A envergadura dos homens que compõem a História da Salvação
é respeitável por demais. As personalidades até agora
vistas, começando com Abraão, passando por Isaac e pelo vigor
de um manso Jacó, com a inflexível obstinação
comum por Deus, vão ecoar num José do Egito e agora vêm
explodir num Moisés. A luta que travaram contra tudo e contra todos,
sozinhos e perseguidos as mais das vezes, e as suas vitórias à
sombra da proteção de Deus, que lhes abonou o vigor e a tenacidade,
deu-lhes como resposta à fé que nEle depositaram a capacidade
de suportar tudo sem esmorecer. Fibra invejável, santidade indiscutível
e fé inabalável. Creram e, tal como creram, viveram. Eram
já a expressão prévia do próprio Povo a que
dariam origem, os seus descendentes que compartilhariam a mesma obstinação,
até mesmo quando aqui e acolá muitas vezes fossem julgados
"um povo de dura cerviz" (Ex 32,9.22; 33,3; 34,9).
Mas essa "dureza" tinha as mais das vezes duas alternativas ou dois gumes
uma vez que se manifestava também pela unicidade de fé e
fidelidade a Iahweh, até mesmo quando postas à prova em simples
lances de desprendimento material:
"Moisés falou a toda a comunidade dos israelitas e lhes disse: "Foi isto o que o Senhor mandou: Fazei entre vós uma coleta para o Senhor . Quem for generoso levará uma oferenda ao Senhor: ouro, prata, bronze, púrpura violácea, vermelha e carmesim, linho fino, crinas de cabra, peles (...) Todos os artesãos habilidosos venham para executar tudo o que o Senhor mandou: a morada com a tenda e a cobertura, as argolas, (...); o altar dos holocaustos, com a grelha de bronze, os varais e todos os utensílios; a bacia e (...), as vestes litúrgicas para o sacerdote Aarão, e as vestes dos filhos para as funções sacerdotais". Então toda a comunidade dos israelitas se retirou da presença de Moisés. Em seguida vieram todos cujo coração os movia, e cujo ânimo os impelia, trazendo ofertas ao Senhor para as obras da tenda de reunião, para o culto em geral, e para as vestes litúrgicas. Vieram homens e mulheres, e todos generosamente traziam broches, brincos, anéis, colares e toda sorte de objetos de ouro, que cada um apresentava como oferta ao Senhor. Todos quantos tinham consigo púrpura (...) Os que desejavam fazer ofertas de prata ou de bronze, trouxeram-nas ao Senhor . O mesmo fizeram os que tinham madeira de acácia para as várias obras da construção. Todas as mulheres que tinham habilidade para a tecelagem, teceram e trouxeram os tecidos: a púrpura violácea, vermelha e carmesim, e o linho fino. Todas as mulheres bem dispostas e dotadas para tanto, teceram crinas de cabra. Os chefes do povo trouxeram pedras de ônix e pedras de engaste para o efod e o peitoral, os perfumes e o azeite para o candelabro, para o óleo de unção e para o incenso aromático. Todos os israelitas, homens e mulheres, dispostos a contribuir para as obras que o Senhor tinha mandado executar por meio de Moisés, trouxeram ao Senhor contribuições espontâneas..." (Ex 35,4-35).
A generosidade com que se apresentaram os Israelitas das várias
especialidades evidencia a sua fidelidade "obstinada" a Iahweh, mostrando
também que a atitude tomada com o Bezerro de Ouro não pode
ter sido um ato de absoluta rebeldia e rejeição a Deus, mas
uma sedição de colorido cultural de projeção
apenas "política". Essa generosidade foi tamanha que exigiu um pedido
de interrupção das oferendas para o Santuário:
"...Mas cada manhã o povo continuava trazendo a Moisés ofertas espontâneas, de modo que os artífices que faziam as obras do santuário deixaram o trabalho e vieram dizer a Moisés: "O povo traz muito mais que o necessário para executar a construção que o Senhor mandou fazer". Então Moisés mandou que se publicasse no acampamento a seguinte ordem: "Ninguém mais, nem homem nem mulher, promova campanhas para a coleta do santuário". E o povo deixou de trazer ofertas. O material já era suficiente para todos os trabalhos que se deviam executar, e até sobrava" (Ex 36,3-7).
Assim é que começam os trabalhos conforme projetados e apresentados
por Moisés, findo o seu retorno ao retiro contemplativo, descrevendo-os
na ordem cronológica de sua apresentação. A começar
com as cortinas do Tabernáculo (Ex 36,8-19
/ Ex 26,1-13), a coberta de peles e as tábuas (Ex
36,20-34 / Ex 26,14-30), o Véu e as colunas (Ex
36,35-38 / Ex 26,31-37), a Arca da Aliança (Ex
37,1-5 / Ex 25,10-16), o Propiciatório e os Dois Querubins
(Ex 37,6-9 / Ex 25,17-22), a Mesa e seus utensílios
(Ex 37,10-16 / Ex 25,23-30), o Candelabro
de ouro puro (Ex 37,17-24 / 25,31-40), o Altar
do Incenso (Ex 37,25-28 / Ex 30,1-10), o Óleo
Sagrado da Unção e o Incenso Santo (Ex
37,29 / Ex 30,22-38), o Altar dos Holocaustos (Ex
38,1-7 / Ex 27,1-8), a Bacia de Bronze (Ex
38,8 / Ex 30,17-21), o Átrio (Ex 38,9-20
/ Ex 27,9-19), completando a Obra do Santuário com um Inventário
final do material gasto e finalmente as Vestes e os Paramentos dos Sacerdotes
(Ex 39,1-31 / Ex 28,1-43). Apresentou-se toda
a Obra a Moisés que a determinara (Ex 39,32-43
/ Ex 35,10-19):
" Os israelitas executaram todos os trabalhos exatamente como o Senhor tinha ordenado a Moisés. Moisés examinou toda a construção e viu que a fizeram exatamente como o Senhor tinha mandado a Moisés, e os abençoou" (Ex 39,42-43).
Esta última frase nos faz lembrar outra que tem a mesma conotação
de se atingir determinada finalidade a que toda a obra se destinava:
" Moisés examinou toda a construção e viu que a fizeram exatamente como o Senhor tinha mandado" (Ex 39,42).
Tudo o que de material era necessário para a construção
do Santuário, Tabernáculo ou "Habitação do
Senhor" estava pronto e foi por Moisés entregue a Iahweh, que determina
a sua ereção, consumando a Obra:
"O Senhor falou a Moisés, dizendo: "No primeiro dia do primeiro mês levantarás a morada, a tenda de reunião. Porás ali a arca da aliança, e a cobrirás com o véu. Introduzirás a mesa, e a deixarás posta; levarás o candelabro, e colocarás as lâmpadas; porás o altar de ouro para o incenso diante da arca da aliança, e pendurarás a cortina na entrada da morada. Porás o altar dos holocaustos diante da entrada da morada, da tenda de reunião. Colocarás a bacia entre a tenda de reunião e o altar, e porás água; disporás o átrio em torno, e porás a cortina na entrada do átrio" (Ex 40,1-7).
Porém, a parte material apenas não basta, falta a parte principal,
o objetivo de toda a Obra: - prepará-la para atingir a Santificação
pela comunhão com Iahweh, organizando-se o Sacrifício. É
o que vem a seguir:
"Pegarás o óleo de unção, ungirás a morada e tudo o que nela estiver, consagrando-a assim com todos os pertences, e ela será santa. Ungirás o altar dos holocaustos e todos os utensílios, consagrando assim para que seja santíssimo. Ungirás a bacia com a base, para consagrá-la" (Ex 40,9-11).
Bom será repetir o significado dessa Unção com o Óleo
Sagrado, a "consagração do que for tocado por ele para que
seja santíssimo", incluindo então o Sacerdócio para
o qual foi "separado" "Aarão e seus filhos":
"Farás disto um óleo para a unção sagrada, uma mistura de especiarias preparada segundo a arte da perfumaria. Será este o óleo para a unção sagrada. Ungirás a tenda de reunião, a arca da aliança, a mesa com todos os apetrechos, o candelabro com os utensílios, o altar do incenso, o altar dos holocaustos com os utensílios, bem como a bacia com o suporte. Assim os consagrarás e serão santíssimos; tudo o que os tocar será santo. Ungirás também Aarão e os filhos, consagrando-os para me servirem como sacerdotes" (Ex 30,25-30).
Agora atinge-se o ponto central de toda a Obra, a investidura dos sacerdotes,
sem os quais não há sacrifício (Hb
8,3) e nada do que se fez poderia levar à comunhão
com Deus pela Santidade ensejada:
"Mandarás Aarão e seus filhos aproximar-se da entrada da tenda de reunião e os lavarás com água. Depois revestirás Aarão com as vestes litúrgicas, e o ungirás consagrando-o para que me sirva como sacerdote. Farás os filhos aproximar-se e, depois de revesti-los com as túnicas, os ungirás como ungiste o pai, para que me sirvam como sacerdotes. Esta unção conferir-lhes-á o sacerdócio perpétuo por todas as gerações" (Ex 40,12-15).
"...revestirás Aarão com as vestes litúrgicas,
e o ungirás consagrando-o para que me sirva como sacerdote; e, farás
os filhos aproximar-se e, depois de revesti-los com as túnicas,
os ungirás para que me sirvam como sacerdotes. Esta
unção conferir-lhes-á o sacerdócio perpétuo
por todas as gerações" - após o que o narrador
afirma o término da Obra da Habitação, qual seja,
a "montagem" de todo o Tabernáculo, juntando-se uma a uma as peças
e dispondo os móveis e os utensílios nos respectivos locais
planejados, tudo feito a partir de Moisés:
"No dia primeiro do primeiro mês do segundo ano, foi erigida a morada. Moisés levantou a morada, colocou as bases e as tábuas, assentou as travessas e ergueu as colunas. Estendeu a tenda sobre a morada e pôs por cima a cobertura da tenda, como o Senhor lhe havia mandado. Pegou o documento da aliança e o colocou dentro da arca, meteu os varais na arca e pôs por cima dela o propiciatório. Introduziu a arca na morada e pendurou o véu de proteção, ocultando a arca da aliança, como o Senhor tinha mandado a Moisés. Depois instalou na tenda de reunião a mesa, no flanco norte da morada, do lado de fora do véu; e arrumou sobre ela os pães consagrados ao Senhor , assim como o Senhor tinha mandado a Moisés. Pôs o candelabro na tenda de reunião, defronte da mesa, no flanco sul da morada. Em cima acendeu as lâmpadas diante do Senhor , assim como o Senhor havia mandado a Moisés. Colocou o altar de ouro na tenda de reunião, diante do véu, e queimou o incenso aromático, assim como o Senhor havia mandado a Moisés. Pendurou a cortina na entrada da morada" (Ex 40,17-28).
"Pegarás o óleo de unção, ungirás
a morada e tudo o que nela estiver, consagrando-a assim com todos os pertences,
e ela será santa. Ungirás o altar dos holocaustos e todos
os utensílios, consagrando assim para que seja santíssimo.
Ungirás a bacia com a base, para consagrá-la" (Ex
40,9-11) - "Moisés executou tudo exatamente como o Senhor
lhe havia ordenado" (Ex 40,16) - Isto feito,
tendo "ungido" toda "a morada e tudo o que nela estava" (Ex
40,9), Moisés inaugura e oficializa o culto, com um holocausto
e a oblação que oferece:
"Diante da entrada da morada, da tenda de reunião, colocou o altar dos holocaustos, e ofereceu o holocausto e a oblação, assim como Senhor tinha mandado a Moisés. Instalou a bacia entre a tenda de reunião e o altar, e pôs a água para as abluções, onde Moisés, Aarão e os filhos lavavam as mãos e os pés. Lavavam-se toda vez que entravam na tenda de reunião e se aproximavam do altar, assim como o Senhor havia mandado a Moisés. Levantou o átrio em torno da morada e do altar, e pendurou a cortina na entrada do átrio. Assim Moisés deu por concluída a obra" (Ex 40,20-33).
"Assim Moisés deu por concluída a obra" (Ex
40,33) e tão logo isso sucede, Iahweh se manifesta
e se exterioriza na "nuvem" (Ex 13,21-22)
e toma posse do santuário:
"Então a nuvem envolveu a tenda de reunião, e a glória do Senhor tomou conta da morada. Moisés não podia entrar na tenda de reunião, porque sobre ela repousava a nuvem, e a glória do Senhor ocupava a morada. Em todas as etapas da viagem os israelitas punham-se em movimento sempre que a nuvem se elevava de cima da morada; nunca partiam antes que a nuvem se levantasse. De fato, a nuvem do Senhor ficava durante o dia sobre a morada, e durante a noite havia um fogo visível a todos os israelitas, ao longo de todas as etapas da viagem" (Ex 40,16-38).
Nuvem (Ex 13,21-22; 24,15-18 / Nm 9,15-23) que conduzirá o Povo de Deus à Terra Prometida - mais uma etapa completada no desígnio de Deus reconduzindo o Homem para o lugar dele no Paraíso, estabelecidos os princípios básicos do Culto a Iahweh. Este Culto vai já desaguar no Sacrifício, o Centro Gravitacional desde os Patriarcas, "figura" do definitivo de Jesus Cristo, cujo cerimonial Eucarístico nas Igrejas Orientais, Anglicana e Católica, e em outras denominações Cristãs, é ainda cercado e ornamentado de paramentos, de utensílios e até mesmo de rituais aqui inspirados. Sem o seu conhecimento não se vai entendê-los "parecendo" tudo uma encenação fora de época e sem sentido. Principalmente pelo desconhecimento do Sacrifício, que será objeto principal e tema central do Livro que estudar-se-á em seguida.
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