NÚMEROS
Primeira Parte
Os últimos dias do Sinai
5.8. - A PÁSCOA NO SINAI E A PARTIDA PARA A CONQUISTA Tal como antes da saída do Egito celebra-se então a Páscoa, no momento antes da partida para a Conquista da Terra Prometida: Assim, da mesma forma que antes da saída do Egito e após a Páscoa (Ex 12) se dá a consagração dos primogênitos (Ex 13), também, aqui e agora, com a celebração da Páscoa (Nm 9,1-3 - no primeiro mês do segundo ano) se dá a consagração dos levitas (Nm 8,5-26 - em lugar dos primogênitos, após o recenseamento no segundo mês), repetindo-se o ritual da instituição. No curso da narrativa surgem alguns casos fortuitos que exigiram de Moisés a regulamentação de maneira geral e previsível para aplicação atual e futura, demandando dele a habitual "consulta a Iahweh". É o caso da celebração dela pelo impuro por contato com um morto, ou por causa do contato profano de longa viagem, ou ainda pelos forasteiros: O que se percebe é a importância da Páscoa na vida do Povo de Israel a ponto de ser condição indispensável a sua celebração para a permanência em seu meio social e comunitário. A responsabilidade pelas conseqüências do descumprimento dela é de cada violador que em si mesmo "carrega a pena do seu pecado", não podendo nada reivindicar em termos da Aliança contraída com Abraão. Principalmente tendo até mesmo sido criada uma segunda oportunidade para cumpri-la ocorrendo qualquer impedimento legal. Terminada a comemoração da Páscoa impunha-se a partida para a Conquista da Terra Prometida, tal como se preparara. Antes, era ainda necessário completar a estrutura e organização com os sinais de comando a que se submeteriam durante o trajeto. Principalmente porque essa conquista não era obra estritamente humana, mas partia unicamente de Iahweh que a comandaria, qual seja, desde o Éden Deus é o único autor da Salvação do Homem, ali se iniciando em figura. Para se caracterizar isso, repete-se aqui o narrado quando do término da ereção do Tabernáculo, ou do Santuário:
"À ordem de Iahweh se acampavam, e à ordem de Iahweh partiam; cumpriam o mandado de Iahweh, que ele lhes dera por intermédio de Moisés" - a repetição com mais detalhes neste ponto da narrativa do que já havia sido narrado em Êxodo tem como objetivo caracterizar o fato de que Iahweh é quem comandava a Tropa Israelita pela movimentação da nuvem ou do fogo. O caminho a ser seguido será determinado por Iahweh diretamente a Moisés. Além dessa nuvem e do fogo também se introduz o uso das trombetas destinadas não só ao comando, mas a ser um memorial para Iahweh tanto na batalha como no culto: Pelo tipo do toque sabia-se em todo o acampamento a ordem a seguir e a causa, pelo que se preparava e era mantida a disciplina. Separou-se o toque para a luta, para levantar acampamento e para o culto, conforme determinado por Iahweh, que se "lembrava" e a todos amparava e dirigia. Para o Israelita, o termo memorial, lembrança ou memória, quando é a "recordação" de Deus, sempre se traduz em uma atitude dinâmica, as mais das vezes, libertadora e vinculada inseparavelmente à Aliança: Essa significação, que vincula a ação de Iahweh-Deus em favor de seu Povo, é conhecida e dela participam até mesmo na sua época os primeiros cristãos: Essa vinculação de Deus pela memória a um compromisso que tenha contraído, - a Aliança, por exemplo, - é ainda repetida em vários e outros trechos da Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento: "Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, ..." (...) "...; para fazer misericórdia com nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada, do juramento que fez ao nosso pai Abraão..." (Lc 1,54.72s). "E ouvi o gemido dos filhos de Israel, aos quais os egípcios escravizavam, e me lembrei da minha aliança. Portando, dirás aos filhos de Israel: Eu sou Iahweh, e vos farei sair debaixo das cargas do Egito, vos libertarei da sua servidão... Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus" (Ex 6,5-7). Iahweh "se lembrou" da Aliança e libertou os Filhos de Israel. Não é outro sentido que Jesus quis dar quando usou a mesma terminologia na Instituição da Eucaristia: Pode-se então compreender que o memorial da Eucaristia tem essas conotações, a começar por aquela que reflete a libertação do Egito e, agora, a da escravidão do pecado, como um ato de extremo amor do Filho Unigênito do Pai. Antes, com o sangue "derramado" nos portais dos israelitas e, agora, com o "sangue derramado em favor de muitos", "cumprindo" (Mt 5,17) assim a Nova Aliança. Esse memorial é a repetição da Morte de Cristo na Cruz, pois "a proclama até que ele venha" (não se pode proclamar o que não acontece) e "aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor", e ainda "aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação" (1Cor 11,26-28). Não se trata, portanto, de uma simples lembrança do gesto de Jesus entregando-se à morte, "e morte de Cruz" (Flp 1,8), mas da presença real do Corpo e do Sangue de Jesus, separados antecipadamente como na Cruz, pela imolação. Também, "derramado" o sangue, tal como no cerimonial da Páscoa Judaica; agora, porém, no ritual da Páscoa Cristã, no altar da Mesa da Cerimônia Eucarística, tal como na Cruz, "em favor de muitos". Não fora assim seria impossível ser "réu do corpo e do sangue do Senhor", ou "comer e beber a própria condenação". O "fazei-o em memória de mim" e o "anunciais a morte do Senhor até que Ele venha" formam uma unidade de expressão, consubstanciada no binômio "fazei-o / anunciais". Traduz ela assim a ocorrência de profunda igualdade, anunciada pelo próprio Jesus, com a Sua Morte antes da sua Crucifixão e até mesmo antecipando-A, e ao mesmo tempo instituindo o sacerdócio cristão, para torná-LA "presente" com a cerimônia "até que ele venha". Além do sentido escatológico, tal como aconteceu na instituição da Páscoa Israelita, pelo memorial, a Ceia Eucarística "exala um perfume de suave odor para Deus" (Ex 29,18). Assim, pode-se até mesmo concluir que o uso do toque das trombetas também torna "presente" o vínculo unitivo de Israel com Iahweh, "pelo memorial" da Aliança e os seus compromissos de fidelidade, formando desde já "...um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19,6) com o objetivo da Conquista da Terra Prometida, cumprindo a Promessa a Abrão: "Ali Iahweh apareceu a Abrão e disse-lhe: 'Eu darei esta terra a tua descendência'" (Gn 12,7). |
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Haddad - Página criada em 18/05/99
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