Domingo, 26 de dezembro de 2010

Sagrada Família: Jesus, Maria e José, Ano A, Ofício de Festa, 1ª Semana do Saltério,  cor Branca

 

 

Santos: Arquelau da Mesopotâmia (bispo), Cristina de Markgate (eremita), Dionísio (papa), Marino de Roma (mártir), Tadeu de Wales (eremita), Teodoro de Roma (sacristão da Basílica de São Pedro), Zenão de Gaza (bispo), Zózimo (papa), André Dung Lac (mártir do Vietnam, bem-aventurado), Daniel de Villiers (monge, bem-aventurado), Margarida de Hohenfels (virgem, bem-aventurada), Pagano de Lecco (mártir, bem-aventurado)

 

Antífona: Vieram apressados os pastores, e encontraram Maria com José, e o Menino deitado no presépio. (Lc 2, 16)

 

Oração: Ó Deus de bondade, que nos destes a Sagrada Família como exemplo, concedei-nos imitar em nossos lares as suas virtudes, para que, unidos pelos laços do amor, possamos chegar um dia às alegrias da vossa casa. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo

 

 

 

1ª Leitura: Eclesiástico (Eclo 3, 3-7.14-17a ou Eclo 3, 2-6.12-14)

Quem teme o Senhor, honra seus pais

 

3Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe. 4Quem honra o seu pai, alcança o perdão dos pecados; evita cometê-los e será ouvido na oração quotidiana. 5Quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros. 6Quem honra o seu pai, terá alegria com seus próprios filhos; e, no dia em que orar, será atendido. 7Quem respeita o seu pai, terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe.

 

14Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive. 15Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele; não o humilhes, em nenhum dos dias de sua vida, a caridade feita a teu pai não será esquecida, 16mas servirá para reparar os teus pecados 17ae, na justiça, será para tua edificação. Palavra do Senhor!

 

 

 

Comentando a I Leitura

Experimentar Deus em família

 

 

O livro do Eclesiástico é tradução de um original hebraico, de autoria de Jesus Ben Sirac. Seu neto empreendeu a obra de tradução com o objetivo de mostrar aos judeus que moravam fora do país a riqueza da tradição do seu povo. É, portanto, um livro que ajuda a recuperar as raízes e identidade de um povo ameaçado de perder o sentido da vida. Vivendo em terra estranha, facilmente os judeus assimilavam a cultura e a ideologia do país em que estavam, perdendo de vista a herança cultural e espiritual dos antepassados, baseada na experiência de Deus em família. De fato, o Deus de Israel foi se revelando na vida das pessoas, e essa revelação passou de boca em boca, de pai para filho, desde os tempos mais antigos.


Os versículos que compõem a leitura de hoje são uma explicação de Ex 20,12: “Honre seu pai e sua mãe: de modo que você prolongará sua vida na terra que Javé seu Deus dá a você”. O mandamento está ligado à promessa de vida longa. O Eclesiástico vai mais longe, acrescentando à vida longa (v. 6) mais duas promessas: a de ver atendidas as orações (v. 5) e o perdão dos pecados (vv. 3.14).


Para quem vivia longe do Templo, lugar onde eram feitos os sacrifícios pelas culpas cometidas, há agora um horizonte novo: o perdão dos pecados acontece não por meio de um rito externo, mas de uma atitude traduzida em amor pelos pais, sobretudo quando estes se encontram em estado de carência, como a perda do uso da razão (v. 13). O texto se aproxima bastante da novidade trazida por Jesus de Nazaré, que disse: “O que eu quero é a misericórdia, e não o sacrifício” (cf. Mt 9,13) e afirmou que o Pai rejeita as ofertas sagradas que deveriam ser empregadas na preservação da vida dos pais (cf. Mc 7,8-13).


Amar, obedecer e respeitar a fonte da vida que são os pais é amar, respeitar e obedecer a Deus, origem de toda vida. Os pais reproduzem, em parte, o ser de Deus que é doação. Eles não produziram para si, mas para os outros. Os filhos, por sua vez, chegados à fase adulta da vida, são convocados a não produzir para si, mas para outros, perpetuando a vida e amparando a dos pais na velhice (v. 12). Essa proposta quebra o sistema de sociedade do consumo e do descartável, que só valoriza as pessoas enquanto capazes de produzir. [Vida Pastoral nº 269 Paulus 2009]

 

 

 

Salmo: 127(128), 1-2.3.4-5 (R/.cf 1)
Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos!

 

Feliz és tu se temes o Senhor e trilhas seus caminhos! Do trabalho de tuas mãos hás de viver, serás feliz, tudo irá bem!

 

A tua esposa é uma videira bem fecunda no coração da tua casa; os teus filhos são rebentos de oliveira ao redor de tua mesa.

 

Será assim abençoado todo homem que teme o Senhor. O Senhor te abençoe de Sião, cada dia de tua vida.

 

 

II Leitura: Colossenses (Cl 3, 12-21)

A vida da família no Senhor

 

Irmãos, 12vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, 13suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também. 14Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição. 15Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo. E sede agradecidos.

 

16Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza, habite em vós. Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria. Do fundo dos vossos corações, cantai a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais, em ação de graças. 17Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo. Por meio dele dai graças a Deus, o Pai. 18Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convêm, no Senhor. 19Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. 20Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isso é bom e correto no Senhor. 21Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

Se somos bons, nossas comunidades e famílias serão ótimas

 

Os versículos propostos como segunda leitura deste domingo são parte das conclusões que Paulo tira do fato de, pelo batismo, nos tornarmos pessoas novas. Em outras palavras, o que hoje se lê é a tentativa de traduzir na prática o que significa ressuscitar com Cristo (cf. Cl 3,1). Paulo não separa o convívio familiar da vida em comunidade. Para ele, são dois momentos de uma mesma realidade. E por isso trata das relações dentro da família e da comunidade ao mesmo tempo.


O texto de hoje se inicia mostrando a identidade cristã: “Vocês são o povo santo de Deus, escolhido e amado” (v. 12a). A seguir, especifica o que isso significa em termos de relações sociais: “Por isso, procurem revestir-se de misericórdia” (v. 12b). As virtudes que seguem esclarecem o sentido da misericórdia: ela se traduz em bondade, humildade, mansidão, tolerância, paciência e perdão (vv. 12c-13a). Paulo emprega a imagem da veste (“procurem revestir-se”) para caracterizar as novas relações e valores que ajudam a construir sociedade nova. O ponto de referência para acabar com as discriminações é a prática de Jesus, sua morte e ressurreição: “Como o Senhor lhes perdoou, façam vocês o mesmo” (v. 13b). E conclui: “Acima de tudo tenham amor, que faz a união perfeita” (v. 14). O que torna uma comunidade perfeita não é a ausência de falhas e limites em seus membros, e sim a capacidade de amar sem medidas, apesar dos limites e falhas de cada pessoa (cf. 1Pd 4,8: “O amor cobre uma multidão de pecados”). O amor gera a paz e torna as pessoas membros do mesmo corpo (v. 15a).


A seguir, Paulo mostra algumas ferramentas para que a comunidade atinja esse objetivo. A mais importante delas é a celebração da eucaristia. De fato, a expressão “sejam agradecidos” (v. 15b) recorda a celebração eucarística no modo como era celebrada pelos primeiros cristãos: a escuta da palavra de Cristo, a partilha da palavra e o louvor, feito de salmos, hinos e cânticos inspirados (v. 16).


Paulo, porém, procura alargar os espaços, fazendo a celebração eucarística incidir em qualquer atividade, palavra ou ação, para que tudo seja feito em nome do Senhor Jesus, de modo que a vida inteira se transforme em ação de graças a Deus Pai (v. 17).


Em seguida, vêm as instruções para as famílias, com recomendações para as esposas, a fim de que sejam dóceis a seus maridos (v. 18); aos maridos, para que amem suas esposas e não sejam grosseiros com elas (v. 20); aos filhos, para que obedeçam aos pais (v. 20); e aos pais, para que usem uma pedagogia capaz de encorajar, e não desanimar os filhos (v. 22). Numa sociedade que privilegiava o pai de família como único responsável pelo bom andamento das coisas, Paulo apresenta, para todos, deveres recíprocos fundados no amor, o laço da perfeição. De fato, essas instruções não privilegiam uns em prejuízo dos outros. O ponto de confronto, para todos, é o modo como o Senhor Jesus agiu em relação ao Pai e às pessoas (cf. vv. 18.20). [Vida Pastoral nº 269 Paulus 2009]

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 2, 13-15. 19-23)
Fuga para o Egito

 

13Depois que os magos partiram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo". 14José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. 15Ali ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: "Do Egito chamei o meu Filho".

 

19Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, 20e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos". 21José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, entrou na terra de Israel. 22Mas, quando soube que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galiléia, 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno".Palavra da Salvação!

 

 

Comentando o Evangelho

Família modelo para todas as famílias de hoje

 

O evangelho fala das dificuldades da família-modelo. Não importam aqui outros significados dessa fuga para o Egito; o significado que a liturgia dá à narrativa do Evangelho de Mateus é que se trata de uma família, um casal e um filho. É uma família pobre e perseguida, mas é família e é modelo.

 

O filho é o grande tesouro que essa família protege. Esse tesouro se parece com Moisés, que também escapou da matança das crianças e, mais tarde, teve também de fugir. No Evangelho de Mateus, Jesus é o novo Moisés, que dá a nova lei: a Lei de Moisés nos cinco livros do Pentateuco, as instruções de Jesus nos cinco discursos que se encontram no evangelho.

 

Jesus é o novo Jacó ou Israel, que “desceu ao Egito” com toda a sua família, ali se multiplicou e, saindo do Egito, foi se apossar da terra de Canaã. “Do Egito chamei o meu filho”, dizia o profeta Oseias, referindo-se ao êxodo dos hebreus. A palavra aplicada pelo evangelho a Jesus vai lembrar que ele será o fundador do novo Israel. Aqui, agora, “meu Filho” significa bem mais do que lembrar que Deus é o pai do povo de Israel.

 

Quando a família volta para Nazaré, o evangelista cita como passagem bíblica a frase “ele será chamado nazareno”. Os especialistas não encontram essa frase tal e qual no Primeiro Testamento. Seria uma adaptação da frase encontrada no anúncio do nascimento de Sansão: “Ele será chamado nazir”? Nazir era o consagrado a Deus que nunca tomaria bebida alcoólica nem cortaria o cabelo. Seria uma adaptação da palavra nezer, que significa rebento e, com base em Is 11,1, era vista como um título do Messias?

 

O que mais importa da leitura deste evangelho na festa de hoje é que Jesus teve uma família, uma família pobre e perseguida por causa da ameaça que o Menino representava para os poderosos do mundo. Nas situações mais adversas, essa família é modelo para todas as famílias de hoje. [Vida Pastoral nº 275 Paulus]

 

 

Família, pequena Igreja

 

As características da família descritas nos trechos do Antigo Testamento, sobre as quais se modelavam as nossas famílias patriarcais, eram: a paz, a abundância de bens materiais, a concórdia e a descendência numerosa - sinais da bênção do Senhor; a obediência e o amor eram a lei fundamental; essa obediência não era só sinal e garantia de bênção e prosperidade para os filhos, mas também um modo de honrar a Deus nos pais (I leitura). A este tipo de família o cristianismo trouxe um convite a uma contínua vitória sobre si em vista do Reino: são Paulo pede aos esposos e aos filhos cristãos que vivam a vida  familiar  como se já vivessem na família do Pai celeste (II leitura). Apresentando-nos a experiência de Cristo  que entra  no  contexto  de  uma  família  humana  concreta,  o  evangelho traça um quadro realista dos reveses e vicissitudes a que está sujeita a vida de uma família.

 

Jesus perdido e encontrado

 

Nem tudo é idílio, paz e serenidade na família: ela passa pelos sofrimentos e dificuldades do exílio e da perseguição; pelas crises do trabalho, da separação, da emigração, do afastamento dos pais.

 

Família cristã

 

O quadro da família apresentado pela Sagrada Escritura não corresponde, sob muitos aspectos, à situação da família atual, cujos problemas às vezes parecem ser não só diferentes, mas totalmente opostos.

 

Na atual revolução social, a célula familiar está particularmente em perigo. Seu direito tradicional, sua moral, sua economia, sua função são frequentemente postos em discussão.

 

Devemos convencer-nos de que a família autônoma, ambiente fechado em uma sociedade fechada, pertence a uma época sociológica passada. Só um repensar doutrinal profundo pode ajudar a família a situar-se no mundo de hoje e a construir-se a si mesma em meio às dificuldades que encontra.

 

Do ponto de vista moral, o divórcio, o espinhoso problema da limitação da natalidade e o aumento do número dos matrimônios fracassados obrigam os cristãos a retomar consciência do caráter sagrado da família cristã. No plano econômico, a crise das habitações, o trabalho da mulher fora de casa, o problema do tempo de lazer abalam a economia familiar e sacrificam essa célula essencial às exigências da sociedade técnica. No plano político, a família é felizmente ajudada pelo Estado em muitos países, mas corre o perigo de ficar a serviço do Estado, sobretudo no que concerne à primeira educação dos filhos.

 

Esses graves problemas não se podem resolver facilmente; quem ousaria lançar a pedra contra os que vêem sua família desagregar-se no plano moral, quando não é garantido um mínimo de condições econômico-sociais? O primeiro dever do cristão é, pois, lutar a fim de obter para as famílias não abastadas o necessário espaço vital. Além disso, devem os noivos ser preparados para sua tarefa educativa e para sua vida de intimidade e comunhão, a fim de que não degenere, não fracasse, não se desvirtue no divórcio.

 

Família aberta

 

Trabalho não menos necessário, no mundo atual, é o de ensinar aos membros da família cristã a viver em comunidade, aberta para as necessidades do bairro e da paróquia, disposta a colaborar com as outras comunidades mais amplas.

 

Os filhos já estão implicados em comunidades artificiais de todo gênero (cidade, colégio, profissão, sindicato...), mais sensibilizados aos problemas mundiais, a paz no mundo, o auxílio aos países subdesenvolvidos etc. Os adultos, diante do futuro do nosso mundo inquietante e cheio de riscos, tendem a assumir uma posição de medo e conservadorismo, de defesa das comunidades naturais (família" e pátria), e não sabem responder às exigências dos que vivem no plano das outras comunidades.

 

O critério supremo de vida da família deve ser procurado no exercício da caridade, que é a verdadeira fonte da unidade familiar. Este exercício só é possível se as fronteiras da família forem as do reino da fraternidade universal. A vida familiar não pode ser vivida na verdade se não for aberta a esses horizontes. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]

 

Palavra se faz oração (Missal Dominical)

·         Por todos os noivos, para que em sua busca de conhecimento e comunhão pessoal, e em sua doação recíproca, não sejam egoístas, mas caminhem juntos para um amor responsável e livre, rezemos ao Senhor: Pai, ouvi-nos!

·         Por todos os pais idosos e abandonados pelos filhos, pelos filhos desprezados e não amados, pelos casais em crise, pelos jovens revoltados e marginalizados, rezemos ao Senhor.

·         Pelas famílias dos imigrantes, dos favelados e dos desalojados, pelos órfãos vítimas da injustiça, dos acidentes de trabalho, do ódio, para que nosso acolhimento e nossa cooperação façam com que se sintam menos sós, rezemos ao Senhor.

·         Pelas crianças e os adolescentes, para que seus pais, respeitando o mistério de sua pessoa, façam-nos crescer num clima de amor, confiança e obediência à Palavra de Deus, rezemos ao Senhor.

·         (Outras intenções)

 

 

Oração sobre as Oferendas:

Nós vos oferecemos, ó Deus, este sacrifício de reconciliação e pedimos, pela intercessão da Virgem Mãe de Deus e do bem-aventurado São José, que firmeis nossas famílias na vossa graça, conservando-as na vossa paz. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

O nosso Deus foi visto nesta terra, e conviveu com os homens. (Br 3, 38)

Depois da Comunhão:

Concedei-nos, ó Pai, na vossa bondade, que, refeitos com o vosso sacramento, imitemos continuamente a Sagrada Família, e, após as dificuldades desta vida, convivamos com ela no céu. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

A família, segundo o plano de Deus, deve ser formada por um casal

Felipe Aquino, Canção Nova

O Papa João Paulo II, na Carta às Famílias, chamou a família de "Santuário da vida" (CF, 11). Santuário quer dizer "lugar sagrado". É ali que a vida humana surge como que de uma nascente sagrada, e é cultivada e formada. É missão sagrada da família: guardar, revelar e comunicar ao mundo o amor e a vida. O Concílio Vaticano II já a tinha chamado de "a Igreja doméstica" (LG, 11) na qual Deus reside, é reconhecido, amado, adorado e servido; nele também foi ensinado que: "A salvação da pessoa e da sociedade humana estão intimamente ligadas à condição feliz da comunidade conjugal e familiar" (GS, 47).

 

Jesus habita com a família cristã. A presença do Senhor nas Bodas de Caná da Galiléia significa que o Senhor "quer estar no meio da família", ajudando-a a vencer todos os seus desafios.

 

Desde que Deus desejou criar o homem e a mulher "à sua imagem e semelhança" (Gen 1,26), Ele os quis "em família". Por isso, a família é uma realidade sagrada. Jesus começou sua missão redentora da humanidade na Família de Nazaré. A primeira realidade humana que Ele quis resgatar foi a família; Ele não teve um pai natural aqui, mas quis ter um pai adotivo, quis ter uma família, e viveu nela trinta anos. Isso é muito significativo. Com a presença d’Ele na família – Ele sagrou todas as famílias.

 

Conta-nos São Lucas que após o encontro do Senhor no Templo, eles [a Sagrada Família] voltaram para Nazaré "e Ele lhes era submisso" (cf. Lc 2,51). A primeira lição que Jesus nos deixou na família é a de que os filhos devem obedecer aos pais, cumprindo bem o Quarto Mandamento da Lei. Assim se expressou o Papa João Paulo II:

 

"O Filho unigênito, consubstancial ao Pai, 'Deus de Deus, Luz da Luz', entrou na história dos homens através da família" (CF, 2).

 

Ao falar da família no plano de Deus, o Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz que ela é "vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua atividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai" (CIC, 2205).

 

"A família é a comunidade na qual, desde a infância, se podem assimilar os valores morais, em que se pode começar a honrar a Deus e a usar corretamente da liberdade. A vida em família é iniciação para a vida em sociedade" (CIC, 2207).

 

A Família de Nazaré sempre foi e sempre será o modelo para todas as famílias cristãs. Acima de tudo, vemos uma família que vive por Deus e para Deus; o seu projeto é fazer a vontade de Deus. A Sagrada Família é a escola das virtudes por meio da qual toda pessoa deve aprender e viver desde o lar.

 

Maria é a mulher submissa a Deus e a José, inteiramente a serviço do Reino de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra" (Lc 1,38). A vontade dela é a vontade de Deus; o plano dela é o plano de Deus. Viveu toda a sua vida dedicada ao Menino Deus, depois ao Filho, Redentor dos homens, e, por fim, ao serviço da Igreja, a qual o Redentor instituiu para levar a salvação a todos os homens.

 

José era o pai e esposo fiel e trabalhador, homem "justo" (Mt 1, 19), homem santo, pronto a ouvir a voz de Deus e cumpri-la sem demora. Foi o defensor do Menino e da Mãe, os tesouros maiores de Deus na Terra. Com o trabalho humilde de carpinteiro deu sustento à Família de Deus, deixando-nos a lição fundamental da importância do trabalho, qualquer que seja este. Em vez de escolher um pai letrado e erudito para Jesus, Deus escolheu um pai pobre, humilde, santo e trabalhador braçal. José foi o homem puro, que soube respeitar o voto perpétuo de virgindade de sua esposa, segundo os desígnios misteriosos de Deus.

 

A Família de Nazaré é para nós, hoje, mais do que nunca, modelo de unidade, amor e fidelidade. Mais do que nunca a família hoje está sendo destruída em sua identidade e em seus valores. Surge já uma "nova família" que nada tem a ver com a família de Deus e com a Família de Nazaré.

 

As mazelas de nossa sociedade –, especialmente as que se referem aos nossos jovens: crimes, roubos, assaltos, sequestros, bebedeiras, drogas, homossexualismo, lesbianismo, enfim, os graves problemas morais e sociais que enfrentamos, – têm a sua razão mais profunda na desagregação familiar a que hoje assistimos, face à gravíssima decadência moral da sociedade.

 

Como será possível, num contexto de imoralidade, insegurança, ausência de pai ou mãe, garantir aos filhos as bases de uma personalidade firme e equilibrada e uma vida digna, com esperança?

 

Fruto da permissividade moral e do relativismo religioso de nosso tempo, é enorme a porcentagem dos casais que se separam, destruindo as famílias e gerando toda sorte de sofrimento para os filhos. Muitos crescem sem o calor amoroso do pai e da mãe, carregando consigo essa carência afetiva para sempre.

 

A Família de Nazaré ensina ainda hoje que a família – segundo o plano de Deus – deve ser formada por um casal: um homem e uma mulher, e os filhos; e não por uma caricatura de família ou "família alternativa" na qual os pais já não são um casal, mas um par do mesmo sexo.

 

A família desses nossos tempos pós-modernos só poderá se reencontrar e salvar a sociedade se souber olhar para a Sagrada Família e copiar o seu modo de vida: serviçal, religioso, moral, trabalhador, simples, humilde, amoroso... Sem isso, não haverá verdadeira família e sociedade feliz.