Quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

II Semana do Tempo da Quaresma, II Semana do Saltério (Livro III), cor Litúrgica Roxa

 

Não me abandoneis jamais, Senhor, meu Deus, não fiqueis longe de mim! Depressa, vinde em meu auxílio, ó Senhor, minha salvação. (Sl 37, 22-23)

 

Santos: Abílio de Alexandria (bispo), Aristeu de Salamis (mártir), Atanásio de Nicomédia (abade), Margarida de Cortona (franciscana terciária), Maximiano de Ravena (bispo), Papias de Hierápolis (bispo), Pascásio de Viena (bispo), Rainério de Beaulieu (monge), Talássio e Lineu (eremitas), Ângelo Portasole (bispo, bem-aventurado)

 

Oração do Dia: Ó Deus, conservai constantemente vossa família na prática das boas obras e, assim como nos confortais agora com vossos auxílios, conduzi-nos aos bens eternos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Jeremias (Jr 18, 18-20)

Jeremias busca segurança em Deus

 

Naqueles dias, 18disseram eles: "Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras". 19Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. 20Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura[1]

Vinde, ataquemo-lo

 

A história é cheia de exemplos de inocentes que sofrem e de justos perseguidos ou obrigados a calar por homens que se sentem perturbados em suas conseqüências. Nestes continua a história de Cristo, traído pelos seus, perseguido pelos poderosos, condenado à morte de cruz. A oração de Jesus, semelhante à de Jeremias pelo sentido que exprime e pela compaixão, tão semelhante à sorte que coube a Jeremias, não leva mais o grito da humanidade incapaz de compreender a dor, mas torna-se motivo de conforto para os homens provados pelo sofrimento e angústia da morte, porque Cristo nos salvou por sua morte. A cruz, depois de Jesus Cristo, torna-se símbolo de vida; não perde a dureza, mas já não é destituída de significado.

 

 

Salmo: 30 (31), 5-6.14.15-16 (R/.17b)
Salvai-me pela vossa compaixão, ó Senhor Deus

 

5Retirai-me desta rede traiçoeira, porque sois o meu refúgio protetor! 6Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito, porque vós me salvareis, ó Deus fiel!

 

14Ao redor, todas as coisas me apavoram; ouço muitos cochichando contra mim; todos juntos se reúnem, conspirando e pensando como vão tirar-me a vida.

 

15A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! 16Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor!

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 20, 17-28)

Eles o condenarão à morte

 

Naquele tempo, 17enquanto Jesus subia para Jerusalém, ele tomou os doze discípulos à parte e, durante a caminhada, disse-lhes: 18"Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da lei. Eles o condenarão à morte, 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará".

 

20A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21Jesus perguntou: "O que tu queres?" Ela respondeu: "Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu reino, um à tua direita e outro à tua esquerda". 22Jesus, então, respondeu-lhes: "Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?" Eles responderam: "Podemos". 23Então Jesus lhes disse: "De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou".

 

24Quando os outros discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, chamou-os e disse: "Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; 27quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos".Palavra da Salvação!

 

 

Comentário do Evangelho[2]

O exemplo do Filho do Homem

 

Apesar do testemunho de Jesus, os discípulos estavam atrelados aos esquemas mundanos, mostrando-se pouco sensíveis aos ensinamentos do Mestre. O intento dos filhos de Zebedeu foi uma prova disto.


Fazendo ouvido de mercador, quando Jesus revelou seu destino de sofrimento e morte, estavam preocupados em garantir para si os melhores lugares no Reino a ser instaurado. Bem se vê que estavam longe de sintonizar com o Reino anunciado por Jesus, pois imaginavam um reino onde os chefes se tornam tiranos, e os grandes se tornam opressores, por estarem revestidos de autoridade.


No Reino almejado por Jesus, a grandeza consiste em pôr-se ao serviço do semelhante, de maneira despretensiosa, e o primeiro lugar será ocupado por quem se dispusera assumir a condição de servo. A tirania cede lugar ao serviço, e a opressão transforma-se em amor eficaz em benefício do próximo. Bastava contemplar o modo de proceder do Mestre Jesus que se autodenomina “Filho do Homem”. Jamais buscara ser servido, como se a sua condição de enviado do Pai lhe desse este direito; tampouco teve a arrogância de se considerar superior a quem quer que seja. Manteve sempre sua postura de servo, consciente da missão recebida do Pai, a ponto de entregar a sua própria vida para que toda a humanidade obtivesse salvação. Dera o exemplo no qual os discípulos deveriam inspirar-se.

 

 

Santa Margarida de Cortona[3]

 

Santa Margarida de Cortona nasceu em 1247, em Alviano, Toscana, Itália. Morreu no ano 1297. Foi sepultada em Cortona. Durante sua infância, esta santa teve poucas alegrias. Órfã de mãe viveu sob a crueldade do próprio pai e da madrasta. Fez-se amante de um rico senhor, vivendo no luxo e numa vida fácil. Assim viveu por nove anos, tornando-se mãe de um filho, que mais tarde entrou para a Ordem terceira de São Francisco. Certo dia, seu companheiro foi tragicamente assassinado. Foi encontrado - quando o corpo já se decompunha. Graças a uma cachorrinha de estimação que indicou o lugar do crime. Margarida ficou vivamente impressionada e tocada pela fragilidade humana. Para espanto de todos pôs uma corda no pescoço e se penitenciou publicamente. Ingressou depois na Ordem Terceira de São Francisco, tomando o hábito de penitente, levando uma vida de austeridade, de oração e de serviço aos pobres.

 

Vida: a difícil escolha!

D. Demétrio Valentin([4])

À primeira vista, a Campanha da Fraternidade deste ano parece nos apresentar uma opção muito simples. Quem não está disposto a escolher a vida?

 

Mas, não é bem assim! Para entrar no caminho da vida é preciso tomar o acesso verdadeiro. Caso contrário, enveredamos pelo caminho da morte, muitas vezes sem retorno.

 

Se não percebemos a complexidade desta escolha, que precisa ser feita com conhecimento de causa e com discernimento, corremos o risco de ficar na superficialidade, e o que é pior, acabar contrariando a verdadeira causa da vida.

 

O apelo do Deuteronômio, no Antigo Testamento, parece ser de uma clareza meridiana: Deus coloca diante de nós dois caminhos, um de morte,  e outro de vida, com a sensata recomendação para escolher o caminho da vida: “Escolhe, pois, a vida!”.

 

No Novo Testamento, Jesus nos alerta de que esta escolha não é tão fácil. Inclusive pode ser equivocada e trágica. Pensamos estar escolhendo a vida, e na verdade entramos no caminho que leva para a morte.

 

São palavras dele: “Quem quiser salvar sua vida, a perderá. E quem perder sua vida por causa de mim, a salvará” (Lc 9, 23-24).

 

O  que Jesus nos quer dizer com esta advertência?  Sem dúvida, ele nos faz pensar nos equívocos que podemos estar cometendo, quando fazemos nossas opções de viver.  Pois aparentemente os caminhos que levam para a frustração da vida, começam com aparências de verdade, e com ofertas de abundâncias e exuberâncias. Feita a escolha equivocada, muitas vezes não há mais retorno.

 

A realidade hoje está cheia de exemplos, infelizmente corriqueiros, que mostram o desfecho trágico de pessoas que se equivocaram em procurar a vida, entrando pelo caminho insidioso das falsas aparências.

 

Quantos jovens morrem, por exemplo, vítimas de acidentes. Vai se conferir, estavam bêbados. Morreram porque foram imprudentes, dirigindo embriagados. Onde começou o  erro?  Dá para flagrar um erro grave no fato de dirigirem embriagados. Mas a causa principal vem antes. Existe um erro anterior, pior que este. Quem disse que se embriagar é optar pela vida? 

 

Mas, se conferimos melhor, percebemos que o erro começou ainda antes. Entrou pela mentalidade equivocada que foi se implantando na mente, oferecida com insistência pela sociedade envolvente, que propõe abertamente contra valores, que acabam sendo impostos pela força dos costumes, diante dos quais as famílias desistem de reagir , e as pessoas sucumbem vencidas.

 

Pois bem, não basta proibir que um bêbado pegue o volante. Há erros que precisam ser corrigidos bem antes.

Assim podemos entender como entram os equívocos na vida das pessoas. Achamos que o erro está na causa imediata que precede a tragédia. Não. Os erros começam antes.

 

Quando uma sociedade propaga a banalização do sexo, quando as instituições sociais incentivam a promiscuidade, quando a política tolera a corrupção, quando a economia produz acúmulos injustos e misérias imerecidas, quando a cultura propaga leviandades e irresponsabilidades, quando o Estado se omite diante de suas obrigações públicas, quando a Igreja deixa de profetizar, fica pavimentado o caminho da morte, mesmo que em sua fachada se proclame com solenidade a opção pela vida!

 

Esta campanha nos faz um sério alerta, parecido com o de Cristo: “nem todos os que me dizem ‘Senhor, Senhor”, entrarão no reino de Deus”. Nem todos os que se declaram a favor da vida estão a serviço dela!

 



[1] MISSAL COTIDIANO, ©Loyola, 1997

[2] O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA, Jaldemir Vitório, ©Paulinas

[3] www.asj.org.br

[4] Dom Luiz Demétrio Valentini, 68, é bispo de Jales (SP)