NÚMEROS
Segunda Parte
Do Sinai às planícies de Moab
| 5.11. PREPARANDO-SE PARA A VIDA NA TERRA
PROMETIDA Abruptamente, e apesar dessas situações contrárias à fé que se manifestaram, novas perspectivas se apresentam como indispensáveis ao culto, que ainda não haviam sido regulamentadas. Foram o fruto de uma maior experiência da vida no deserto ou em virtude de se buscar um aperfeiçoamento a vigorar desde então (Nm 15,23). Quando se diz "...porque não estava determinado o que se devia fazer..." (Nm 15,34): - apresenta-se uma dessas novas situações que demandaram regulamentação. Por isso Moisés traça normas para perdurar até mesmo quando se fixassem na Terra Prometida, ao lhes repetir "...quando entrardes na terra onde habitareis...", mais de uma vez: Incorpora-se então ao texto um ritual dos sacrifícios, em que libações sobre a vítima complementavam o cerimonial, com o "suave perfume a Iahweh", principalmente com a libação do vinho (Nm 15,7; 1Sm 1,24; 10,3; Os 9,4). Não se confundem com as Oblações nem se trata de um acréscimo à legislação específica (Lv 2), cuidando-se apenas de se perfumar o holocausto ou o sacrifício pacífico (Lv 1 e 3), cujo uso já se implantara (Lv 6,14; 23,18.37; 24,5-9). Essa "figura do suave odor de um sacrifício" será usada por São Paulo, como realizada em Jesus e nos seus discípulos: "Mas, ainda que eu seja derramado como libação sobre o sacrifício e vítima da vossa fé, alegro-me e me regozijo com todos vós; alegrai vos também e regozijai-vos comigo" ( Fp 2,17-18)"Quanto a mim, já estou para ser derramado como libação e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé" ( 2Tm 4,6-7).Como uma seqüência e um complemento dos rituais existentes, apresenta-se uma outra oferenda a Iahweh, a que obrigar-se-ia o Povo de Israel na Terra Prometida. Narra-se então e em seguida a Instituição das Primícias da Farinha ou da Massa, para a Santificação de todos os Pães: Essas Primícias da Primeira Massa, só aqui mencionadas, pertencem aos Sacerdotes como ofertas a Iahweh (cfr. Nm 18,8-32). Todas as Primícias e os Primogênitos, desde o Sinai (Ex 23,19; 34,26; Dt 26,1-3), deveriam ser igualmente entregues, e de acordo com o ritual estabelecido: Também, com base na fecundidade das primícias ofertadas, "que anunciam uma farta e plena colheita", São Paulo vai se basear para demonstrar que toda a dinâmica da redenção humana partiu da Eleição de Israel. Tal acontecimento é a garantia de que o seu retorno e conversão será fonte da manifestação das enormes graças reservadas para o mundo todo, como remate da História da Salvação: "...até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando... a redenção do nosso corpo" ( Rm 8,22-23)"...Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que dormem. Porque, assim como por um homem veio a morte, por um homem veio a ressurreição dos mortos" ( 1Cor 15,19-21)."Se as primícias são santas, a massa também o será; e se a raiz é santa, também os ramos o são" - essa é norma do efeito da Consagração das Primícias da Massa que se praticava. Assim como ela propiciava a santificação de todo o pão, assim também, a Santificação de Israel vai num crescendo atingir todo o gênero humano, em Cristo - "primícias dos que dormem". Em outras palavras, "à santificação da parte corresponde a santificação do todo" isto é, quando se santifica uma parte, se santifica o todo. Conforme essa perspectiva de que a santificação da parte promove a santificação do todo, são fixadas também normas variadas concernentes aos sacrifícios em geral. Resultam em aperfeiçoamento deles (Nm 15,22-36 / Lv 4,13-5,13), para maior santificação da comunidade e de cada um: Assim, nos termos da Aliança há uma solidariedade comunitária entre todos e cada um, pelo que todos respondem quando é violada pela comunidade por ignorância, tema já abordado (Lv 4,13-5,13). Não acontece o mesmo quando a falta for cometida "de mão erguida" ou de maneira deliberada, quando então "será exterminado do meio de seu povo", falta que não se traduz na responsabilidade de todos e de cada um, "pois a sua culpa cairá nele mesmo" (Nm 15,30-31). Há sempre a necessidade do ritual de expiação pelo Sacerdote (Nm 15,25.28), para o perdão da falta cometida, tanto pelos Israelitas como pelo estrangeiro que habite entre eles. A punição do violador do sábado demonstra a continuidade da vigência do respeito ao descanso sagrado, mesmo com a conquista e apesar das sedições. Evidencia também a participação da comunidade na responsabilidade da violação, eis que ela mesma vai lapidar o infrator, atestando assim a sua desaprovação e uma séria repulsa ao ato profanador (Nm 15,32-36). O que mais ainda se evidencia com esse reforço da santificação do Sábado é a superação da apostasia e a pacificação de todos em torno de Iahweh. Esses fatos inspiraram a colocação de franjas violetas nas pontas dos mantos, como lembrança ou memorial dos preceitos de fidelidade e santificação dos compromissos da Aliança. É usado ainda pelos judeus, e o foi pelo próprio Cristo onde a hemorroíssa tocou e foi curada (Mt 9,20 / Lc 8,44) e pelos fariseus sem as disposições correspondentes do íntimo de si mesmos, pelo que Jesus os admoestava (Mt 23,5): Apesar de tudo, Moisés e Aarão nada mais conseguem que pacificar temporariamente algumas sedições. Aquela revolta intestina que se aninhava no âmago da Tribo dos Filhos de Jacó, permanecia ativa, e causa outra, agora somente contra Moisés e Aarão. Encontrou importante apoio em elementos da mesma Tribo de Levi (Nm 16,1), ambicionando o Sacerdócio Ungido. Amparavam-se na desculpa de que todos haviam sido santificados, eram então santos (Nm 15,40-41), e pertenciam à mesma assembléia ou congregação. Alegavam que não havia nenhum motivo para a presunção de Moisés e Aarão em assumir os principais cargos: Não se consegue uma explicação para o evento de maneira plena e convincente a não ser no quadro das competições familiares em busca da hegemonia hereditária, seja na chefia, seja no sacerdócio. É de se lembrar da Bênção de Jacó (Gn 49), quando destituiu de ambas as possibilidades tanto Rúben como Levi, entregando a primogenitura a José e profetizando a chefia para Judá (Gn 49,2-10.22-26), como já se demonstrou alhures. Tanto Rúben como Levi foram destronados do direito da primogenitura pelos motivos que Jacó menciona. Tal direito, após todos os acontecimentos com a sua família, Jacó concede a José no Egito (Gn 49,22-26). E, ao adotar os dois filhos dele (Gn 48,5-6), o reconhece como primogênito e lhe destina a dupla porção de herança (Dt 21,17). Pelo domínio da insurreição do Bezerro de Ouro a Tribo de Levi reconquista pela força e politicamente a posição, e passa ao Sacerdócio (Ex 32,29). Moisés mantém a paz tribal com habilidade, destinando Josué, da casa de José, à sua sucessão e levando-o assim à chefia que cabia à Tribo de Efraim, à qual pertencia.. Só pode ser por isso que agora Rúben se insurge (Nm 16,1), juntamente com os demais das outras tribos. Também, por causa dos privilégios outorgados à Casa de Aarão, com o Sacerdócio Pleno, protestam agora os caatitas contra os aaronitas. A mesma rixa familiar ainda fermenta, e assim prosseguirá, manifestando-se aqui e acolá. Assim, no reinado de Davi, Absalão, seu filho, vai encontrar apoio nessas tribos, na sua sedição contra o pai (cfr. 2Sm 15-16 / 2Sm 19,41-44). Essa insurreição permanecerá latente, até explodir definitivamente na Separação do Reino do Norte (Israel) do Reino do Sul (Judá) (1Rs 12,20-33). Agora, insurgem-se contra a chefia de Moisés e o Sacerdócio de Moisés e Aarão, pelos privilégios com que se distinguiram, como se a si o fizessem presunçosamente. "Quando Moisés ouviu isso, caiu com o rosto em terra" (Nm 16,4 / 14,5) - pela injúria da afirmativa, prostra-se em desagravo a Iahweh, o principal Autor da nomeação de ambos. Imediatamente comunica o que fará Iahweh, ratificando ambas as nomeações. Essa divulgação antecipada, prova que não se nomearam a si mesmos, bem como comprova o grau de intimidade e convivência pessoal que havia entre Iahweh e Moisés: Pelas suas próprias palavras se demonstra que os rubenitas apregoavam o retorno ao Egito, pois recusam Moisés em virtude de levá-los a "...subir de uma terra que mana leite e mel para nos matar no deserto e ainda fazer-te príncipe sobre nós". Também pelo fato de acusarem Moisés de não os introduzir "...em uma terra que mana leite e mel, nem nos deste campos e vinhas em herança", no mesmo diapasão das revoltas anteriores (Nm 11 - 14) Deles deve ter sido a principal responsabilidade e autoria da apostasia, tudo indica isso, principalmente a punição que receberam (Nm 16,31-33): A rixa familiar aparece na ira e nas expressões de defesa usadas por Moisés ao dizer que "nem um só asno tomei deles nem fiz mal a nenhum deles". E, novamente Moisés recebe de Iahweh a confirmação da sua preeminência, e de novo intercede pela congregação, ainda que insuflada por aqueles homens. Consegue que apenas os rebeldes sejam alvo das punições, poupando-se a comunidade. Narram-se duas punições: uma a de Coré e Abiram e seus homens (Nm 16,31-33), e a outra dos demais homens que portaram os incensórios (Nm 16,17-18.35): Moisés, confiante, vai com os anciãos ao encontro dos rebeldes que se recusaram a comparecer a sua presença. Também, alerta o povo do que irá acontecer e aconselha-o a afastar-se para não ser atingido (Nm 16,24-27). Então, "...a terra que estava debaixo deles se fendeu; e a terra abriu a boca e os tragou" e "...e desceram vivos ao Xeol". "Xeol" - assim é conhecido o mundo subterrâneo aonde iam os mortos conforme a cultura religiosa de então, recebendo o nome de "mansão dos mortos", como no Símbolo dos Apóstolos. Confirmava-se, dessa maneira insólita e prodigiosa, a autoridade de Moisés e a de Aarão. Também, afastam-se os perigos da apostasia, que novamente se manifesta pelo anseio de retorno ao Egito e o desprezo da terra que se lhes apresenta. Os Israelitas, tomados pelo pânico, fogem "receosos de que a terra oS tragasse" sucumbindo concomitantemente pelo "fogo de Iahweh", que "consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso" (Nm 16,34-35). O bronze dos incensórios deles fora então laminado e revestiu o Altar, por ter sido santificado pela aproximação. Passa a ser um "memorial" para os Israelitas, lembrando-os para sempre de que nenhum estranho, não descendente de Aarão, se aproxima impunemente "para queimar incenso" a Iahweh (Nm 17,1-5). Obstinadamente se recusam a ver e quiseram responsabilizar Moisés e Aarão pelo acontecimento, acusando-os de terem "matado o Povo de Israel" (Nm 17,6). Nova sublevação contra ambos, pelo que "a glória de Iahweh se manifesta" em proteção deles: Vê-se que o Santuário e seus rituais e os Sacerdotes para isso Ungidos recebem de Iahweh uma proteção inexorável, determinando ainda um flagelo (Nm 17,11) que demandou de Aarão oferecer a "expiação pelo povo". Mesmo assim causa o perecimento de "catorze mil e seiscentas pessoas sem contar os que acompanharam Coré" (Nm 17,6-15). Após tantos infortúnios, revoltas e apostasias, torna-se indispensável algum sinal ou fato sensível do próprio Iahweh, que tivesse o condão de impor definitivamente o Sacerdócio de Aarão: Com este prodígio do florescimento em condições impossíveis, do cajado de Aarão, todo abalo causado era recuperado. Tanto a liderança de Moisés e Aarão como o Sacerdócio exclusivo e perene de Aarão. Também, em virtude do "...fogo de Iahweh, que consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso" e das outras várias manifestações diretas de Iahweh em defesa do Santuário, amedrontaram-se: Termina a rebeldia com o reconhecimento de todos da Glória de Iahweh, cujo temor se impõe e até mesmo os ameaça, pela culpa de que tomaram consciência. O temor de Iahweh tem essa conotação de constatar a diferença de santidade e de pequenez que a natureza humana evidencia, ao se comparar, pelo que mais se acentua um medo de perder a Sua presença e proteção, e teme-se o abandono. Iahweh vem em socorro deles e manda que Moisés "torne a colocar a vara de Aarão perante o testemunho, para mantê-la como sinal..." Sinal dos direitos da Tribo de Levi e da Família de Aarão quanto ao Exercício Perene do Sacerdócio Israelita, para todos aqueles que tivessem dificuldades em admiti-lo e confiar, bem como para aqueles que o contestassem. São Paulo vai registrar esse fato, reconhecendo-se assim a eficácia do Sacerdócio de Aarão ainda no tempo dos primórdios: |
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