Sábado, 23 de fevereiro de 2008

II Semana do Tempo da Quaresma, II Semana do Saltério (Livro III), cor Litúrgica Roxa

 

O Senhor é misericórdia e clemência, indulgente e cheio de amor. O Senhor é bom

para com todos, misericordioso para todas as suas criaturas. (Sl 144, 8-9)

 

Hoje: Dia Nacional do Rotary e Comemoração Facultativa de São Policarpo (Bispo e Mártir)

 

Santos: Alexandre Akimetes (abade), Boisil de Melrose (abade), Dositeu de Gaza (monge), Félix de Bréscia (bispo), Florêncio de Sevilha (leigo), Lázaro, o Pintor (monge de Constantinopla), Marta de Astorga (virgem, mártir), Meraldo de Vendôme (abade), Milburga de Wenlock (abadessa), Milo de Benevento (bispo), Ordônio de Sahagún (monge, bispo), Policarpo de Roma (presbítero, mártir), Romana de Todi (virgem), Sereno de Billom (mártir), Willigis de Mainz (bispo), Zebino da Síria (eremita), Nicolau da Prússia (monge, bem-aventurado), Rafaela de Ibarra (bem-aventurada).

 

Oração do Dia: Ó Deus, que pelos exercícios da Quaresma já nos dais na terra participar dos bens do céu, que possamos chegar à luz em que habitais. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Miquéias (Mq 7, 14-15.18-20)

Deus não quer a morte do pecador mas a sua conversão

 

14Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados. 15E, como nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios.

 

18Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniqüidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. 19Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniqüidade e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados.

 

20Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura[1]

Lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados

 

Pela misericórdia, o passado do homem pecador não mais existe; ele pode recomeçar tudo. Pode alguém sentir-se chocado com este contínuo falar de misericórdia e de perdão. Parece-lhe pouco sério refugiar-se de continuo junto de um Deus que passa por cima de nossa falta de esforço. Dir-se-ia um jeito demasiado fácil de libertar-se da consciência. Quem, porém, raciocina deste modo esquece que a misericórdia de Deus está ligada à exigência da conversão e que o perdão é verdadeira redenção, libertação, renovação, nova criação. Deus não fecha os olhos com complacente paternalismo, mas abre novo crédito de confiança a nossas responsabilidades e dá a garantia de vencer o mal com o bem. Renova assim no pecador a alegria de viver

 

 

Salmo: 102(103), 1-2.3-4.9-10.11-12 (R/.8a)

O Senhor é indulgente e favorável

 

1Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e todo o meu ser, seu santo nome! 2Bendize, ó minha alma, ao Senhor, não te esqueças de nenhum de seus favores!

 

3Pois ele te perdoa toda culpa, e cura toda sua enfermidade; 4da sepultura ele salva a tua vida e te cerca de carinho e compaixão;

 

9Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor. 10Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas.

 

11Quanto os céus por sobre a terra se elevam, tanto é grande o seu amor aos que o temem; 12quanto dista o nascente do poente, tanto afasta para longe nossos crimes.

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 15, 1-3.11-32)

Teu irmão estava morto e tornou a viver

 

Naquele tempo, 1os publicanos e pecadores aproximaram-se de Jesus para o escutar. 2Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: "Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles". 3Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11"Um homem tinha dois filhos.

 

12O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. 13Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. 14Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16O rapaz queira matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. 17Então caiu em si e disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome'. 18Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19 não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados'. 20Então ele partiu e voltou para seu pai.

 

Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. 21O filho, então, lhe disse: 'Pai, pequei conta Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho'. 22Mas o pai disse aos empregados: 'Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado'. E começaram a festa.

 

25O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. 26Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27O criado respondeu: 'E teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde'.

 

28Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29Ele, porém, respondeu ao pai: 'Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado'.

 

31Então o pai lhe disse: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado"'. Palavra da Salvação!

 

 

Comentário do Evangelho[2]

Acolhendo o pecador

 

A consciência do pecado vem acompanhada do sentimento de vergonha em relação a Deus. A revolta contra o seu amor misericordioso parece não se justificar. Junto com a vergonha vem o sentimento de ingratidão. E o pecador reconhece ser uma loucura o ter-se afastado do Pai.


Sua reação costumeira: duvidar de que possa ser perdoado. Em outros termos, duvidar que Deus esteja disposto a perdoar, devido à magnitude do pecado cometido.


O Evangelho aconselha, firmemente, o pecador a voltar para o Pai, cujo rosto, revelado por Jesus, é um incentivo a essa volta confiante. Deus quer ter junto de si todos os seus filhos. E está sempre disposto a esquecer o passado, pois confia que, no futuro, tudo será melhor. Não coloca limites para o perdão, nem faz distinção entre faltas perdoáveis e faltas imperdoáveis. Tudo pode ser perdoado, quando o pecador se predispõe a voltar. Alegra-se, sobremaneira, com a volta de um filho pecador, pois é como se este estivesse ressuscitando, depois de experimentar a morte. Não considera o pecador como pessoa de segunda categoria, só porque se desviou do bom caminho. Vale a pena confiar no amor misericordioso de Deus Pai.

 

 

São Policarpo[3]

 

Temos hoje a memória obrigatória de São Policarpo, que com Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Papias, pertence ao grupo dos assim chamados "Padres Apostólicos", porque, em sua vida e em seus escritos, testemunhou a fé recebida diretamente dos apóstolos. Estes Padres Apostólicos foram o elo entre a Igreja primitiva e a Igreja do mundo greco-romano, na passagem do primeiro para o segundo século.

 

Conhecemos esta grande figura através das notícias de seu discípulo, Santo Irineu, e de uma carta escrita pelo próprio Policarpo aos fiéis de Filipos.

 

Irineu evoca com grata comoção a memória de seu mestre, dizendo: "Recordo as coisas de então melhor do que as recentes. Poderia assinalar o lugar em que sentava Policarpo para ensinar... seu modo de vida, os traços de sua fisionomia e as palavras que dirigia à multidão. Poderia reproduzir o que nos contava de seu trato com São João apóstolo e os demais que tinham visto o Senhor e como repetia suas mesmas Palavras...”

 

O mesmo Irineu testemunha que Policarpo "enviava cartas às comunidades vizinhas e a alguns irmãos em particular para ensiná-los e admoestá-los". E afirma especificamente: "E belíssima a carta que ele enviou aos filipenses". Esta é a única que nos foi conservada. Nela exorta os filipenses à constância e integridade da fé, e procura incutir em cada um a lembrança de suas obrigações particulares.

 

Policarpo foi colocado como bispo de Esmirna pelo próprio São João apóstolo e, pela retidão de seu caráter, pelo alto saber, pelo amor à Igreja e zelo pela ortodoxia da fé, era considerado e estimado em todo o Oriente.

 

Como líder da comunidade, vemo-lo, em meados do século II, viajando para Roma a fim de tratar com o Papa Aniceto das divergências entre as duas comunidades, a do Oriente e do Ocidente, a respeito da data da celebração da Páscoa. Mesmo sem chegar a um acordo, os dois bispos celebraram juntos a Eucaristia, significando que uma questão meramente disciplinar não devia lesar a união eclesial.

 

O mais que sabemos sobre Policarpo refere-se ao seu martírio, descrito numa carta autêntica que os fiéis de Esmirna enviaram a seus irmãos de Filomélio, na Frígia. Na época de seu martírio, Policarpo era respeitável ancião de oitenta e seis anos. Contra o procedimento temerário de alguns cristãos que se apresentavam ao martírio, o velho bispo preferiu manter-se oculto por algum tempo e assim animar suas ovelhas. Mas acabou sendo delatado e preso como chefe dos cristãos.

 

O governador da província exortou-o a que jurasse pela fortuna de César e que insultasse a Cristo, ao que o venerável ancião respondeu: "Há oitenta e seis anos sirvo a Cristo e nenhum mal tenho recebido dele. Como poderei rejeitar aquele a quem prestei culto e reconheço como meu Salvador?"

 

Foi condenado à morte pelo fogo. O povo pagão, instigado por diversos grupos, encarregou-se de erguer o mais depressa possível a fogueira que consumiu o corpo do bispo, no estádio da cidade. Policarpo recusou ser amarrado e subiu sozinho à fogueira, pronunciando esta prece: "Sede bendito para sempre, ó Senhor; que o vosso nome adorável seja glorificado por todos os séculos".

 

O relato de seu martírio termina com uma preciosa notícia sobre o culto litúrgico. Os judeus queriam impedir que os cristãos recolhessem as relíquias do mártir, para que, diziam, "não aconteça que comecem a adorar Policarpo como fazem com Cristo". Mas os cristãos atestaram: "Nós só adoramos a Cristo, ao passo que recolhemos seus ossos como ouro e pérolas preciosas, e lhes damos honrosa sepultura. A seguir celebramos alegremente a nossa reunião eucarística, como mandou o Senhor, para comemorar o natalício do seu mártir". Sofreu o martírio pelo ano de 155.

 

 



[1] Extraído do MISSAL COTIDIANO,  ©Paulus, 1997

[2] O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA, Ano A,  ©Paulinas, 1997

[3] O SANTO DO DIA, Dom Servilio Conti, pg.90 ©Vozes, 1997