Domingo, 24 de fevereiro de 2008

III Semana da Quaresma, Ano “A” 3ª Semana do Saltério (III Volume), cor Litúrgica Roxa

 

Tenho os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz. (Sl 24,15-16)

 

Santos do Dia: Adélia (rainha, viúva), Betto de Auxerre (monge, bispo), Edilberto (rei), João Theristus (monge), Modesto de Trèves (bispo), Montano, Lúcio e Companheiros (mártires da África), Pretextato de Rouen (bispo, mártir), Primitiva (provável mártir de Roma), Sérgio da Capadócia (presbítero, mártir), Constâncio de Fabriano (presbítero, bem-aventurado), Ida de Hohenfels (monja, virgem, bem-aventurada), Marcos Marconi (monje, bem-aventurado), Roberto de Arbrissel (abade, bem-aventurado).

 

Oração do Dia: Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

I Leitura: Êxodo (Ex 17, 3-7)

Deus não abandonará os israelitas

 

Naqueles dias, 3o povo, sedento de água, murmurava contra Moisés e dizia: "Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?" 4Moisés clamou ao Senhor, dizendo: "Que farei por este povo? Por pouco não me apedrejam!"  5O Senhor disse a Moisés: "Passa adiante do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. 6Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber". Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. 7E deu àquele lugar o nome de Massa e Meriba, por causa da disputa dos filhos de Israel e porque tentaram o Senhor, dizendo: "O Senhor está no meio de nós ou não?" Palavra do Senhor! 

 

 

Salmo: 94(95), 1-2.6-7.8-9 (R/.8)

Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor

 

1Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos o rochedo que nos salva! 2Ao seu encontro caminhemos com louvores, e com cantos de alegria o celebremos! 

 

6Vinde adoremos e prostremo-nos por terra, e ajoelhemos ante o Deus que nos criou! 7Porque ele é o nosso Deus, nosso pastor, e nós somos o seu povo e seu rebanho, as ovelhas que conduz com sua mão. 

 

8Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: "Não fecheis os corações como em Meriba, 9como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras".

 

 

 

II Leitura: Paulo aos Romanos (Rm 5, 1-2.5-8)

O sacrifício de Cristo suplanta nossa situação de pecado

 

Irmãos, 1justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo. 2Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança  da glória de Deus. 5E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. 6Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. Palavra do Senhor! 

 

 

Evangelho: João (Jo 4, 5-42)

Uma fonte de água que jorra para a vida eterna

 

Naquele tempo, 5chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia.  

 

7Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber". 8Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. 9A mulher samaritana disse então a Jesus: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?" De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu-lhe Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva". 11A mulher disse a Jesus: "Senhor; nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? 12Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?" 13Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 14Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna". 15A mulher disse a Jesus: "Senhor; dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la". 16Disse-lhe Jesus: "Vai chamar teu marido e volta aqui". 17A mulher respondeu: "Eu não tenho marido". Jesus disse: "Disseste bem, que não tens marido, 18pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade". 19A mulher disse a Jesus: "Senhor; vejo que és um profeta! 20Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar". 21Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher; está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. 23Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai e procura. 24Deus espírito aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade". 25A mulher disse a Jesus: "Sei que o messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier; vai nos fazer conhecer todas as coisas". 26Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo". 

 

27Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: "Que desejas?" ou: "Por que falas com ela?" 28Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: 29"vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?" 30O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. 31Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: "Mestre, come". 32Jesus, porém, disse-lhes: "Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis". 33Os discípulos comentavam entre si: "Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?" 34Disse-lhes Jesus: "O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. 35Não dizeis vós: 'Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!' Pois eu vos digo: Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! 36O ceifeiro já está recebendo o salário, e recolhe fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. 37Pois é verdade o provérbio que diz: 'Um é o que semeia e outro o que colhe'. 38Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles".  

 

39Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: "Ele me disse tudo o que eu fiz". 40Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. 41E muitos outros creram por causa da sua palavra. 42E disseram à mulher: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós  mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo". Palavra da Salvação!

 

 

Cristo, água para nossa sede [1]

 

O tema da água que salva volta com freqüência na liturgia quaresmal. A partir deste domingo, a Igreja oferece à comunidade cristã que revive seu batismo uma síntese da história da salvação, servindo-se do rico simbolismo da água. 

 

A água tem sua linguagem  

Necessária para a existência de todos os seres vivos, a água é um elemento "natural" que nos é dado, não é fruto de trabalho: a água viva de uma fonte exprime também o milagre  renovado da vida. Fazendo brotar água da rocha, Deus se manifesta salvador de seu povo e o põe em condições de prosseguir a viagem até a terra prometida (1ª leitura). Repensando essas maravilhas de Deus nos momentos mais obscuros e difíceis de sua história, Israel projeta para um futuro mais ou menos distante a posse de uma terra de águas abundantes, na qual o deserto se transformará em viçoso pomar. A abundância de água se torna símbolo da abundante salvação que virá unicamente de Deus: um rio que brota do templo purificará o povo, saciará sua sede, fecundará a terra.  

 

No Novo Testamento, a água exprime simbolicamente o dom do Espírito para a geração de uma humanidade nova. Cristo, sobre quem desceu o Espírito no momento do batismo, anuncia um renascimento na água e no Espírito, promete uma abundância de água-Espírito para os que crêem (evangelho). Sua pessoa se identifica, pois, com a Rocha (como observava são Paulo, recapitulando os "sinais" do deserto, 1Cor 10,4), o novo Templo, a fonte que mata a sede na vida eterna. João vê o cumprimento do sinal na hora da morte-glorificação de Jesus, quando ele "entrega o espírito" e do seu lado traspassado correm sangue e água. 

 

A água do nosso batismo 

A água do batismo pode, portanto, lavar os pecados e fazer renascer os filhos de Deus em virtude do sangue de Cristo, fonte de todo perdão. Quem confessa que Cristo é o messias, o enviado de Deus, aceita que a salvação se faça da maneira e no momento querido por Deus; compreende que sua sede profunda só é saciada pelo dom de Cristo; toma-se, para os que o cercam como a mulher samaritana-, revelador da presença que tudo transforma (evangelho). 

 

No momento do batismo, a Igreja, que através da catequese preparou a profissão de fé no Filho de Deus, recapitula em sua oração os acontecimentos salvíficos relacionados com a água e cumpre a ordem de Cristo: batizai em nome da Trindade. Assim, como gostava de repetir Agostinho, "pela união da palavra (da fé) com o elemento (água) realiza-se o sacramento", dom de Deus e livre resposta do homem. 

 

Sede de valores numa sociedade de consumo  

Encontramo-nos diante da sede de um povo no deserto, da sede de uma mulher no poço. A sede é símbolo de uma necessidade íntima, vital, torturante. Além da sede fisiológica há uma sede mais profunda em todo homem, em toda sociedade, em toda comunidade do nosso tempo: buscamos cada vez mais "coisas para sacia-la; nada nos basta, nada nos satisfaz. Nossa civilização só nos oferece "bens de consumo", não valores espirituais. Convida-nos ao oportunismo, ao mais fácil, mais seguro, mais cômodo. Os ideais de coerência, de sinceridade, de amor, que existem em todos os homens, são em geral frustrados, traídos por quem os propugna ou pelo indivíduo incapaz de resistir à pressão dos que o cercam. Todos falam do valor da colaboração, todos reconhecem que somos globalmente responsáveis pelo caminho da humanidade; no entanto, o que encontramos é insensatez, orgulho, instintos de domínio, de grandeza, inclinação para a agressividade, para um prazer ás vezes exacerbado,  incontrolado e irracional. Mas muitas vezes renunciamos, e justificamos a renúncia definindo os valores como "sonhos de adolescente". 

 

A revolta dos jovens tem sua raiz nessa sede não aplacada, nessa decepção por tudo que lhes é oferecido, tão distante das verdadeiras e profundas exigências do homem, que tem hoje maior consciência dos valores de fraternidade, justiça, amor, solidariedade. 

 

Não é a primeira vez que, no decorrer da história, o homem enfrenta desafios que põem em discussão modos de pensar e pedem soluções inéditas. Continuamente o homem faz a experiência de que aquilo que conquistou nunca é uma conquista definitiva. A técnica, as descobertas científicas não matam a sede de segurança, de esperança, de felicidade que todo homem sente. Lentamente, descobre ou tem a intuição de que só um "homem-infinito" pode dar-lhe o que busca no meio da confusão.

 

 



[1] Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995