Quinta Parte
5.28. O Terceiro Discurso - A Integração Plena e Definitiva da Aliança (Dt 27,1-30,20) Nesse momento da entrada na Terra Prometida (Dt 28,69), insere-se, abruptamente e sem conexão lógica, uma espécie de tomada de consciência do principal objetivo da estruturação do Povo de Iahweh (Ex 23,20-23). A Aliança é firmada de maneira definitiva, exclusiva e perene, como um compromisso solene irrevogável, corroborando e prosseguindo a Consagração feita por Abraão e pelos demais Patriarcas a Iahweh, livremente ratificada por Israel no Sinai (Ex 24,1-8). Cumprindo uma das derradeiras instruções recebidas (Dt 11,29-32), Moisés convoca os Anciãos e o Povo. E, juntos, Moisés e Anciãos, fazem uma Advertência Solene (Dt 27,1-8), fato inédito, pois somente Moisés dirigia a Israel as ordens de Iahweh. Em virtude da repetição (Dt 11,29-32) e do cumprimento delas por Josué (Js 8,30-35), deduz-se a sua importância, incorporação e sedimentação para sempre à Terra de Iahweh. Este fato é destacado pela simbologia das pedras e dos montes onde são transcritas e disposta as Leis da Aliança. Trazem em seu âmago o desate da experiência das infidelidades, manifestadas no episódio do Bezerro de Ouro (Dt 9,7-10,5) e outras sedições (Dt 9,22-29 / 11,6 etc.), optando-se definitivamente pela Aliança Eterna com Iahweh. Uma comparação mostra a origem, o desenvolvimento, a finalidade e o cerimonial do ato, notando-se sem esforço que a Exortação contém uma liturgia consecratória:
Terminada a apresentação inicial (Dt 26,16-19), Moisés, com os Sacerdotes Levitas (Dt 27,9-10), falam aos Israelitas, corroborando assim a Lei, o Sacrifício e a conduta ou o comportamento como expressões do Amor a Iahweh, em cumprimento da Aliança. Assinala-se assim a ratificação da "eleição" dos Filhos de Jacó para se tornarem o Povo de Iahweh, fazendo então jus à Bênção, pela fidelidade e obediência, e sujeitando-se à Maldição, quando agissem em contrário. A Bênção é um ato irreversível, e uma vez pronunciada desencadeia a sua realidade viva, concreta e dinâmica, e ninguém poderá impedir sua concretização (Gn 27,33-40). A Bênção é a manifestação de todas as potencialidades naturais, com as quais o ser criado se exprime na plenitude com que Iahweh o dotou, enquanto que a Maldição é o seu contrário, qual seja, a esterilidade delas por ter sido traída e rompida a Aliança. A felicidade, a tranqüilidade e a segurança pessoal e comunitária, no território conquistado, vai se condicionar à comunhão única e exclusiva com Iahweh, expressa na conduta e comportamento (Dt 11,26-28). Após a entrada na Terra Prometida, "passado o Jordão" (Dt 27,12), três atos litúrgicos serão praticados, dois dos quais, concomitantes, em que as doze tribos proclamam Bênçãos e Maldições. Dividir-se-ão em dois grupos: um, para a Bênção do Monte Garizin, ao norte, constituído por seis das oito tribos dos descendentes diretos de Lia (quatro filhos: "Simeão, Levi, Judá, Issacar") e Raquel (dois filhos: "José e Benjamim"); e, outro, para a Maldição do Monte Ebal, ao Sul, constituído pelos demais filhos de Jacó com os demais filhos de Lia ("Rúben", degradado pelo motivo já conhecido, e "Zabulon") e suas concubinas (dois de Zelfa: "Gad e Aser"; e, dois de Bala: "Dan e Neftali"), abrangendo assim toda a nação: "9 Falou mais Moisés, juntamente com os sacerdotes levitas, a todo o Israel, dizendo: Silêncio, e ouve, ó Israel! Hoje, te tornaste o povo de Iahweh, teu Deus.10 Portanto, obedecerás à voz de Iahweh, teu Deus, e lhe cumprirás os mandamentos e os estatutos que hoje te ordeno.11 Moisés deu ordem, naquele dia, ao povo, dizendo:12 Quando houveres passado o Jordão, estarão sobre o monte Garizin, para abençoar o povo, estes: Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim.13 E estes, para amaldiçoar, estarão sobre o monte Ebal: Rúben, Gad, Aser, Zabulon, Dã e Neftali." (Dt 27,9-13) E, o terceiro ato, desenvolvido pelos levitas, por causa sacralidade de que se reveste o ritual, apresenta doze Maldições (Dt 27,14-26) aparentemente isoladas. Porém, tudo indica que se identificam e ressoam com as Bênçãos prometidas ao término do Código da Aliança (Ex 23,20-33 / Dt 28,69), com a especificação da Missão de Israel. Iniciando-se com a condenação da idolatria, decorrem de conduta condenada e imprópria ao Israelita, impossibilitando a comunhão com Iahweh. Assim, pela perda de Santidade e pelos efeitos sociais, comunitários e religiosos especificados, causam danos irreparáveis à integridade da Aliança. Comprometem-na pela prática danosa: - de atos contra Iahweh (Dt 27,15 / Ex 20,4,23; 34,17 / Lv 19,4; 26,1); contra os pais (Dt 27,16 / Ex 20,12; 21,17 / Lv 20,9 / Dt 5,16; 21,18-21 / Mc 7,9-13); contra os deveres de justiça quanto ao próximo (Dt 27,17-19; 19,14 / Lv 19,14 / Ex 22,21.22.26 / Lv 19,33-34 / Dt 19,29; 24,17); de atos de luxúria (Dt 27,20-23; 22,30 / Ex 22,18 / Lv 18,8; 20,11.17); e, de condenação à morte por suborno (Ex 20,13; 21,12; 23,8 / Lv 24,17 / Dt 16,9). O "Amém" da resposta traduz a irrevogabilidade do compromisso bilateral, pessoal e comunitário, reconhecendo-se a eficácia inexorável da advertência (Ne 5,13 / 1R 1,36 / Jr 28,6) : "14 Os levitas proclamarão a todos os homens de Israel em alta voz e dirão:15 Maldito o homem que fizer imagem de escultura ou de fundição, abominável a Iahweh, obra de artífice, e a puser em lugar oculto. E todo o povo responderá: Amém!16 Maldito aquele que desprezar a seu pai ou a sua mãe. E todo o povo dirá: Amém!17 Maldito aquele que mudar os marcos do seu próximo. E todo o povo dirá: Amém!18 Maldito aquele que fizer o cego errar o caminho. E todo o povo dirá: Amém!19 Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém!20 Maldito aquele que se deitar com a madrasta, porquanto profanaria o leito de seu pai. E todo o povo dirá: Amém!21 Maldito aquele que se ajuntar com animal. E todo o povo dirá: Amém!22 Maldito aquele que se deitar com sua irmã, filha de seu pai ou filha de sua mãe. E todo o povo dirá: Amém!23 Maldito aquele que se deitar com sua sogra. E todo o povo dirá: Amém!24 Maldito aquele que ferir o seu próximo em oculto. E todo o povo dirá: Amém!25 Maldito aquele que aceitar suborno para matar pessoa inocente. E todo o povo dirá: Amém!26 Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém!" (Dt 27,14-26). Esse cerimonial da Consagração da Terra Prometida a Iahweh, será integralmente cumprido por Josué, tão logo se atravesse o Jordão. Josué, então, "...leu todas as palavras da lei, a bênção e a maldição, segundo tudo o que está escrito no Livro da Lei..." - fato que leva a melhor entender o caráter normativo do cerimonial praticado, já que seria impossível, em um só momento, Abençoar e Amaldiçoar (cfr.: Js 8,30-35). Tal como na conclusão da Aliança no Sinai, também a conclusão plena e definitiva em Moab (Ex 23,20-33 / Lv 26,14-41 / Dt 28,69), traz uma série bem exemplificada das Bênçãos (Dt 28,1-14) e Maldições (Dt 28,15-68) advindas em função da fidelidade à Aliança (Dt 28,1-2): |
5.28.1 - As Maldições Na Quebra da Aliança (Dt 28,47-69) Antes do remate da Aliança do Sinai, em Moab (Dt 28,69), as Bênçãos e as Maldições descreveram uma série de advertências quanto à infidelidade a Iahweh no cumprimento da Lei e dos Mandamentos. Abruptamente a redação se altera e percebe-se uma modificação no objetivo, que se distingue do que se vinha apresentando, principalmente, pelo estilo bem mais grave. É que, passa a evidenciar os efeitos reais e maléficos de uma possível quebra da Aliança, como se já estivesse em execução, descrevendo as condições em que se debaterão os Israelitas, ocorrido o inevitável domínio de outros povos, pela traição a Iahweh. Tal como no final da descrição das maldições anteriores (Dt 27,15-26), aqui também o término tem a mesma conotação, com a mesma conseqüência embutida no teor de toda a cominação (Dt 28,14). Não se submetendo, só restará a Israel ser dominado por outros povos mais fortes, exposto que ficará materialmente ao poder deles. Isto por ficar desprovido de Iahweh, que o libertou do Egito e o amoldou para se tornar um Povo Santo, preparando-o durante os quarenta anos de peregrinação e tribulações no deserto. Durante todo esse tempo e em todas as adversidades a Glória de Iahweh se manifestou, mantendo-lhes a unidade de povo consagrado, unido pela conduta e pelo culto em torno do Santuário, onde "habitava entre eles":
Principalmente pela ruína que se abaterá no país dominado por bárbaros sem piedade de ninguém, consumindo todo o gado, toda a colheita, aqueles bens de uso alimentar do Israelita. Cairá na penúria, no flagelo da fome generalizada, a ponto dos pais matarem os filhos menores ou recém nascidos, servindo-se deles como o próprio sustento. Mesmo assim, por mais bondosos que teriam sido quando fiéis a Iahweh, agora se deixarão dominar pelo instinto de sobrevivência e não se deixarão comover pela fome do próximo, nem mesmo pela dos seus familiares. Quando se atinge a condição de imolar o próprio filho, indefeso e ainda amamentando ou ainda em tenra idade, já não se possui nenhuma humanidade ou amor a quem quer que seja, reduzidos praticamente à barbárie: "51 Ela comerá o fruto dos teus animais e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará cereal, mosto, nem azeite, nem as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, até que te haja consumido.52 Sitiar-te-á em todas as tuas cidades, até que venham a cair, em toda a tua terra, os altos e fortes muros em que confiavas; e te sitiará em todas as tuas cidades, em toda a terra que Iahweh, teu Deus, te deu.53 Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der Iahweh, teu Deus, na angústia e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.54 O mais mimoso dos homens e o mais delicado do teu meio será mesquinho para com seu irmão, e para com a mulher do seu amor, e para com os demais de seus filhos que ainda lhe restarem;55 de sorte que não dará a nenhum deles da carne de seus filhos, que ele comer; porquanto nada lhe ficou de resto na angústia e no aperto com que o teu inimigo te apertará em todas as tuas cidades.56 A mais mimosa das mulheres e a mais delicada do teu meio, que de mimo e delicadeza não tentaria pôr a planta do pé sobre a terra, será mesquinha para com o marido de seu amor, e para com seu filho, e para com sua filha;57 mesquinha da placenta que lhe saiu dentre os pés e dos filhos que tiver, porque os comerá às escondidas pela falta de tudo, na angústia e no aperto com que o teu inimigo te apertará nas tuas cidades." (Dt 28,52-57) Israel não tendo cumprido sua parte na Aliança, traindo-a e ocasionando o rompimento, causará pelo seu afastamento de Iahweh e por esse desprezo, o retorno à situação anterior ao socorro que lhe prestou. Voltará à opressão do Egito, em condições até mesmo bem piores, reduzido à idolatria e adoração ou culto aos falsos deuses de pedra e madeira, sujeitando-se ao flagelo, à peste e às pragas. Deixará de ser um povo numeroso, para se tornar um punhado de pessoas sem rumo, sem personalidade, sem brio e covarde, sujeitando-se à ignominiosa idolatria e escravidão, sem segurança e tranqüilidade: "58 Se não tiveres cuidado de guardar todas as palavras desta lei, escritas neste livro, para temeres este nome glorioso e terrível, Iahweh, teu Deus,59 então, Iahweh fará terríveis as tuas pragas e as pragas de tua descendência, grandes e duradouras pragas, e enfermidades graves e duradouras;60 fará voltar contra ti todas as moléstias do Egito, que temeste; e se apegarão a ti.61 Também Iahweh fará vir sobre ti toda enfermidade e toda praga que não estão escritas no livro desta Lei, até que sejas destruído.62 Ficareis poucos em número, vós que éreis como as estrelas dos céus em multidão, porque não destes ouvidos à voz de Iahweh, vosso Deus.63 Assim como Iahweh se alegrava em vós outros, em fazer-vos bem e multiplicar-vos, da mesma sorte Iahweh se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir; sereis desarraigados da terra à qual passais para possuí-la.64 Iahweh vos espalhará entre todos os povos, de uma até à outra extremidade da terra. Servirás ali a outros deuses que não conheceste, nem tu, nem teus pais; servirás à madeira e à pedra.65 Nem ainda entre estas nações descansarás, nem a planta de teu pé terá repouso, porquanto Iahweh ali te dará coração tremente, olhos mortiços e desmaio de alma.66 A tua vida estará suspensa como por um fio diante de ti; terás pavor de noite e de dia e não crerás na tua vida.67 Pela manhã dirás: Ah! Quem me dera ver a noite! E, à noitinha, dirás: Ah! Quem me dera ver a manhã! Isso pelo pavor que sentirás no coração e pelo espetáculo que terás diante dos olhos.68 Iahweh te fará voltar ao Egito em navios, pelo caminho de que te disse: Nunca jamais o verás; sereis ali oferecidos para venda como escravos e escravas aos vossos inimigos, mas não haverá quem vos compre." (Dt 28,51-68). Este será o clima de insegurança e intranqüilidade que se abaterá sobre Israel, tal como Moisés adverte solenemente, antes de selar definitivamente a Aliança, após as sedições e antes de tomar posse da terra: "São estas as palavras da aliança que Iahweh ordenou a Moisés fizesse com os filhos de Israel na terra de Moab, além da aliança que fizera com eles em Horeb." (Dt 28,69). |
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