6.1.7 OS GABAONITAS

 

Todos esses acontecimentos se propagaram por toda a região e os seus habitantes entenderam o significado de todos os atos praticados. Compreenderam que os Israelitas a estavam conquistando e dela se apropriando sob o comando de seu Deus Iahweh, que marchava à frente do Seu exército identificado na Arca da Aliança. Votando as conquistas ao interdito demonstrava a instalação de um Reino de Iahweh, “o deus ciumento” (Dt 4,24), que não aceitava em seu domínio a adoração de outro deus ou deuses. Possuídos pelo temor, alguns se coligaram com a finalidade de se defender, derrotá-los e expulsá-los do território. Não se pode deixar de perceber nesta providência a influência cultural de uma coligação dos seus deuses contra Iahweh, o Deus de Israel, já que a guerra de um povo era a guerra de seu deus.

 

O povo de uma região próxima, um grupo distinto que habitava em Gabaon, Cafira, Berot e Cariat-Iarim (v. 17), os gabaonitas, ouvindo a mesma notícia temeu em face do poderio de Israel, mas não se uniu aos demais. Ao invés de deflagrarem uma guerra aos invasores preferiram organizar uma comitiva e, ardilosamente, dizendo-se de um país distante, conseguiram firmar um Tratado ou Aliança e se unir a Josué. O fundamento da astúcia usada foi a narrativa bem detalhada das vitórias de Iahweh desde o Egito (Js 9,9-10). Convencido, Josué prestou-lhes um juramento de paz poupando-os do Interdito. A refeição comum das provisões gabaonitas selou a Aliança (Gn 31,46s) feita sem uma consulta a Iahweh, a que o narrador atribui redundar em grave erro pelo descumprimento de uma das prescrições da Aliança de Iahweh (Ex 23,32-33; 34,12 / Js 9,14-18). Descoberta a trama, e apesar da astúcia usada não se pôde deixar de cumprir o compromisso de paz inviolável pelo juramento. Passaram a viver entre os Filhos de Israel reduzidos à condição social de “escravos, rachadores de lenha e carregadores de água para toda a comunidade e para o Altar de Iahweh” (vs. 21 e 27), conforme decisão geral que, após séria admoestação, foi ratificada por Josué (Js 9,16-21.23.27):

 

Chamou-os Josué e disse-lhes: Por que nos enganastes, dizendo: Habitamos mui longe de vós, sendo que viveis em nosso meio? Agora, pois, sois malditos; e dentre vós nunca deixará de haver escravos, rachadores de lenha e tiradores de água para a casa do meu Deus. Então, responderam a Josué: É que se anunciou aos teus servos, como certo, que Iahweh, teu Deus, ordenara a seu servo Moisés que vos desse toda esta terra e destruísse todos os moradores dela diante de vós. Por isso, tememos muito por nossa vida por causa de vós e fizemos assim. Eis que estamos na tua mão; trata-nos segundo te parecer bom e reto. Assim lhes fez e livrou-os das mãos dos filhos de Israel; e não os mataram. Naquele dia, Josué os fez rachadores de lenha e tiradores de água para a congregação e para o Altar de Iahweh, até ao dia de hoje, no lugar que Deus escolhesse (Js 9,22-27).

 

Dentre os que habitavam a região, “... cinco reis dos amorreus...” coligaram-se para a retomada de Gabaon, a recuperação da posição estratégica perdida em virtude dessa Aliança recém contraída e impedir assim o avanço de Josué. Estando sob a proteção de Israel, nos termos do juramento, os gabaonitas clamaram por Josué para socorrê-los. Atendendo-os, Josué ataca de surpresa os agressores e “Iahweh os derrotou diante de Israel, e os feriu com grande matança em Gabaon, e os foi perseguindo pelo caminho que sobe a Bet-Horon, e os derrotou até Azeca e Makeda” e “... fez Iahweh cair dos céus sobre eles grandes pedras, até Azeca, e morreram. Mais foram os que morreram pelo granizo do que pela espada dos filhos de Israel” (Js 10,1-11). Narra-se a seguir, ao que se diz transcrito do “Livro do Justo” (Js 10,13b) um fenômeno inexplicável e até mesmo inaceitável pelas leis físicas. Iahweh “obedece” a ordem de Josué para “parar o sol, e a lua”, para assim aumentar o dia facilitando a vitória:

 

Então, Josué falou a Iahweh, no dia em que Iahweh entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gabaon, e tu, lua, no vale de Aialon. E o sol se deteve, e a lua parou até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está isto escrito no Livro dos Justos? O sol, pois, se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. “Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, tendo Iahweh, assim, atendido à voz de um homem; porque Iahweh pelejava por Israel. Josué e todo o Israel voltaram ao acampamento em Gálgal (Js 10,12-15).

 

Tão logo vencedor “Josué e todo Israel voltaram ao acampamento em Gálgal” (Js 10,15) / cfr. tbJs 10,43: Então, Josué com todo Israel voltou ao acampamento em Gálgal” (cfr. tb.: Js 4.19s/5,2-9/9,6/ 10,7.15.43) – Gálgal [em hebraico Guilgal e em grego Galileia (compare-se em ambas as versões o trecho em Js 12,23, em que o Guilgal hebreu é vertido na Septuaginta para Galiléia)], vai se tornando um centro regional, religioso, administrativo e de operações militares de Josué. Ali se estrutura toda a conquista da Terra Prometida, do Sul e do Norte, de lá se parte e para lá se retorna e vai projetar-se no ponto culminante da História da Redenção do Homem, ou História da Salvação. Jesus, cujo nome é o mesmo Josué, vai se situar, como informam os Evangelhos Sinópticos na Galileia, de onde também parte para a difusão do Reino de Deus. Da mesma forma o Livro dos Atos dos Apóstolos, seguindo de perto este esquema, fará de Antioquia (At 13,1-4/15,35-36/18,22-23) o centro irradiante das viagens de São Paulo, finalizando em Jerusalém e daí em Roma a consolidação do Reino de Deus, de que a Terra Prometida foi figura. Outro fato significativo é a menção do Mar de Quinerot (Js 12,3), que veio a ser no Tempo de Jesus o Lago de Genesaré (Lc 5,1) ou Tiberíades (Jo 21,1), e do Mar Salgado (Js 12,3) que virá a ser o Mar Morto, fatos que confirmam o nome da região, dado pela versão dos LXX, de Galiléia como tradução de Guilgal.

 

Várias são as tentativas de explicações do fenômeno do sol e a lua terem deixado o seu movimento normal, ficando parados até que a luta terminasse. Inutilmente, porém: qualquer solução encontrada fica dependendo de outra explicação para um tipo diferente de fenômeno que se apresenta, ou se modifica o contexto, oferecendo-se outra narração. As hipóteses se avolumam, mas não existe solução, a não ser que se faça um deslocamento cultural ao tempo e verificar casos semelhantes que caracterizam a presença de Iahweh na defesa de Israel, o Povo Eleito. Lendo o Cântico de Débora (Jz 5,2-31), e outros hinos, verificam-se metáforas muito semelhantes. Indica isso que se trata da maneira poética de se exprimir ao se narrar uma epopeia guerreira, culturalmente condicionada à mentalidade e conhecimentos pertinentes à época. Compara-se o poder de Iahweh com as manifestações incompreensíveis ao tempo, das forças da natureza, e como elas, também misteriosas, identificando-O, e exprimindo-O:

 

Então, desceu o restante dos nobres, o povo de Iahweh em meu auxílio contra os poderosos...” (...) “Do alto dos céus combateram as estrelas, de suas órbitas pelejaram contra Sísara” (...) “... Amaldiçoai a Meroz, diz o Anjo de Iahweh, amaldiçoai duramente os seus moradores, porque não vieram em socorro de Iahweh, em socorro de Iahweh e seus heróis...” (...)... “... Assim, ó Iahweh, pereçam todos os teus inimigos! Porém os que te amam brilham como o sol quando se levanta no seu esplendor. E a terra ficou em paz quarenta anos” (Jz 5,13.20.23.31 / cfr. tb. 1Sm 7,10)

 

“Trovejou, então, Iahweh, nos céus; o Altíssimo levantou a voz, e houve granizo e brasas de fogo. Despediu as suas setas e espalhou os meus inimigos, multiplicou os seus raios e os desbaratou. Então, se viu o leito das águas, e se descobriram os fundamentos do mundo, pela tua repreensão, Iahweh, pelo iroso resfolgar das tuas narinas (Sl 18,13-15).

 

O que se pode constatar é a presença de tais perturbações da normalidade nos fenômenos atmosféricos ou físicos quando Iahweh combate por Israel ou o protege ou cumpre a Aliança. Observa-se facilmente que isso acontece já quando da libertação do Povo dos Filhos de Jacó do Egito com as pragas do granizo (Ex 9,13-26) e das trevas (Gn 10,21-23), para se mencionar apenas algumas semelhantes. Também, várias outras demonstrações quase iguais, a começar com o episódio da Passagem do Mar Vermelho (Ex 14,15-31), a Teofania do Sinai (Ex 19,16-25), o fogo que devorou Nadab e Abiú (Lv 10,1-2), a terra consumindo Coré, Datan, Abiran e os seus familiares e bens (Nm 16,31-35), a vara de Aarão (Nm 17,16-25), a jumenta de Balaão (Nm 22,27-35), a água do rochedo, o Maná e as Codornizes (Ex 16,1-17,7), a passagem do Jordão “a pé enxuto” (Js 3,14-17), a queda das muralhas de Jericó (Js 6,20-21) etc..

 

Conclui-se então ser o modo do hagiógrafo retratar o Poder e a Glória de Iahweh a partir das leis da natureza incontroláveis pelo homem, mas submissas a um simples comando de Deus, geralmente em favor de Seu Povo e Seus Desígnios. Que esses acontecimentos se integraram na História de Israel é inegável tendo sido retratados como epopeias comemorativas, onde enaltecem a Glória de Iahweh e o comando vitorioso de Josué da “guerra de Iahweh” (Eclo 46, 1-6.3). Situam-se na mesma perspectiva o uso que os Profetas fazem em suas admoestações dos astros como sinais escatológicos (Is 13,9-10; 34,4; 38,8/Am 8,9/Jl 3,1-5; 2,10-11; 4,15) ou de Teofania. Mesmo os sinais apontados por São Pedro, como o Anúncio do Dia de Iahweh, no dia de Pentecostes (At 2,14-21), bem como os oferecidos por Jesus para anunciar a Ressurreição e a destruição do Templo pelos Romanos (Mt 24,29-31) e no relato do fim dos tempos, apontados como sinais escatológicos (Ap 6,12-17). Esses dados permitem ver na narrativa do milagre do sol e da lua uma manifestação poética e a demonstração visível da vitória de Iahweh sobre os inimigos de Israel. Essa conclusão vai ficar mais clara com o exame desse mesmo uso por Jesus e por Pedro já mencionados:

 

Tendo Jesus saído do templo, ia-se retirando, quando se aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrar as construções do templo. Ele, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja destruída. No monte das Oliveiras, achava-se Jesus assentado, quando se aproximaram dele os discípulos, em particular, e lhe pediram: Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século. (...). Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres. Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus. Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim também vós: quando virdes todas estas coisas, sabei que está próximo, às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça (Mt 24,1-3.28-34).

 

São Pedro vê na teofania do Dia de Pentecostes a realização desse presságio de Jesus se manifestando, ratificando dentre outros o Profeta Joel. E, na defesa dos Apóstolos acusados de embriaguez, pela manifestação do Espírito Santo ali ocorrida, faz uma acomodação escatológica da Profecia de Joel, qual seja, voltada para o fim dos tempos:

 

Jl 3,1-5a ou

Jl 2,28-32

At 2,17-21

A “ACOMODAÇÃO”

“E acontecerá, depois disto, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne;

E acontecerá nos últimos dias, diz o Iahweh, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne;

 

A Profecia de Joel referia-se ao “dia de Iahweh” no fim dos tempos. E, São Pedro, a aplica ao fenômeno ocorrido como o “Dia de Jesus”, “que Deus o fez Iahweh e Cristo” (At 2,36 / cfr. tb. Rm 10,9 / 1Cor 12,3 / Ap 19,16)

Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões;

Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos

Joel concebe o profetizar com o Espírito dado a Moisés, sem exclusão de ninguém (Nm 11,29; 12,6), e como um fato final; e, São Pedro o mostra já presente no Espírito Santo.

até sobre os escravos e sobre as escravas derramarei o meu Espírito naqueles dias.

até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.

Até mesmo as escravas e escravos teriam o Espírito profético; e, com São Pedro todos os discípulos de Cristo, falariam o que Deus quer (= profeta)

Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia de Iahweh.

Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Iahweh.

Tal como em Joel os sinais são simbólicos, apresentando os na Economia cristã realizada quando da manifestação do Espírito Santo em Pentecostes. Mas, o “sol não se converteu em trevas, nem a lua em sangue”.

E acontecerá que todo aquele que invocar o Nome de Iahweh será salvo”..

E acontecerá que todo aquele que invocar o Nome do Iahweh será salvo”

Iahweh em Joel se realiza no Iahweh Cristo Jesus com São Pedro.

 

É uma narrativa muito antiga cujo real significado teológico permanece oculto, que também ocorre no Livro do Apocalipse, escrito para determinada classe de leitores que conheciam os fatos. O narrador usa a mesma forma para expor o poder de Deus nos astros e na natureza em geral, muitos ainda misteriosos para o homem:

 

Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a lua toda, como sangue, as estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair os seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar. Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da sua ira; e quem é que pode suster-se? (Ap 6,12-17).

 

Finalmente, é de se destacar a orientação de não se deixar perder e prender pela desproporção de tais narrativas, as mais das vezes incompreensíveis e inaceitáveis materialmente. Para o entendimento delas, como se vêm dizendo, é indispensável deslocar-se abstratamente ao tempo e à cultura da época em que foi escrita, não a interpretando de acordo com os avanços atuais do conhecimento. Naqueles tempos não se tinha o conhecimento astronômico, nem físico, nem de espécie alguma da natureza, que não adviesse dos sentidos nus, daí advindo uma visão distorcida da realidade. Pretendeu o narrador ressaltar a Presença Dinâmica de Iahweh em amparo ao Povo Eleito. Assim sendo, fantástica é a chuva de granizo atingir apenas e tão somente os amorreus, fulminando-os Iahweh com o Seu Exército de forças da natureza.

 

Os cinco reis fugiram e se esconderam em uma caverna de Makeda onde ficaram trancafiados rolando-se pedras e tampando a entrada. Após a eliminação de todos os inimigos Josué mandou retirá-los, matou-os e dependurou-os no madeiro, não sem antes determinar que todos os “comandantes Israelitas pusessem os pés sobre o pescoço deles” em sinal de vitória. Põe assim termo à luta (Js 10,16-27/110,1; 116,12/Is 51,23/Gn 3,15), e os encoraja com a afirmação solene da comprovada proteção de Iahweh. Cobriram a entrada da caverna onde haviam se escondido e os soterrou com pedras (Js 10,25-27), significando o caráter criminoso contra Iahweh, como com Acan (Js 7,26) e Hai (Js 8,29).

 

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