E o Senhor respondeu: "Farei passar
diante de ti toda a minha bondade e proclamarei meu nome, 'Iahweh', na
tua presença, pois favoreço a quem quero favorecer, e uso
de misericórdia com quem quero usar de misericórdia". E acrescentou:
"Não poderás ver minha face, porque ninguém me pode
ver e permanecer vivo". O Senhor disse: "Aí está o
lugar perto de mim! Tu estarás sobre a rocha. Quando a minha glória
passar, eu te porei na fenda da rocha e te cobrirei com a mão enquanto
passo. Quando eu retirar a mão, verás as minhas costas. Minha
face, porém, não se pode ver" (Ex
33,19-23).
Isto é, Moisés não quer mais "falar com Deus face
a face", estando Deus na forma da nuvem (Ex 33,9-11),
nem na forma de um fogo devorador (Ex 16,7.10; 24,16.17),
mas sem mistérios e intermediários, em que não pode
ser atendido ("verás as minhas costas, minha face não se
pode ver"), o Homem não pode "ver Deus e permanecer vivo", mas o
que se pode dEle ver ser-lhe-á mostrado em toda a sua justiça
e imparcialidade:
"Farei passar diante de ti toda a minha bondade e proclamarei meu nome, 'Iahweh', na tua presença, pois favoreço a quem quero favorecer, e uso de misericórdia com quem quero usar de misericórdia" (Ex 33,19).
O que um homem pode ver da glória de Deus, até mesmo Moisés,
que "lhe falava face a face" (Ex 33,9-11)
é só o efeito de Sua Passagem ("verás as minhas costas;
minha face, porém, não se pode ver"), significado em "toda
a minha bondade com o que proclamarei meu nome, 'Iahweh', na tua presença".
Confirma-o como o Seu Enviado, sempre e livremente, sem que ninguém
O manipule, "pois favoreço a quem quero favorecer, e usa de misericórdia
com quem quer usar de misericórdia", a misericórdia que usou
com os Israelitas no episódio não os punindo com pensava
que deveria ter feito. Pelo menos é assim que São Paulo vai
aplicar este trecho:
"Que diremos pois? Haverá injustiça em Deus? De modo algum. Porque disse a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia. Terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão. Desta forma a escolha não depende de quem a quer nem de quem corre, mas da misericórdia de Deus. Por isso diz a Escritura ao Faraó: Precisamente para isso te suscitei, para mostrar em ti o meu poder e para dar a conhecer meu nome a toda a terra. Assim Deus tem misericórdia de quem quer e é duro para quem quer" (Rm 9,14-18).
Assim é que nesse sofrimento Moisés teve o seu quinhão
de penitência e recebe também a incumbência de "cortar
duas tábuas de pedra iguais à primeiras" para que Deus escrevesse
nelas o mesmo Decálogo das anteriores (Dt
10,3-4), e subiu sozinho o Monte levando-as. Novamente em retiro
e contemplação no Monte Sinai, Moisés vai conhecer
atributos de Deus, crescendo cada vez mais:
"O Senhor desceu na nuvem, parou junto dele e proclamou o nome do Senhor. Enquanto o Senhor passava diante dele, exclamou: "Senhor, Senhor! Deus compassivo e clemente, paciente, rico em misericórdia e fiel. Ele conserva a bondade por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa impunes, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos até a terceira e quarta geração" (Ex 34,5-7).
" Deus compassivo e clemente, paciente, rico em misericórdia e fiel"
- são os atributos de Deus que Moisés passa a "conhecer",
fruto de sua vivência nos últimos acontecimentos a que alia
aquela mesma proporção entre a misericórdia e os possíveis
castigos de sua inflexível justiça, quando a quiser aplicar,
ou seja, na relação de mil para três ou quatro. Ao
que se percebe Moisés lutava também com o receio de que a
atitude do Bezerro de Ouro, que lhe soava como um ato por demais pecaminoso,
trouxesse um rompimento da Aliança:
"Imediatamente Moisés curvou-se até o chão e prostrou-se em adoração. Depois disse: "Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, que o Senhor caminhe no meio de nós, porque esse é um povo de cabeça dura. Perdoa-nos as culpas e os pecados, e recebe-nos como propriedade tua" (Ex 34,8-9).
E Iahweh ratifica a Aliança, apesar de tudo o que acontecera. Assim
é a misericórdia inflexível e justa do Deus que dirige
a História e não se sujeita às contingências
humanas, confirma a Missão de Israel com a difusão de Seu
Nome e tanto corresponde como atende a esperança de Moisés
que temia o abandono:
"O Senhor respondeu: "Olha, eu vou fazer uma aliança! Diante de todo o teu povo farei prodígios como nunca se fizeram em nenhum país ou nação, para que todos os povos que te cercam vejam como são terríveis as obras do Senhor , que estou para fazer contigo. (...) O Senhor disse a Moisés: "Escreve estas palavras, pois baseado nelas faço aliança contigo e com Israel". Moisés ficou ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água, e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos da Lei" (Ex 34,10-28).
Deus não muda, é sempre o mesmo. Apesar de tudo, as determinações
a que se sujeitarão os Israelitas se equiparam às anteriores
e são como se fossem uma repetição resumida delas,
qual seja a mesma exigência de fidelidade à Iahweh mantendo-se
a mesma Missão de Israel de erradicar o culto pagão:
"Guarda bem o que hoje te ordeno. Eu expulsarei da tua frente os amorreus, os cananeus, os hititas, os fereseus, os heveus e os jebuseus. Guarda-te de fazer aliança com os habitantes do país que invadirás, para que não se tornem uma armadilha. Ao contrário derrubareis os altares, quebrareis as estelas e cortareis os troncos sagrados. Porque não deverás adorar nenhum outro Deus, pois o Senhor se diz ciumento e de fato é. Não faças aliança com os habitantes do país! Senão, quando se prostituírem com os deuses e lhes oferecerem sacrifícios, eles te convidariam e tu comerias dos seus sacrifícios; tomarias suas filhas para casarem com teus filhos, e quando elas se prostituíssem com seus deuses, levariam também teus filhos a se prostituírem com eles. Não farás para ti deuses de metal fundido" (Ex 34,11-17).
Também a fidelidade aos princípios concernentes à
celebração e manutenção do culto, à
entrega das oferendas, "não se apresentando nunca no santuário
de mãos vazias", e às datas das comemorações
religiosas, aos sábados, aos primogênitos etc., prescrições
essas que são ratificações das já anteriores
(Ex 23,12.15.16.17.18.19.23-33; 20,4.5.23; 22,28-29):
"Guardarás a festa dos ázimos. Durante sete dias comerás pão sem fermento, como te mandei, no tempo marcado do mês das Espigas. Pois foi no mês das Espigas que saíste do Egito. Todo primogênito é meu: todos os primogênitos machos de teu rebanho, das vacas e ovelhas. Resgatarás o primogênito do jumento, com uma ovelha; se não o resgatares, deverás quebrar-lhe a nuca. Resgatarás o primogênito de teus filhos. Não te apresentarás diante de mim de mãos vazias. Durante seis dias trabalharás e no sétimo descansarás, tanto na época do plantio como na da colheita. Celebrarás a festa das Semanas no início da colheita do trigo, e a festa da Colheita no fim do ano. Três vezes por ano todos os homens deverão comparecer diante do Senhor, o Senhor Deus de Israel. Eu expulsarei diante de ti as nações e dilatarei tuas fronteiras; assim ninguém cobiçará a tua terra enquanto estiveres subindo, três vezes por ano, para te apresentares diante do Senhor teu Deus. Não oferecerás o sangue de minhas vítimas com pão fermentado. O sacrifício da festa da Páscoa não deve sobrar para o dia seguinte. 26 Levarás à casa do Senhor teu Deus, o melhor dos primeiros frutos do teu solo. Não cozinharás um cabrito no leite de sua mãe" (Ex 34,18-26).
Iahweh - Deus é quem agora vai escrever os Dez Mandamentos nas tábuas
de pedra lavradas por Moisés (Ex 34,1 / Dt
10,3-5, não como sugere 34,27-28).
O que Moisés escreve são as demais prescrições.
Essas tábuas irão para a Arca da Aliança. Moisés
ao descer do Monte com as Tábuas da Lei nas mãos irá
"brilhar / lançar raios de seu rosto" a ponto de amedrontar os Israelitas,
motivo que o leva a "cobrir o rosto que apresentava a semelhança
de trazer chifres resplandecentes na cabeça", tal como constava
da Vulgata de São Jerônimo (Ex 34,29-35).
Tanto o "brilho" como os "chifres" traduzem a união com Iahweh,
tal como a significação de estar representado em Moisés
o Poder e a Glória de Deus fortalecendo a posição
de seu eleito apesar da insurreição havida:
"Quando Moisés desceu da montanha do Sinai, trazendo na mão as duas tábuas da aliança, não sabia que a pele de sua face resplandecia (lançava de si uns raios) por ter falado com o Senhor. Aarão e os israelitas todos, ao verem como resplandecia (ou "lançava de si os raios") a face de Moisés, tiveram medo de aproximar-se. Então Moisés os chamou, e Aarão com os chefes da comunidade voltaram-se, e ele lhes falou. Depois aproximaram-se os demais israelitas, e Moisés lhes transmitiu todas as ordens que o Senhor lhe tinha dado no monte Sinai. Quando Moisés acabou de falar, pôs um véu sobre o rosto. Quando Moisés se apresentava ao Senhor para falar, retirava o véu, até sair; depois saía e dizia aos israelitas o que lhe tinha sido mandado. Os israelitas viam a face radiante (ou "que lançava de si uns raios") de Moisés, e Moisés tornava depois a cobrir o rosto com o véu, até ir falar de novo com o Senhor" (Ex 34,29-35).
São Paulo irá se referir a esse fato quando analisar a causa
da incredulidade dos judeus quanto à messianidade de Jesus Cristo,
vinculando-a como condição para se compreender as Escrituras:
"Tal é a confiança que temos em Deus por Cristo. Não que por própria força sejamos capazes de pensar alguma coisa como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos capacitou como ministros da nova aliança, não da letra mas do Espírito. Pois a letra mata e o espírito dá vida. Pois, se o ministério da morte, gravado em letras de pedra, se revestiu de tal glória que os israelitas não podiam fixar os olhos no rosto de Moisés, por causa do esplendor de sua face, que era transitório, como não será de maior glória o ministério do Espírito? Se o ministério da condenação já foi glorioso, muito mais o ultrapassará em glória o ministério da justiça. E, em verdade, o que foi glorioso de modo parcial, deixa de o ser, comparado com esta outra glória eminente. Porque, se o transitório foi glorioso, muito mais o será o que permanece. De posse de tal esperança, procedemos com plena franqueza. Não fazemos como Moisés, que cobria o rosto com um véu para que os israelitas não vissem o fim da glória que se desvanecia. Em conseqüência, a inteligência deles permaneceu obscurecida. Ainda agora, quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permanece cerrado, porque só em Cristo é que deve ser aberto. Por isso até o dia de hoje, quando lêem Moisés um véu lhes cobre o coração. Tal véu só lhes será tirado quando se converterem ao Senhor. O Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor, há liberdade. Todos nós, de face descoberta, refletimos a glória do Senhor, como um espelho, e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais gloriosa, pela ação do Senhor, que é Espírito" (2Cor 3-18).
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