Domingo, 17 de fevereiro de 2008

II Semana da Quaresma, Ano “A” 2ª Semana do Saltério (III Volume), cor Litúrgica Roxa

 

Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto! (Sl 26, 8-9)

 

Santos do Dia: Bento de Cagliari (monge, bispo), Constábile de Cava (abade), Donato, Secundiano, Rômulo e Companheiros (mártires de Porto Gruaro, perto de Veneza), Evermodo de Ratzeburg (monge, bispo), Faustino e Companheiros (prováveis mártires de Roma), Finan de Iona (bispo), Fintano de Clonenagh (abade), Habet-Deus de Luna (bispo, mártir), Lomano de Trim (bispo), Policrônio (bispo, mártir da Babilônia) , Silvino de Auchy (monge, bispo), Teódulo e Juliano de Cesaréia (mártires), Francisco Régis Clet (mártir da China, bem-aventurado), Frowin de Bellevaux (abade, bem-aventurado), Lucas Belludi (franciscano, bem-aventurado), William Richardson (mártir, bem-aventurado)

 

Oração do Dia: Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Gênesis (Gn 12, 1-4a)

Vocação de Abraão, pai do povo de Deus

 

1Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. 2Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção. 3Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!”. 4aE Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito. Palavra do Senhor!

 

 

Salmo: 32 (33), 4-5.18-19.20.22 (R/.22)

Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação!

 

4Pois reta é a palavra do Senhor, e tudo o que ele faz merece fé. 5Deus ama o direito e a justiça, transborda em toda a terra a sua graça.


18Mas o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, e que confiam esperando em seu amor, 19para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los quando é tempo de penúria.


20No Senhor nós esperamos confiantes, porque ele é nosso auxílio e proteção! 22Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos!

 

 

II Leitura: Paulo a Timóteo (2Tm 1, 8b-10)

Deus nos chama e ilumina

 

Caríssimo, 8bsofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus. 9Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus desde toda a eternidade. 10Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do evangelho. Palavra do Senhor!

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 17, 1-9)

O seu rosto brilhou como o sol

 

Naquele tempo, 1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. 5Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”

 

6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dos mortos”. Palavra da Salvação!

 

 

 

O risco da Fé [1]

 

Revelar-nos ao outro é um ato de confiança, porque lhe da poder para intervir sobre nós; e partilhar a mesma vida como acontece na amizade, no matrimônio; é deixar que seja envolvida toda nossa existência.

 

Um homem deixa sua terra

 

A vocação de Abraão é um exemplo eficaz de resposta à proposta de Deus: por isso ele é chamado o nosso pai na fé.

 

Com Abraão, Deus retoma a iniciativa do diálogo: faz as suas pro­postas em termos acessíveis a esse homem, mas com uma exigência de totalidade. A resposta de Abraão difere inteiramente do pecado de Adão: um se distância, outro se aproxima; um quer possuir a ter­ra, outro se desapega; um desconfia da palavra de Deus, outro tem fé em suas promessas e troca a segurança do enraizamento em uma terra, de uma família, dos próprios deuses, pelo risco generoso em seguir o Deus que chama para uma terra "que lhe será indicada mais tarde". Da parte de Deus, a "maldição" destinada ao homem pecador muda-se num anúncio de "bênção" aberta a todas as nações (1ª leitura).

 

Os cristãos são chamados por uma vocação santa a seguir Cristo em sua vida de obediência a Deus, com a qual "venceu a morte e faz resplandecer a vida e a imortalidade por meio do evangelho" (2ª leitura). O "Filho bem-amado" torna os batizados semelhantes a si, associando ao seu destino de sofrimento e de glória os que ouvem com fé sua palavra.

 

Ainda hoje é proposto a todos os homens, a todo grupo eclesial, partir da sua terra e seguir a palavra que os guia, iluminando-os com a promessa - que em Cristo já é realidade - da "bênção" como plenitude de bens. Mas nada é definitivo em sua origem; quanto aos pormenores, é preciso ter criatividade, humildade, coragem, aceitar os sofrimentos, para encontrar enfim a luz e o repouso.

 

Parêntesis de luz

 

O abandono das certezas, das seguranças jamais é total. Permanece sempre, no fundo, a lembrança e a saudade da terra em que se habitava. Nos apóstolos chamados a seguir a Cristo permanece a interrogação de quem seria realmente aquele a quem ouviram e por quem abandonaram sua terra. Sua vida oculta, seu messianismo tão diferente do que esperavam deixam algo de duvidoso. Jesus toma a iniciativa e se manifesta sob outra forma que revela seu verdadeiro ser, sua majestade divina: concede aos apóstolos contemplar o fim que o espera. Assim, os discípulos podem ver que o Servo repelido e incompreendido é o Filho do homem descrito por Daniel. A condição humana, frágil e oculta, é apenas um tempo de passagem, um parêntesis. Com essa antecipação da glória de que se revestirá no momento da ressurreição, a fé dos discípulos deveria sair reanimada, confirmada (evangelho).

 

Ignoramos o que será a "cidade" futura

 

Os futurólogos nos dão imagens de um mundo que se assemelha a uma "cidade cujo crescimento demográfico é rápido, as cidades aumentam e absorvem os povoados vizinhos. Caminhamos para "a unicidade", para um novo mundo-cidade. Mas que forma deve assumir, que deve ela tornar-se para não ser um uniforme formigueiro? Nossa liberdade de construir está realmente em condições de construir?

 

Quando se propõe o problema da realização futura, as trevas caem sobre nós. Estamos diante de um devir que é muito mais obscuro do que se pode pensar; nossa fé vacila. Nossa fé não nos diz nada mais do que isto: para adotar as opções que nos permitam obter sucesso é necessário abranger­mos os dois extremos da história e podermos concentrar num instante o passado e o futuro. Esse é o risco que a fé comporta. O cristão que recebeu o batismo decide viver nesse risco. Sente a obscuridade que pesa sobre todos os homens na construção do presente, e não se assusta, não tem medo porque vê a meta, o Cristo transfigurado, e em Abraão um modelo a seguir.

 

 



[1] Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995