CARTA
ENCÍCLICA
FIDES
ET RATIO
[40-83]
Nesta obra de cristianização
do pensamento platônico e neoplatônico, merecem menção particular os Padres
Capadócios, Dionísio chamado o Areopagita e sobretudo Santo Agostinho. O grande Doutor
ocidental contatara diversas escolas filosóficas, mas todas o tinham desiludido. Quando
se lhe deparou a verdade da fé cristã, então teve a força de realizar aquela
conversão radical a que os filósofos anteriormente contatados não tinham conseguido
induzi-lo. Ele mesmo refere o motivo: « Preferindo a doutrina católica, já sentia,
então, que era mais razoável e menos enganoso sermos obrigados a crer o que não
demonstrava, quer houvesse prova, mesmo que esta não estivesse ao alcance de qualquer
pessoa, quer a não houvesse. Seria isto mais sensato do que zombarem da crença os
maniqueístas, apoiados em temerária promessa de ciência, para depois nos mandarem
acreditar em inúmeras fábulas tão absurdas que as não podiam provar». (38) Quanto aos platônicos, que ocupavam lugar privilegiado nos
pontos de referimento de Agostinho, este censurava-os porque, embora conhecessem o fim
para onde se devia tender, tinham, porém, ignorado o caminho que lá conduzia: o Verbo
encarnado. (39) O Bispo de Hipona conseguiu elaborar a
primeira grande síntese do pensamento filosófico e teológico, nela confluindo correntes
do pensamento grego e latino. Também nele a grande unidade do saber, que tinha o seu
fundamento no pensamento bíblico, acabou por ser confirmada e sustentada pela
profundidade do pensamento especulativo. A síntese feita por Santo Agostinho permanecerá
como a forma mais elevada de reflexão filosófica e teológica que o Ocidente, durante
séculos, conheceu. Com uma história pessoal intensa e ajudado por uma admirável
santidade de vida, ele foi capaz de introduzir, nas suas obras, muitos dados que,
apelando-se à experiência, antecipavam já futuros desenvolvimentos de algumas correntes
filosóficas.
De diversas formas, pois, os Padres do Oriente e do
Ocidente entraram em relação com as escolas filosóficas. Isto não significa que tenham
identificado o conteúdo da sua mensagem com os sistemas a que faziam referência. A
pergunta de Tertuliano: «Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a
Igreja?», (40) é um sintoma claro da consciência crítica
com que os pensadores cristãos encararam, desde as origens, o problema da relação entre
a fé e a filosofia, vendo-o globalmente, tanto nos seus aspectos positivos como nas suas
limitações. Não eram pensadores ingênuos. Precisamente porque viviam de forma intensa
o conteúdo da fé, eles conseguiam chegar às formas mais profundas da reflexão. Por
isso, é injusto e redutivo limitar o seu trabalho a mera transposição das verdades de
fé para categorias filosóficas. Eles fizeram muito mais; conseguiram explicitar
plenamente aquilo que resultava ainda implícito e preliminar no pensamento dos grandes
filósofos antigos. (41) Estes, conforme já disse, tiveram a
função de mostrar o modo como a razão, livre dos vínculos externos, podia escapar do
beco sem saída dos mitos, para melhor se abrir à transcendência. Uma razão purificada
e reta era capaz de se elevar aos níveis mais elevados da reflexão, dando fundamento
sólido à percepção do ser, do transcendente e do absoluto.
Aqui mesmo se insere a novidade operada pelos Padres. Acolheram a
razão na sua plena abertura ao absoluto e, nela, enxertaram a riqueza vinda da
Revelação. O encontro não foi apenas questão de culturas, uma das quais talvez
seduzida pelo fascínio da outra; mas verificou-se no íntimo da alma, e foi um encontro
entre a criatura e o seu Criador. Ultrapassando o fim mesmo para o qual inconscientemente
tendia por força da sua natureza, a razão pôde alcançar o sumo bem e a suma verdade na
pessoa do Verbo encarnado. Ao encararem as filosofias, os Padres não tiveram medo de
reconhecer tanto os elementos comuns como as diferenças que aquelas apresentavam
relativamente à Revelação. A percepção das convergências não ofuscava neles o
reconhecimento das diferenças.
Na teologia escolástica, o papel da razão educada
filosoficamente torna-se ainda mais notável sob o impulso da interpretação anselmiana
do intelectus fidei. Segundo o santo Arcebispo de Cantuária, a prioridade da fé não faz
concorrência à investigação própria da razão. De fato, esta não é chamada a
exprimir um juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é
idônea. A sua tarefa é, antes, saber encontrar um sentido, descobrir razões que a todos
permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos da fé. Santo Anselmo sublinha o fato
de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama: quanto mais ama, mais deseja
conhecer. Quem vive para a verdade, tende para uma forma de conhecimento que se inflama
num amor sempre maior por aquilo que conhece, embora admita que ainda não fizera tudo
aquilo que estaria no seu desejo: «Ad te videndum factus sum; et nondum feci propter quod
factus sum». (42) Assim, o desejo da verdade impele a razão
a ir sempre mais além; esta fica como que embevecida pela constatação de que a sua
capacidade é sempre maior do que aquilo que alcança. Chegada aqui, porém, a razão é
capaz de descobrir onde está o termo do seu caminho: « Penso efetivamente que, quem
investiga uma coisa incompreensível, se deve contentar de chegar, pela razão, a
reconhecer com a máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de
penetrar, pela inteligência, o seu modo de ser (...). Aliás, que há de tão
incompreensível e inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de
cuja essência suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões
necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir
traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da sua
certeza. Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira racional que é
incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehensibile esse) o modo como a
sabedoria suprema sabe aquilo que fez (...) , quem explicará como ela mesma se conhece e
exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase nada pode saber?». (43)
Confirma-se assim, uma vez mais, a
harmonia fundamental entre o conhecimento filosófico e o conhecimento da fé: a fé
requer que o seu objeto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez a razão, no
apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé apresenta.
A novidade perene do pensamento de S. Tomás de Aquino
Neste longo caminho, ocupa um lugar
absolutamente especial S. Tomás, não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas também
pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do seu tempo. Numa
época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir os tesouros da filosofia
antiga, e mais diretamente da filosofia aristotélica, ele teve o grande mérito de
colocar em primeiro lugar a harmonia que existe entre a razão e a fé. A luz da razão e
a luz da fé provêm ambas de Deus: argumentava ele; por isso, não se podem contradizer
entre si. (44)
Indo mais longe, S.
Tomás reconhece que a natureza, objeto próprio da filosofia, pode contribuir para a
compreensão da revelação divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e
confia nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, (45) assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta,
iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência
do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao conhecimento do mistério
de Deus Uno e Trino. Embora sublinhando o caráter sobrenatural da fé, o Doutor Angélico
não esqueceu o valor da racionabilidade da mesma; antes, conseguiu penetrar profundamente
e especificar o sentido de tal racionabilidade. Efetivamente, a fé é de algum modo «
exercitação do pensamento »; a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando
presta assentimento aos conteúdos de fé; é que estes são alcançados por decisão
livre e consciente. (46)
Precisamente
por este motivo é que S. Tomás foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento
e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia. Neste contexto, apraz-me recordar o que
escreveu o meu Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, por ocasião do sétimo centenário
da morte do Doutor Angélico: « Sem dúvida, S. Tomás possuiu, no máximo grau, a
coragem da verdade, a liberdade de espírito quando enfrentava os novos problemas, a
honestidade intelectual de quem não admite a contaminação do cristianismo pela
filosofia profana, mas tão pouco defende a rejeição apriorística desta. Por isso,
passou à história do pensamento cristão como um pioneiro no novo caminho da filosofia e
da cultura universal. O ponto central e como que a essência da solução que ele deu ao
problema novamente posto da contraposição entre razão e fé, com a genialidade do seu
intuito profético, foi o da conciliação entre a secularidade do mundo e a radicalidade
do Evangelho, evitando, por um lado, aquela tendência anti-natural que nega o mundo e
seus valores, mas, por outro, sem faltar às exigências supremas e inabaláveis da ordem
sobrenatural ». (47)
Entre as grandes intuições de S. Tomás, conta-se a
de atribuir ao Espírito Santo o papel de fazer amadurecer, como sapiência, a ciência
humana. Desde as primeiras páginas da Summa theologiæ, (48)
o Aquinate quis mostrar o primado daquela sapiência que é dom do Espírito Santo e que
introduz no conhecimento das realidades divinas. A sua teologia permite compreender a
peculiaridade da sapiência na sua ligação íntima com a fé e o conhecimento de Deus:
conhece por conaturalidade, pressupõe a fé e chega a formular retamente o seu juízo a
partir da verdade da própria fé: « A sapiência elencada entre os dons do Espírito
Santo é distinta da mencionada entre as virtudes intelectuais. De fato, esta segunda
adquire-se pelo estudo; aquela, pelo contrário, "provém do alto", como diz S.
Tiago. Mas é também distinta da fé, porque esta aceita a verdade divina tal como é,
enquanto é próprio do dom da sapiência julgar segundo a verdade divina ». (49)
Mas, ao
reconhecer a prioridade desta sapiência, o Doutor Angélico não esquece a existência de
mais duas formas complementares de sabedoria: a filosófica, que se baseia sobre a
capacidade que tem o intelecto, dentro dos próprios limites naturais, de investigar a
realidade; e a sabedoria teológica, que se fundamenta na Revelação e examina os
conteúdos da fé, alcançando o próprio mistério de Deus.
Intimamente convencido
de que «omne verum a quocumque dicatur a Spiritu Sancto est», (50)
S. Tomás amou desinteressadamente a verdade. Procurou-a por todo o lado onde pudesse
manifestar-se, colocando em relevo a sua universalidade. Nele, o Magistério da Igreja viu
e apreciou a paixão pela verdade; o seu pensamento, precisamente porque se mantém sempre
no horizonte da verdade universal, objetiva e transcendente, atingiu « alturas que a
inteligência humana jamais poderia ter pensado».(51) É,
pois, com razão que S. Tomás pode ser definido «apóstolo da verdade».(52) Porque se consagrou sem reservas à verdade, no seu realismo
soube reconhecer a sua objetividade. A sua filosofia é verdadeiramente uma filosofia do
ser, e não do simples aparecer.
O drama da separação da fé e da razão
Quando surgiram as primeiras universidades, a teologia
começou a relacionar-se mais diretamente com outras formas da pesquisa e do saber
científico. Santo Alberto Magno e S. Tomás, embora admitindo uma ligação orgânica
entre a filosofia e a teologia, foram os primeiros a reconhecer à filosofia e às
ciências a autonomia de que precisavam para se debruçar eficazmente sobre os respectivos
campos de investigação. Todavia, a partir da baixa Idade Média, essa distinção
legítima entre os dois conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta
separação. Devido ao espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores,
radicalizaram-se as posições, chegando-se, de fato, a uma filosofia separada e
absolutamente autônoma dos conteúdos da fé. Entre as várias conseqüências de tal
separação, sobressai a difidência cada vez mais forte contra a própria razão. Alguns
começaram a professar uma desconfiança geral, céptica ou agnóstica, quer para reservar
mais espaço à fé, quer para desacreditar qualquer possível referência racional à
mesma.
Em resumo, tudo o que
o pensamento patrístico e medieval tinha concebido e atuado como uma unidade profunda,
geradora dum conhecimento capaz de chegar às formas mais altas da especulação, foi
realmente destruído pelos sistemas que abraçaram a causa de um conhecimento racional,
separado e alternativo da fé.
As radicalizações mais influentes são bem
conhecidas e visíveis, sobretudo na história do Ocidente. Não é exagerado afirmar que
boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu num progressivo afastamento da
revelação cristã até chegar explicitamente à contraposição. No século passado,
este movimento tocou o seu apogeu. Alguns representantes do idealismo procuraram, de
diversos modos, transformar a fé e os seus conteúdos, inclusive o mistério da morte e
ressurreição de Jesus Cristo, em estruturas dialéticas racionalmente compreensíveis.
Mas a esta concepção, opuseram-se diversas formas de humanismo ateu, elaboradas
filosoficamente, que apontaram a fé como prejudicial e alienante para o desenvolvimento
pleno do uso da razão. Não tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando
base a projetos que desembocaram, no plano político e social, em sistemas totalitários
traumáticos para a humanidade.
No âmbito da investigação científica, foi-se impondo uma
mentalidade positivista, que não apenas se afastou de toda a referência à visão
cristã do mundo, mas sobretudo deixou cair qualquer alusão à visão metafísica e
moral. Por causa disso, certos cientistas, privados de qualquer referimento ético, correm
o risco de não manterem, ao centro do seu interesse, a pessoa e a globalidade da sua
vida. Mais, alguns deles, cientes das potencialidades contidas no progresso tecnológico,
parecem ceder à lógica do mercado e ainda à tentação dum poder demiúrgico sobre a
natureza e o próprio ser humano.
Como conseqüência da crise do racionalismo, apareceu o niilismo.
Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo fascínio sobre os nossos
contemporâneos. Os seus seguidores defendem a pesquisa como fim em si mesma, sem
esperança nem possibilidade alguma de alcançar a meta da verdade. Na interpretação
niilista, a existência é somente uma oportunidade para sensações e experiências onde
o efêmero detém o primado. O niilismo está na origem duma mentalidade difusa, segundo a
qual não se deve assumir qualquer compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e
provisório.
Por outro lado, é preciso não esquecer que, na
cultura moderna, foi alterada a própria função da filosofia. De sabedoria e saber
universal que era, foi-se progressivamente reduzindo a uma das muitas áreas do saber
humano; mais, sob alguns dos seus aspectos, ficou reduzida a um papel completamente
marginal. Entretanto, foram-se consolidando sempre mais outras formas de racionalidade,
pondo assim em evidência o caráter marginal do saber filosófico. Em vez de apontarem
para a contemplação da verdade e a busca do fim último e do sentido da vida, essas
formas de racionalidade são orientadas, ou pelo menos orientáveis, como « razão
instrumental » ao serviço de fins utilitaristas, de prazer ou de poder.
Quanto seja perigoso
absolutizar esta estrada, fi-lo notar já na minha primeira carta encíclica, ao escrever:
« O homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz, ou seja,
pelo resultado do trabalho das suas mãos e, ainda mais, pelo resultado do trabalho da sua
inteligência e das tendências da sua vontade. Os frutos desta multiforme atividade do
homem, com grande rapidez e de modo muitas vezes imprevisível, passam a ser não tanto
objeto de "alienação", no sentido de que são simplesmente tirados àqueles
que os produzem, como sobretudo, pelo menos parcialmente, num círculo conseqüente e
indireto dos seus efeitos, tais frutos voltam-se contra o próprio homem. Eles são de
fato dirigidos, ou podem sê-lo, contra o homem. Nisto parece consistir o cato principal
do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais ampla e universal.
Assim, o homem vive mergulhado cada vez mais no medo. Teme que os seus produtos,
naturalmente não todos nem a maior parte, mas alguns e precisamente aqueles que encerram
uma especial porção da sua genialidade e da sua iniciativa, possam ser voltados de
maneira radical contra si mesmo ». (53)
Na seqüência destas transformações culturais,
alguns filósofos, abandonando a busca da verdade por si mesma, assumiram como único
objetivo a obtenção da certeza subjetiva ou da utilidade prática. Em conseqüência,
deu-se o obscurecimento da verdadeira dignidade da razão, impossibilitada de conhecer a
verdade e de procurar o absoluto.
Assim, o dado saliente desta última parte da
história da filosofia é a constatação duma progressiva separação entre a fé e a
razão filosófica. É verdade que, observando bem, mesmo na reflexão filosófica
daqueles que contribuíram para ampliar a distância entre fé e razão, se manifestam às
vezes gérmenes preciosos de pensamento que, se aprofundados e desenvolvidos com mente e
coração reto, podem fazer descobrir o caminho da verdade. Estes gérmenes de pensamento
podem-se encontrar, por exemplo, nas profundas análises sobre a percepção e a
experiência, a imaginação e o inconsciente, sobre a personalidade e a
intersubjetividade, a liberdade e os valores, o tempo e a história. Inclusive o tema da
morte pode tornar-se, para todo o pensador, um severo apelo a procurar dentro de si mesmo
o sentido autêntico da própria existência. Todavia isto não pode fazer esquecer a
necessidade que a atual relação entre fé e razão tem de um cuidadoso esforço de
discernimento, porque tanto a razão como a fé ficaram reciprocamente mais pobres e
débeis. A razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com o
risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior
evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta
universal. É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de
maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou
superstição. Da mesma maneira, uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta não
é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade do ser.
À luz disto, creio
justificado o meu apelo veemente e incisivo para que a fé e a filosofia recuperem aquela
unidade profunda que as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no respeito
da recíproca autonomia. Ao desassombro (parresia) da fé deve corresponder a audácia da
razão.
CAPÍTULO V
INTERVENÇÕES DO MAGISTÉRIO
EM MATÉRIA FILOSÓFICA
O discernimento do Magistério como diaconia da verdade
A Igreja não propõe uma filosofia própria, nem
canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras. (54)
A razão profunda desta reserva está no fato de que a filosofia, mesmo quando entra em
relação com a teologia, deve proceder segundo os seus métodos e regras; caso
contrário, não haveria garantia de permanecer orientada para a verdade, tendendo para a
mesma através dum processo racionalmente controlável. Pouca ajuda daria uma filosofia
que não agisse à luz da razão, segundo princípios próprios e específicas
metodologias. Fundamentalmente, a raiz da autonomia de que goza a filosofia, há que
individuá-la no fato de a razão estar orientada, por sua natureza, para a verdade e
dotada em si mesma dos meios necessários para a alcançar. Uma filosofia, ciente deste
seu « estatuto constitutivo », não pode deixar de respeitar as exigências e
evidências próprias da verdade revelada.
E, todavia, vimos, na
história, os extravios e erros em que várias vezes incorreu o pensamento filosófico,
sobretudo moderno. Não é função nem competência do Magistério intervir para colmar
as lacunas dum discurso filosófico carente. Mas, já é sua obrigação reagir, de forma
clara e vigorosa, quando teses filosóficas discutíveis ameaçam a reta compreensão do
dado revelado e quando se difundem teorias falsas e sectárias que semeiam erros graves,
perturbando a simplicidade e a pureza da fé do povo de Deus.
Por conseguinte, o Magistério eclesiástico pode, e
deve, exercer com autoridade, à luz da fé, o discernimento crítico sobre filosofias e
afirmações que contradigam a doutrina cristã. (55) Ao
Magistério compete, antes de mais, indicar os pressupostos e as conclusões filosóficas
que são incompatíveis com a verdade revelada, formulando assim as exigências que, do
ponto de vista da fé, se impõem à filosofia. Além disso, no desenvolvimento do saber
filosófico, surgiram diversas escolas de pensamento; ora, este pluralismo impõe ao
Magistério a responsabilidade de exprimir o seu juízo sobre a compatibilidade ou
incompatibilidade das concepções de base, defendidas por essas escolas, com as
exigências próprias da palavra de Deus e da reflexão teológica.
A Igreja tem o dever
de indicar aquilo que pode existir, num sistema filosófico, de incompatível com a sua
fé. Na verdade, muitos conteúdos filosóficos relativos, por exemplo, a Deus, ao
homem, à sua liberdade e ao seu comportamento ético , têm a ver diretamente com a
Igreja, porque tocam na verdade revelada que ela guarda. Quando nós, Bispos, realizamos o
referido discernimento, temos a obrigação de ser «testemunhas da verdade», no
cumprimento dum serviço humilde, mas firme, que todo o filósofo devia prezar, em
benefício da reta ratio, ou seja, da razão que reflete corretamente sobre a verdade.
Em todo o caso, tal discernimento não deve ser visto
primariamente de forma negativa, como se a intenção do Magistério fosse eliminar ou
reduzir qualquer possibilidade de mediação; ao contrário, as suas intervenções visam
em primeiro lugar suscitar, promover e encorajar o pensamento filosófico. Os filósofos
são, aliás, os primeiros a compreender a exigência de autocrítica, de correção de
eventuais erros, e a necessidade de ultrapassar os limites demasiado estreitos em que a
sua reflexão foi concebida. De modo particular, deve-se considerar que a verdade é uma
só, embora as suas expressões acusem os vestígios da história e sejam, além disso,
obra duma razão humana ferida e enfraquecida pelo pecado. Daqui se conclui que nenhuma
forma histórica da filosofia pode, legitimamente, ter a pretensão de abraçar a
totalidade da verdade ou de possuir a explicação cabal do ser humano, do mundo e da
relação do homem com Deus.
E hoje, com esta
multiplicação de sistemas, métodos, conceitos e argumentos filosóficos, muitas vezes
extremamente fragmentários, impõe-se ainda com maior urgência um discernimento crítico
à luz da fé. Este discernimento não é fácil, porque, se já é custoso reconhecer as
capacidades naturais e inalienáveis da razão com as suas limitações constitutivas e
históricas, mais problemático ainda se pode tornar às vezes o discernimento de cada uma
das propostas filosóficas para verificar, do ponto de vista da fé, o que apresentam de
válido e fecundo e o que existe nelas de errado ou perigoso. De qualquer modo, a Igreja
sabe que os « tesouros da sabedoria e da ciência» estão escondidos em Cristo (Cl 2,
3); por isso, ela intervém, estimulando a reflexão filosófica, para que não se obstrua
a estrada que leva ao conhecimento do mistério.
Não foi só recentemente que o Magistério da Igreja
interveio para manifestar o seu pensamento a respeito de determinadas doutrinas
filosóficas. A título de exemplo, basta recordar, no decurso dos séculos, as tomadas de
posição acerca das teorias que defendiam a preexistência das almas, (56) e ainda sobre as diversas formas de idolatria e esoterismo
supersticioso, contidas em teses astrológicas; (57) sem
esquecer os textos mais sistemáticos contra algumas teses do averroísmo latino,
incompatíveis com a fé cristã. (58)
Se a palavra do
Magistério se fez ouvir mais freqüentemente a partir da segunda metade do século
passado, foi porque, naquele período, numerosos católicos sentiram o dever de contrapor
uma filosofia própria às várias correntes do pensamento moderno. Daqui resultou, para o
Magistério da Igreja, a obrigação de vigiar a fim de que tais filosofias não
degenerassem, por sua vez, em formas errôneas e negativas. Acabaram assim censurados os
dois extremos: dum lado, o fideísmo (59) e o tradicionalismo
radical,(60) pela sua falta de confiança nas capacidades
naturais da razão; e, do outro, o racionalismo (61) e o
ontologismo, (62) porque atribuíam à razão natural aquilo
que apenas se pode conhecer pela luz da fé. Os conteúdos positivos deste debate foram
formalizados na constituição dogmática Dei Filius, por meio da qual um concílio
ecumênico o Vaticano I intervinha, pela primeira vez e de forma solene,
sobre as relações entre razão e fé. A doutrina contida neste texto marcou, intensa e
positivamente, a investigação filosófica de muitos crentes e constitui ainda hoje um
ponto normativo de referência para uma correta e coerente reflexão cristã neste âmbito
particular.
Mais do que teses filosóficas isoladas, as tomadas de
posição do Magistério ocuparam-se da necessidade do conhecimento racional e por
conseguinte, em última análise, do conhecimento filosófico para a compreensão
da fé. O Concílio Vaticano I, sintetizando e confirmando solenemente os ensinamentos que
o Magistério pontifício tinha proposto aos fiéis de maneira ordinária e constante,
pôs em evidência como são inseparáveis e ao mesmo tempo irredutíveis entre si o
conhecimento natural de Deus e a Revelação, a razão e a fé. O Concílio partia da
exigência fundamental pressuposta também pela Revelação da
cognoscibilidade natural da existência de Deus, princípio e fim de todas as coisas, (63) para concluir com a solene afirmação já citada: « Existem
duas ordens de conhecimento, distintas não apenas pelo seu princípio, mas também pelo
seu objeto ». (64) É que era preciso afirmar, contra
qualquer forma de racionalismo, a distinção entre os mistérios da fé e as conclusões
filosóficas, e ainda a transcendência e precedência daqueles sobre estas; por outro
lado, contra as tentações fideístas, tornava-se necessário corroborar a unidade da
verdade e também o contributo positivo que o conhecimento racional pode, e deve, dar para
o conhecimento da fé: « Mas, embora a fé esteja acima da razão, não poderá existir
nunca uma verdadeira divergência entre fé e razão, porque o mesmo Deus que revela os
mistérios e comunica a fé, foi quem colocou também, no espírito humano, a luz da
razão. E Deus não poderia negar-Se a Si mesmo, pondo a verdade em contradição com a
verdade ».(65)
Neste século, o Magistério voltou várias vezes ao
mesmo assunto, alertando contra a tentação racionalista. É neste horizonte que se devem
colocar as intervenções do Papa S. Pio X, pondo em relevo como, na base do modernismo,
havia posições filosóficas de linha fenomenista, agnóstica e imanentista. (66) E não se pode esquecer a importância que teve a rejeição
católica da filosofia marxista e do comunismo ateu. (67)
Sucessivamente,
o Papa Pio XII fez ouvir a sua voz quando, na carta encíclica Humani generis, preveniu
contra interpretações errôneas que andavam ligadas com as teses do evolucionismo, do
existencialismo e do historicismo. Explicava ele que estas teses não foram elaboradas nem
eram propostas por teólogos, mas tinham a sua origem « fora do redil de Cristo »; (68) acrescentava, porém, que tais extravios não deviam ser
liminarmente rejeitados, mas examinados criticamente: « Ora, estas tendências, que se
afastam em medida desigual da reta via, não podem ser ignoradas ou transcuradas pelos
filósofos e teólogos católicos, que têm o grave dever de defender a verdade divina e
humana, e de fazê-la penetrar na mente dos homens. Pelo contrário, devem conhecer bem
estas opiniões, quer porque as doenças não podem ser curadas, se primeiro não são bem
conhecidas, quer porque algumas vezes mesmo nas afirmações falsas se esconde um pouco de
verdade, quer finalmente porque os próprios erros forçam a nossa mente a investigar e a
perscrutar, com maior diligência, certas verdades filosóficas e teológicas ». (69)
Por último, também a Congregação da Doutrina
da Fé, no cumprimento do seu múnus específico ao serviço do magistério universal do
Romano Pontífice, (70) teve
de intervir para sublinhar o perigo que comportava a assunção acrítica, feita por
alguns teólogos da libertação, de teses e metodologias provenientes do marxismo. (71)
Vemos assim que, no passado, o Magistério
exerceu reiteradamente e sob diversas modalidades o discernimento em matéria filosófica.
Aquilo que os meus Venerados Predecessores enunciaram, constitui um contributo precioso
que não pode ser esquecido.
Se observarmos a situação atual, constatamos que os
problemas retornam, mas com peculiaridades novas. Já não se trata de questões que
interessam apenas a indivíduos ou grupos, mas de convicções tão generalizadas no
ambiente que se tornam, em certa medida, mentalidade comum. Tal é, por exemplo, a
desconfiança radical na razão, que evidenciam as conclusões mais recentes de muitos
estudos filosóficos. De várias partes ouviu-se falar, a este respeito, de « fim da
metafísica »: querem que a filosofia se contente com tarefas mais modestas, tais como a
mera interpretação dos fatos ou apenas a investigação sobre determinados campos do
saber humano ou das suas estruturas.
Também, na teologia, voltam a assomar as tentações de outrora. Por
exemplo, em algumas teologias contemporâneas comparece novamente um certo racionalismo,
principalmente quando asserções, consideradas filosoficamente fundadas, são tomadas
como normativas para a investigação teológica. Isto sucede sobretudo quando o teólogo,
por falta de competência filosófica, se deixa condicionar de modo acrítico por
afirmações que já entraram na linguagem e cultura corrente, mas carecem de suficiente
base racional. (72)
Não faltam também perigosas recaídas no
fideísmo, que não reconhece a importância do conhecimento racional e do discurso
filosófico para a compreensão da fé, melhor, para a própria possibilidade de acreditar
em Deus. Uma expressão, hoje generalizada, desta tendência fideísta é o « biblicismo
», que tende a fazer da leitura da Sagrada Escritura, ou da sua exegese, o único
referencial da verdade. Assim, acaba-se por identificar a palavra de Deus só com a
Sagrada Escritura, anulando deste modo a doutrina da Igreja que o Concílio Ecumênico
Vaticano II expressamente reafirmou. Com efeito, a constituição Dei Verbum, depois de
recordar que a palavra de Deus está presente tanto nos textos sagrados como na
Tradição, (73) afirma sem
rodeios: « A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado
da palavra de eus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido
aos seus Pastores na doutrina dos Apóstolos». (74) Portanto, a Sagrada Escritura não constitui, para a Igreja, a sua única
referência; a «ema da sua fé » (75) provém efetivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada
Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os
três não podem subsistir de maneira independente. (76)
Além disso, não se deve subestimar o perigo que
existe quando se quer individuar a verdade da Sagrada Escritura com a aplicação de uma
única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese mais ampla que permita o
acesso, em união com toda a Igreja, ao sentido pleno dos textos. Os que se dedicam ao
estudo da Sagrada Escritura nunca devem esquecer que as diversas metodologias
hermenêuticas têm também na sua base uma concepção filosófica: é preciso
examiná-las com grande discernimento, antes de as aplicar aos textos sagrados.
Outras formas de fideísmo latente podem-se identificar na pouca
consideração que é reservada à teologia especulativa, e ainda no desprezo pela
filosofia clássica, de cujas noções provieram os termos para exprimir tanto a
compreensão da fé como as próprias formulações dogmáticas. O Papa Pio XII, de
veneranda memória, alertou contra este esquecimento da tradição filosófica e abandono
das terminologias tradicionais. (77)
Constata-se, enfim, uma generalizada desconfiança
relativamente a asserções globais e absolutas sobretudo da parte de quem pensa que a
verdade resulte do consenso, e não da conformidade do intelecto com a realidade objetiva.
Compreende-se que, num mundo subdividido em tantos campos de especializações, se torne
difícil reconhecer aquele sentido total e último da vida que tradicionalmente a
filosofia procurava. Mas nem por isso posso, à luz da fé que reconhece em Jesus Cristo
tal sentido último, deixar de encorajar os filósofos, cristãos ou não, a terem
confiança nas capacidades da razão humana e a não prefixarem metas demasiado modestas
à sua investigação filosófica. A lição da história deste milênio, quase a
terminar, testemunha que a estrada a seguir é esta: não perder a paixão pela verdade
última, nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia de descobrir novos percursos. É a
fé que incita a razão a sair de qualquer isolamento e a abraçar de bom grado qualquer
risco por tudo o que é belo, bom e verdadeiro. Deste modo, a fé torna-se advogada
convicta e convincente da razão.
Solicitude da Igreja pela filosofia
Magistério, porém, não se limitou a pôr em
destaque os erros e desvios das doutrinas filosóficas. Mas, com igual cuidado, quis
confirmar os princípios fundamentais para uma genuína renovação do pensamento
filosófico, indicando mesmo percursos concretos a seguir. Nesta linha, o Papa Leão XIII,
com a carta encíclica Æterni Patris, realizou um passo de alcance verdadeiramente
histórico na vida da Igreja. Efetivamente aquela constitui, até ao dia de hoje, o único
documento pontifício dedicado, a esse nível, inteiramente à filosofia. O grande
Pontífice retomou e desenvolveu a doutrina do Concílio Vaticano I sobre a relação
entre fé e razão, mostrando como o pensamento filosófico é um contributo fundamental
para a fé e para a ciência teológica. (78) Passado mais de
um século, muitas indicações, lá contidas, nada perderam do seu interesse tanto do
ponto de vista prático como pedagógico; a primeira de todas é a que diz respeito ao
valor incomparável da filosofia de S. Tomás. A reposição do pensamento do Doutor
Angélico era vista pelo Papa Leão XIII como a melhor estrada para se recuperar um uso da
filosofia conforme às exigências da fé. S. Tomás, escrevia ele, « ao mesmo tempo que,
como é devido, distingue perfeitamente a fé da razão, une-as a ambas com laços de
amizade recíproca: conserva os direitos próprios de cada uma e salvaguarda a sua
dignidade ». (79)
São conhecidas as felizes conseqüências que teve
este convite pontifício. Os estudos sobre o pensamento de S. Tomás e doutros autores
escolásticos receberam novo incentivo. Foi dado um forte impulso aos estudos históricos,
de que resultou uma nova descoberta das riquezas do pensamento medieval, até então
amplamente desconhecidas, e constituíram-se novas escolas tomistas. Com a aplicação da
metodologia histórica, fizeram-se grandes progressos no conhecimento da obra de S.
Tomás, e muitos foram os estudiosos que corajosamente introduziram a tradição tomista
nas discussões dos problemas filosóficos e teológicos daquele tempo. Os teólogos
católicos mais influentes deste século, a cuja reflexão e pesquisa muito deve o
Concílio Vaticano II, são filhos de tal renovação da filosofia tomista. E assim a
Igreja pôde, no decurso do século XX, dispor dum vigoroso grupo de pensadores, formados
na escola do Doutor Angélico.
Contudo, a renovação tomista e neotomista não foi o
único sinal de retoma do pensamento filosófico na cultura de inspiração cristã. Já
antes, e contemporaneamente ao convite do Papa Leão XIII, tinham surgido vários
filósofos católicos que, valendo-se de correntes de pensamento mais recentes e com uma
metodologia própria, geraram obras filosóficas de grande influência e valor duradouro.
Houve quem tivesse organizado sínteses de nível tão alto que nada tinham a invejar aos
grandes sistemas do idealismo, e quem pusesse as bases epistemológicas para uma nova
exposição da fé, à luz de uma renovada compreensão da consciência moral; houve quem
tivesse elaborado uma filosofia que, partindo da análise da imanência, abria o caminho
para o transcendente, e quem tentasse traduzir as exigências da fé no horizonte da
metodologia fenomenológica. Em suma, partindo de diversas perspectivas, continuou-se a
elaborar formas de reflexão filosófica, que visavam manter viva a grande tradição do
pensamento cristão na unidade de fé e razão.
O Concílio Ecumênico Vaticano II, por sua vez,
apresenta uma doutrina muito rica e fecunda a propósito da filosofia. Não posso
esquecer, sobretudo no contexto desta carta encíclica, que um capítulo inteiro da
constituição Gaudium et spes constitui uma espécie de compêndio de antropologia
bíblica, fonte de inspiração também para a filosofia. Naquelas páginas, trata-se do
valor da pessoa humana criada à imagem de Deus, indicam-se os motivos da sua dignidade e
superioridade relativamente ao resto da criação, e mostra-se a capacidade transcendente
da sua razão. (80) Na referida Constituição conciliar,
considera-se também o problema do ateísmo e denunciam-se, juntamente com suas causas, os
erros desta visão filosófica, sobretudo no que diz respeito à dignidade inalienável da
pessoa e da sua liberdade. (81) E um profundo significado
filosófico reveste também o ponto culminante daquelas páginas, que transcrevia já na
minha primeira carta encíclica, a Redemptor hominis, e mantive como um dos pontos de
referência constante no meu magistério: « Na realidade, o mistério do homem só no
mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era
efetivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria
revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a
sua vocação sublime ». (82)
O Concílio
ocupou-se também do estudo da filosofia, ao qual se devem dedicar os candidatos ao
sacerdócio; são recomendações que se podem generalizar a todo o ensino cristão.
Afirma-se num dos documentos conciliares: « As disciplinas filosóficas sejam ensinadas
de forma que os alunos possam adquirir, antes de mais, um conhecimento sólido e coerente
do homem, do mundo e de Deus, apoiados num patrimônio filosófico perenemente válido,
tendo em conta as investigações filosóficas dos tempos atuais» (83)
Estas
diretrizes foram depois retomadas e especificadas noutros documentos do Magistério, com o
intuito de garantir uma sólida formação filosófica sobretudo àqueles que se preparam
para os estudos teológicos. Também eu sublinhei, em várias ocasiões, a importância
desta formação filosófica para todos os que, um dia, terão de enfrentar, na vida
pastoral, as questões do mundo atual e individuar as causas de determinados
comportamentos, a fim de lhes dar pronta resposta. (84)
Se foi necessário intervir, em diversas
circunstâncias, sobre este tema, reiterando o valor das intuições do Doutor Angélico e
insistindo a favor da aquisição do seu pensamento, isso ficou a dever-se também ao fato
de não terem sido sempre observadas as diretrizes do Magistério, com a solicitude
desejada. De fato, nos anos posteriores ao Concílio Vaticano II, pôde observar-se, em
muitas escolas católicas, um certo declínio nesta matéria, devido à menor estima
sentida não apenas pela filosofia escolástica, mas pelo estudo da filosofia em geral.
Com surpresa e mágoa, tenho de constatar que vários teólogos compartilham este
desinteresse pelo estudo da filosofia.
Na base desta indiferença, há diversas razões. Em primeiro lugar,
aquela falta de confiança na razão que se manifesta em grande parte da filosofia
contemporânea, abandonando em larga escala a investigação metafísica das questões
últimas do homem para concentrar a sua atenção sobre problemas particulares e
regionais, às vezes puramente formais. Depois, há que acrescentar o equívoco que se
gerou sobretudo a respeito das « ciências humanas ». O Concílio Vaticano II afirmou,
várias vezes, o valor positivo da pesquisa científica para um conhecimento mais profundo
do mistério do homem. (85)
Mas, o convite dirigido aos teólogos para conhecerem estas ciências e, se vier a
propósito, aplicá-las corretamente nos seus estudos, não deve ser interpretado como uma
implícita autorização para marginalizar a filosofia, pondo-a de parte na formação
pastoral e na præparatio fidei. E, finalmente, não se pode esquecer o interesse
novamente sentido pela inculturação da fé. Em particular, a vida das jovens Igrejas
permitiu descobrir, ao lado de formas elevadas de pensamento, a presença de múltiplas
expressões de sabedoria popular. Isto constitui um autêntico patrimônio de cultura e de
tradições. Todavia, o estudo dos costumes tradicionais deve ser acompanhado
simultaneamente pela pesquisa filosófica. Será esta que possibilitará fazer sobressair
os traços positivos da sabedoria popular, criando a necessária ligação com o anúncio
do Evangelho. (86)
Desejo insistir novamente que o estudo da filosofia
reveste um caráter fundamental e indispensável na estrutura dos estudos teológicos e na
formação dos candidatos ao sacerdócio. Não é por acaso que o currículo dos estudos
teológicos é antecedido por um período de tempo especialmente consagrado ao estudo da
filosofia. Esta decisão, confirmada pelo Concílio Ecumênico Lateranense V, (87) tem as suas raízes na experiência maturada durante a Idade
Média, quando foi posta em relevo a importância de uma harmonia construtiva entre o
saber filosófico e o teológico. Esta organização dos estudos influenciou, facilitou e
promoveu, embora de forma indireta, uma boa parte do progresso da filosofia moderna. Temos
um exemplo significativo na influência exercida pelas Disputationes metaphysicæ de
Francisco Suárez, que eram seguidas até mesmo nas universidades luteranas da Alemanha.
Pelo contrário, o abandono desta metodologia foi causa de graves carências, tanto na
formação sacerdotal como na investigação teológica. Basta considerar, por exemplo,
como a sua negligência no âmbito do pensamento e da cultura moderna levou ao
encerramento de toda a forma de diálogo ou à recepção indiscriminada de qualquer
filosofia.
Nutro profunda esperança de que estas dificuldades serão superadas
mercê de uma sábia formação filosófica e teológica, que nunca deve faltar na Igreja.
Em virtude das razões aduzidas, senti a urgência de
confirmar, por meio desta carta encíclica, o grande interesse que a Igreja tem pela
filosofia; ou melhor, a ligação íntima do trabalho teológico com a investigação
filosófica da verdade. Daqui nasce o dever que o Magistério tem de discernir e estimular
um pensamento filosófico que não esteja em dissonância com a fé. A minha missão é
propor alguns princípios e pontos de referência, que considero necessários para se
poder instaurar uma relação harmoniosa e eficaz entre a teologia e a filosofia. À luz
deles, será possível discernir com maior clareza se e como deve a teologia relacionar-se
com os diversos sistemas ou asserções filosóficas que o mundo atual apresenta.
CAPÍTULO VI
INTERAÇÃO DA TEOLOGIA COM A
FILOSOFIA
A ciência da fé e as exigências da razão filosófica
A palavra de Deus destina-se a todo o homem, de
qualquer época e lugar da terra; e o homem, por natureza, é filósofo. Por sua vez, a
teologia, enquanto elaboração reflexiva e científica da compreensão da palavra divina
à luz da fé, não pode deixar de recorrer às filosofias que vão surgindo ao longo da
história, tanto para algumas das suas formas de proceder como para realizar funções
mais específicas. Sem pretender indicar aos teólogos metodologias particulares
porque tal não compete ao Magistério , desejo, porém, lembrar algumas funções
próprias da teologia, onde, por causa da própria natureza da Palavra revelada, se exige
o recurso ao pensamento filosófico.
A teologia está organizada, enquanto ciência da fé,
à luz dum duplo princípio metodológico: auditus fidei e intellectus fidei. Com o
primeiro, recolhe os conteúdos da Revelação tal como se foram explicitando
progressivamente na Sagrada Tradição, na Sagrada Escritura e no Magistério vivo da
Igreja. (88) Pelo segundo, a teologia quer responder às
exigências próprias do pensamento, através da reflexão especulativa.
Quanto à preparação para um correto auditus fidei, a filosofia
proporciona à teologia a sua ajuda peculiar, quando examina a estrutura do conhecimento e
da comunicação pessoal, e sobretudo as várias formas e funções da linguagem.
Igualmente importante é a contribuição da filosofia para uma compreensão mais coerente
da Tradição eclesial, das intervenções do Magistério e das sentenças dos grandes
mestres da teologia: estes, de fato, exprimem-se frequentemente por conceitos e formas de
pensamento conotados com determinada tradição filosófica. Neste caso, pede-se ao
teólogo não só que exponha conceitos e termos através dos quais a Igreja possa
refletir e elaborar a sua doutrina, mas que conheça profundamente também os sistemas
filosóficos que tenham, porventura, influenciado as noções e a terminologia, a fim de
se chegar a interpretações corretas e coerentes.
Relativamente ao intellectus fidei, importa
considerar, antes de mais, que a Verdade divina, « que nos é proposta nas Sagradas
Escrituras, interpretadas corretamente pela doutrina da Igreja », (89)
goza de uma inteligibilidade própria, logicamente tão coerente que se deve propor como
um autêntico saber. O intellectus fidei explicita esta verdade, não só quando investiga
as estruturas lógicas e conceptuais das proposições em que se articula a doutrina da
Igreja, mas também e sobretudo quando põe em realce o significado salvífico de tais
proposições para o indivíduo e para a humanidade. É pelo conjunto destas proposições
que o crente chega a conhecer a história da salvação, que culmina na pessoa de Jesus
Cristo e no seu mistério pascal; ele participa deste mistério, com a sua adesão de fé.
A teologia dogmática deve ser capaz de articular o sentido
universal do mistério de Deus, Uno e Trino, e da economia da salvação, quer de modo
narrativo, quer sobretudo de forma argumentativa. Por outras palavras, deve fazê-lo
mediante expressões conceptuais, formuladas de modo crítico e universalmente acessível.
De fato, sem o contributo da filosofia não seria possível ilustrar certos conteúdos
teológicos como, por exemplo, a linguagem sobre Deus, as relações pessoais no seio da
Santíssima Trindade, a cação criadora de Deus no mundo, a relação entre Deus e o
homem, a identidade de Cristo que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. E o mesmo se diga
de diversos temas da teologia moral, onde é preciso recorrer, de imediato, a conceitos
como lei moral, consciência, liberdade, responsabilidade pessoal, culpa, etc., cuja
definição provém da ética filosófica.
Por isso, é necessário que a razão do crente tenha um conhecimento
natural, verdadeiro e coerente das coisas criadas, do mundo e do homem, que são também
objeto da revelação divina; mais ainda, ela deve ser capaz de articular este
conhecimento de maneira conceptual e argumentativa. Assim, a teologia dogmática
especulativa pressupõe e implica uma filosofia do homem, do mundo e, mais radicalmente,
do próprio ser, fundada sobre a verdade objetiva.
A teologia fundamental, pelo seu próprio
caráter de disciplina que tem por função dar razão da fé (cf. 1 Ped 3, 15), deverá
procurar justificar e explicitar a relação entre a fé e a reflexão filosófica. Já o
Concílio Vaticano I, reafirmando o ensinamento paulino (cf. Rom 1, 19-20), chamara a
atenção para o fato de existirem verdades que se podem conhecer de modo natural e,
consequentemente, filosófico. O seu conhecimento constitui um pressuposto necessário
para acolher a revelação de Deus. Quando a teologia fundamental estuda a Revelação e a
sua credibilidade com o relativo cato de fé, deverá mostrar como emergem, à luz do
conhecimento pela fé, algumas verdades que a razão, autonomamente, já encontra ao longo
do seu caminho de pesquisa. A essas verdades, a Revelação confere-lhes plenitude de
sentido, orientando-as para a riqueza do mistério revelado, onde encontram o seu fim
último. Basta pensar, por exemplo, ao conhecimento natural de Deus, à possibilidade de
distinguir a revelação divina de outros fenômenos, ou ao conhecimento da sua
credibilidade, à capacidade que tem a linguagem humana de falar, de modo significativo e
verdadeiro, mesmo do que ultrapassa a experiência humana. Por todas estas verdades, a
mente é levada a reconhecer a existência duma via realmente propedêutica à fé, que
pode desembocar no acolhimento da Revelação, sem faltar minimamente aos seus próprios
princípios e autonomia. (90)
Da mesma forma,
a teologia fundamental deverá manifestar a compatibilidade intrínseca entre a fé e a
sua exigência essencial de se explicitar através de uma razão capaz de dar com plena
liberdade o seu consentimento. Assim, a fé saberá « mostrar plenamente o caminho a uma
razão em busca sincera da verdade. Deste modo a fé, dom de Deus, apesar de não se
basear na razão, decerto não pode existir sem ela; ao mesmo tempo, surge a necessidade
de que a razão se fortifique na fé, para descobrir os horizontes aos quais, sozinha,
não poderia chegar ». (91)
A teologia moral tem, possivelmente, uma
necessidade ainda maior do contributo filosófico. Na Nova Aliança, a vida humana está
efetivamente muito menos regulada por prescrições do que na Antiga. A vida no Espírito
conduz os crentes a uma liberdade e responsabilidade que ultrapassam a própria Lei. No
entanto, o Evangelho e os escritos apostólicos não deixam de propor ora princípios
gerais de conduta cristã, ora ensinamentos e preceitos específicos; para aplicá-los às
circunstâncias concretas da vida individual e social, o cristão tem necessidade de
valer-se plenamente da sua consciência e da força do seu raciocínio. Por outras
palavras, a teologia moral deve recorrer a uma visão filosófica correta tanto da
natureza humana e da sociedade, como dos princípios gerais duma decisão ética.
Talvez se possa objetar que, na situação atual, o
teólogo, mais do que à filosofia, deveria recorrer à ajuda de outras formas do saber
humano, concretamente à história e sobretudo às ciências, de que todos admiram os
progressos extraordinários recentemente alcançados. Outros, impelidos por uma maior
sensibilidade à relação entre fé e culturas, defendem que a teologia deveria dar
preferência às sabedorias tradicionais, em vez de uma filosofia de origem grega e
eurocêntrica. Outros ainda, partindo duma concepção errada do pluralismo de culturas,
negam simplesmente o valor universal do patrimônio filosófico abraçado pela Igreja.
Os aspectos sublinhados, já presentes aliás na doutrina conciliar, (92) contêm uma parte de verdade. O
referimento às ciências, útil em muitos casos porque permite um conhecimento mais
completo do objeto de estudo, não deve, porém, fazer esquecer a necessidade que há da
mediação duma reflexão tipicamente filosófica, crítica e aberta ao universal,
solicitada também por um fecundo intercâmbio entre as culturas. A minha preocupação é
pôr em destaque o dever de não se ficar pelo caso isolado e concreto, descuidando assim
a tarefa primária que é manifestar o caráter universal do conteúdo de fé. Além
disso, não se deve esquecer que a peculiar contribuição do pensamento filosófico
permite discernir, tanto nas diversas concepções da vida como nas culturas, « não o
que os homens pensam, mas qual é a verdade objetiva ». (93) Não as diversas opiniões humanas, mas somente a
verdade pode servir de ajuda à filosofia.
Além do mais, o tema da relação com as culturas
merece uma reflexão específica, apesar de necessariamente não exaustiva, pelas
implicações que daí derivam para as vertentes filosófica e teológica. O processo de
encontro e comparação com as culturas é uma experiência que a Igreja viveu desde os
começos da pregação do Evangelho. O mandato de Cristo aos discípulos para irem, a toda
a parte « até aos confins do mundo » (Act 1, 8), transmitir a verdade revelada por Ele,
fez com que a comunidade cristã pudesse bem cedo dar-se conta da universalidade do
anúncio e dos obstáculos resultantes da diversidade das culturas. Um trecho da carta de
S. Paulo aos cristãos de Éfeso oferece uma válida ajuda para compreender como a
Comunidade Primitiva enfrentou este problema. Escreve o Apóstolo: « Agora porém, vós,
que outrora estáveis longe, pelo Sangue de Cristo vos aproximastes. Ele é a nossa paz,
Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava » (2,
13-14).
Iluminada por este texto, a nossa reflexão pode debruçar-se sobre a
transformação que se operou nos gentios quando abraçaram a fé. As barreiras que
separam as diversas culturas caem diante da riqueza da salvação, realizada por Cristo.
Agora, em Cristo, a promessa de Deus torna-se uma oferta universal: não limitada já à
dimensão particular de um povo, da sua língua ou dos seus costumes, mas alargada a
todos, como um patrimônio ao qual cada um pode livremente ter acesso. Dos mais diversos
lugares e tradições, todos são chamados, em Cristo, a participar na unidade da família
dos filhos de Deus. Cristo faz com que dois povos se tornem « um só ». Os que «
estavam longe » ficaram « próximo », graças à novidade gerada pelo mistério pascal.
Jesus abate os muros de divisão e realiza a unificação, de um modo original e supremo,
por meio da participação no seu mistério. Esta unidade é tão profunda que a Igreja
pode dizer com S. Paulo: « Já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos
dos santos e membros da família de Deus » (Ef 2, 19).
Nesta asserção tão simples, está contida uma grande verdade: o
encontro da fé com as diversas culturas deu vida a uma nova realidade. Na verdade, quando
as culturas estão profundamente radicadas na natureza humana, contêm em si mesmas o
testemunho da abertura, própria do homem, ao universal e à transcendência. É por isso
que elas apresentam perspectivas distintas da verdade, que são de evidente utilidade para
o homem, porque lhe fazem vislumbrar valores capazes de tornar a sua existência sempre
mais humana. (94) Por outro
lado, na medida em que evocam os valores das tradições antigas, as culturas trazem
consigo embora de modo implícito, mas nem por isso menos real a referência
à manifestação de Deus na natureza, como se viu antes nos textos sapienciais e no
ensinamento de S. Paulo.
Uma vez que as culturas estão intimamente
relacionadas com os homens e a sua história, partilham das mesmas dinâmicas do tempo
humano. E, consequentemente, registam transformações e progressos com os encontros que
os homens promovem e com as recíprocas transmissões dos seus modelos de vida. As
culturas alimentam-se com a comunicação de valores, e a sua vitalidade e subsistência
dependem da sua capacidade de permanecerem abertas para acolher a novidade. Como se
explicam tais dinâmicas? Todo o homem está integrado numa cultura; depende dela, e sobre
ela influi. É simultaneamente filho e pai da cultura onde está inserido. Em cada
manifestação da sua vida, o homem traz consigo algo que o caracteriza no meio da
criação: a sua constante abertura ao mistério e o seu desejo inexaurível de
conhecimento. Em conseqüência, cada cultura traz gravada em si mesma e deixa
transparecer a tensão para uma plenitude. Pode-se, portanto, dizer que a cultura contém
em si própria a possibilidade de acolher a revelação divina.
Também o modo como os cristãos vivem a fé, está imbuído da cultura
do ambiente circundante, e vai progressivamente contribuindo, por sua vez, para modelar as
características do mesmo. Os cristãos transmitem, a cada cultura, a verdade imutável
que Deus revelou na história e na cultura dum povo. Ao longo dos séculos, continua a
reproduzir-se o mesmo fenômeno testemunhado pelos peregrinos presentes em Jerusalém, no
dia de Pentecostes. Ao escutarem os Apóstolos, perguntavam-se: « Mas quê! Essa gente
que está a falar não é da Galileia? Que se passa, então, para que cada um de nós os
oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia,
da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das
regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e
árabes, ouvimo-los anunciar nas nossas línguas as maravilhas de Deus! » (Act 2, 7-11).
O anúncio do Evangelho nas diversas culturas, ao exigir de cada um dos destinatários a
adesão da fé, não os impede de conservar a própria identidade cultural. Isto não
provoca qualquer divisão, pois o povo dos batizados distingue-se por uma universalidade
que é capaz de acolher todas as culturas, fazendo com que aquilo que nelas está
implícito se desenvolva até à sua explanação plena na verdade.
Em conseqüência disto, uma cultura nunca pode servir de critério de
juízo e, menos ainda, de critério último de verdade a respeito da revelação de Deus.
O Evangelho não é contrário a esta ou àquela cultura, como se quisesse, ao
encontrar-se com ela, privá-la daquilo que lhe pertence, e a obrigasse a assumir formas
extrínsecas que lhe são estranhas. Pelo contrário, o anúncio que o crente leva ao
mundo e às culturas é uma forma real de libertação de toda a desordem introduzida pelo
pecado e, simultaneamente, uma chamada à verdade plena. Neste encontro, as culturas não
são privadas de nada, antes são estimuladas a abrirem-se à novidade da verdade
evangélica, de que recebem impulso para novos progressos.
O fato da missão evangelizadora ter encontrado em
primeiro lugar no seu caminho a filosofia grega, não constitui de forma alguma
impedimento para outros relacionamentos. Hoje, à medida que o Evangelho entra em contato
com áreas culturais que estiveram até agora fora do âmbito de irradiação do
cristianismo, novas tarefas se abrem à inculturação. Colocam-se à nossa geração
problemas análogos aos que a Igreja teve de enfrentar nos primeiros séculos.
O meu pensamento vai espontaneamente até às terras do Oriente, tão
ricas de tradições religiosas e filosóficas muito antigas. Entre elas, ocupa um lugar
especial a Índia. Um grande ímpeto espiritual leva o pensamento indiano a procurar uma
experiência que, libertando o espírito dos condicionamentos de tempo e espaço, tenha
valor de absoluto. No dinamismo desta busca de libertação, situam-se grandes sistemas
metafísicos.
Compete aos cristãos de hoje, sobretudo aos da Índia, a tarefa de
extrair deste rico patrimônio os elementos compatíveis com a sua fé, para se obter um
enriquecimento do pensamento cristão. Nesta obra de discernimento, que tem a sua fonte de
inspiração na declaração conciliar Nostra aetate, deverão ter em consideração um
certo número de critérios. O primeiro é a universalidade do espírito humano, cujas
exigências fundamentais são idênticas nas mais distintas culturas. O segundo, derivado
do anterior, consiste no seguinte: quando a Igreja entra em contato com grandes culturas
que nunca tinha encontrado antes, não pode pôr de parte o que adquiriu pela
inculturação no pensamento greco-latino. Rejeitar uma tal herança seria contrariar o
desígnio providencial de Deus, que conduz a sua Igreja pelos caminhos do tempo e da
história. Aliás, este critério é válido para a Igreja de todos os tempos
também para a Igreja de amanhã, que se sentirá enriquecida com as aquisições
resultantes do encontro em nossos dias com as culturas orientais, e desta herança há de
tirar, por sua vez, indicações novas para entrar frutuosamente em diálogo com as
culturas que a humanidade fizer florir no seu caminho rumo ao futuro. Em terceiro lugar,
há de precaver-se por não confundir a legítima reivindicação de especificidade e
originalidade do pensamento indiano, com a idéia de que uma tradição cultural deve
enclausurar-se na sua diferença e afirmar-se pela sua oposição às outras tradições
idéia essa que seria contrária precisamente à natureza do espírito humano.
O que fica dito para a Índia, vale também para a herança das grandes
culturas da China, do Japão e demais países da Ásia, bem como das riquezas das culturas
tradicionais da África, transmitidas sobretudo por via oral.
À luz destas considerações, a justa relação que
se deve instaurar entre a teologia e a filosofia há de ser pautada por uma reciprocidade
circular. Quanto à teologia, o seu ponto de partida e fonte primeira terá de ser sempre
a palavra de Deus revelada na história, ao passo que o objetivo final só poderá ser uma
compreensão cada vez mais profunda dessa mesma palavra por parte das sucessivas
gerações. Visto que a palavra de Deus é Verdade (cf. Jo 17, 17), uma melhor
compreensão dela só tem a beneficiar com a busca humana da verdade, ou seja, o
filosofar, no respeito das leis que lhe são próprias. Não se trata simplesmente de
utilizar, no raciocínio teológico, qualquer conceito ou parcela dum sistema filosófico;
o fato decisivo é que a razão do crente exerce as suas capacidades de reflexão na busca
da verdade, dentro dum movimento que, partindo da palavra de Deus, procura alcançar uma
melhor compreensão da mesma. É claro, de resto, que a razão, movendo-se dentro destes
dois pólos palavra de Deus e melhor conhecimento desta , encontra-se
prevenida, e de algum modo guiada, para evitar percursos que poderiam conduzi-la fora da
Verdade revelada e, em última análise, fora pura e simplesmente da verdade; mais ainda,
ela sente-se estimulada a explorar caminhos que, sozinha, nem sequer suspeitaria de poder
percorrer. Esta relação de reciprocidade circular com a Palavra de Deus enriquece a
filosofia, porque a razão descobre horizontes novos e inesperados.
A prova da fecundidade de tal relação é oferecida
pela própria vida de grandes teólogos cristãos que se distinguiram também como grandes
filósofos, deixando escritos de tamanho valor especulativo que justificam ser colocados
ao lado dos grandes mestres da filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres da
Igreja, de entre os quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e
S. Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande tríade
formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino. A relação entre a filosofia
e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na investigação corajosa realizada por
pensadores mais recentes, de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental,
personagens como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson,
Edith Stein, e, no âmbito oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov'ev,
Pavel A. Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij. Ao referir estes autores, ao
lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente dar aval a
todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos significativos
dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens da sua confrontação
com os dados da fé. Uma coisa é certa: a consideração do itinerário espiritual destes
mestres não poderá deixar de contribuir para o avanço na busca da verdade e na
utilização dos resultados conseguidos para o serviço do homem. Espera-se que esta
grande tradição filosófico-teológica encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores
e estudiosos para bem da Igreja e da humanidade.
Diferentes estádios da filosofia
Como consta da história das relações entre a fé e
a filosofia, apontada acima brevemente, podem distinguir-se diversos estádios da
filosofia relativamente à fé cristã. O primeiro é a filosofia totalmente independente
da revelação evangélica: é o estádio da filosofia, existente historicamente nas
épocas que precederam o nascimento do Redentor, e, mesmo depois dele, nas regiões onde o
Evangelho ainda não chegou. Nesta situação, a filosofia apresenta a legítima
aspiração de ser um empreendimento autônomo, ou seja, que procede segundo as suas
próprias leis, valendo-se simplesmente das forças da razão. Embora cientes dos graves
limites devidos à debilidade congênita da razão humana, uma tal aspiração deve ser
apoiada e fortalecida. De fato, o trabalho filosófico, como busca da verdade no âmbito
natural, pelo menos implicitamente permanece aberto ao sobrenatural.
E, mesmo quando é o próprio discurso teológico que se serve de
conceitos e argumentações filosóficas, a exigência de correta autonomia do pensamento
há de ser respeitada. Com efeito, a argumentação conduzida segundo rigorosos critérios
racionais é garantia para a obtenção de resultados universalmente válidos. Também
aqui se verifica o princípio segundo o qual a graça não destrói, mas aperfeiçoa a
natureza: a anuência de fé, que envolve a inteligência e a vontade, não destrói mas
aperfeiçoa o livre arbítrio do crente, que acolhe em si próprio o dado revelado.
Desta exigência em si mesma correta, afasta-se nitidamente a teoria da
chamada filosofia « separada », sustentada por vários filósofos modernos. Mais do que
afirmação da justa autonomia do filosofar, ela constitui a reivindicação duma
auto-suficiência do pensamento que é claramente ilegítima: rejeitar as contribuições
de verdade vindas da revelação divina significa efetivamente impedir o acesso a um
conhecimento mais profundo da verdade, danificando precisamente a filosofia.
Um segundo estádio da filosofia é aquilo que muitos
designam com a expressão filosofia cristã. A denominação, em si mesma, é legítima,
mas não deve dar margem a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia
oficial da Igreja, já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Com aquela
designação, deseja-se sobretudo indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão
filosófica concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não se refere
simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos cristãos que, na sua pesquisa,
quiseram não contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã, pretende-se abraçar
todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico que não seriam alcançados
sem a contribuição, direta ou indireta, da fé cristã.
Assim, a filosofia cristã contém dois aspectos: um subjetivo, que
consiste na purificação da razão por parte da fé. Esta, enquanto virtude teologal,
liberta a razão da presunção uma típica tentação a que os filósofos
facilmente estão sujeitos. Já S. Paulo e os Padres da Igreja, e mais recentemente
filósofos, como Pascal e Kierkegaard, a estigmatizaram. Com a humildade, o filósofo
adquire também a coragem para enfrentar algumas questões que dificilmente poderia
resolver sem ter em consideração os dados recebidos da Revelação. Basta pensar, por
exemplo, aos problemas do mal e do sofrimento, à identidade pessoal de Deus e à questão
acerca do sentido da vida, ou, mais diretamente, à pergunta metafísica radical: «
Porque existe o ser?».
Temos, depois, o aspecto objetivo, que diz respeito aos conteúdos: a
Revelação propõe claramente algumas verdades que, embora sejam acessíveis à razão
por via natural, possivelmente nunca seriam descobertas por ela, se tivesse sido
abandonada a si própria. Colocam-se, neste horizonte, questões como o conceito de um
Deus pessoal, livre e criador, que tanta importância teve para o progresso do pensamento
filosófico e, de modo particular, para a filosofia do ser. Pertence ao mesmo âmbito a
realidade do pecado, tal como é vista pela luz da fé, e que ajuda a filosofia a
enquadrar adequadamente o problema do mal. Também a concepção da pessoa como ser
espiritual é uma originalidade peculiar da fé: o anúncio cristão da dignidade,
igualdade e liberdade dos homens influiu seguramente sobre a reflexão filosófica,
realizada pelos filósofos modernos. Nos tempos mais recentes, pode-se mencionar a
descoberta da importância que tem, também para a filosofia, o acontecimento histórico,
centro da revelação cristã. Não foi por acaso que aquele se tornou perne de uma
filosofia da história, que se apresenta como um novo capítulo da busca humana da
verdade.
Entre os elementos objetivos da filosofia cristã, inclui-se também a
necessidade de explorar a racionalidade de algumas verdades expressas pela Sagrada
Escritura, tais como a possibilidade de uma vocação sobrenatural do homem, e também o
próprio pecado original. São tarefas que induzem a razão a reconhecer que existe a
verdade e o racional, muito para além dos limites estreitos onde ela seria tentada a
encerrar-se. Estas temáticas ampliam, de fato, o âmbito do racional.
Ao refletirem sobre estes conteúdos, os filósofos não se tornaram
teólogos, já que não procuraram compreender e ilustrar as verdades da fé a partir da
Revelação; continuaram a trabalhar no seu próprio terreno e com a sua metodologia
puramente racional, mas alargando a sua investigação a novos âmbitos da verdade.
Pode-se dizer que, sem este influxo estimulante da palavra de Deus, boa parte da filosofia
moderna e contemporânea não existiria. O dado mantém toda a sua relevância, mesmo
diante da constatação decepcionante de não poucos pensadores destes últimos séculos
que abandonaram a ortodoxia cristã.
Outro estádio significativo da filosofia verifica-se
quando é a própria teologia que chama em causa a filosofia. Na verdade, a teologia
sempre teve, e continua a ter, necessidade da contribuição filosófica. Realizado pela
razão crítica à luz da fé, o trabalho teológico pressupõe e exige, ao longo de toda
a sua pesquisa, uma razão conceptual e argumentativamente educada e formada. Além disso,
a teologia precisa da filosofia como interlocutora, para verificar a inteligibilidade e a
verdade universal das suas afirmações. Não foi por acaso que os Padres da Igreja e os
teólogos medievais assumiram, para tal função explicativa, filosofias não cristãs.
Este fato histórico indica o valor da autonomia que a filosofia conserva mesmo neste
terceiro estádio, mas mostra igualmente as transformações necessárias e profundas que
ela deve sofrer.
É precisamente no sentido de uma contribuição indispensável e nobre
que a filosofia foi chamada, desde a Idade Patrística, ancilla theologiæ. De fato, o
título não foi atribuído para indicar uma submissão servil ou um papel puramente
funcional da filosofia relativamente à teologia; mas no mesmo sentido em que Aristóteles
falava das ciências experimentais como « servas » da « filosofia primeira ». A
expressão, hoje dificilmente utilizável devido aos princípios de autonomia antes
mencionados, foi usada ao longo da história para indicar a necessidade da relação entre
as duas ciências e a impossibilidade de uma sua separação.
Se o teólogo se recusasse a utilizar a filosofia, arriscar-se-ia a
fazer filosofia sem o saber e a fechar-se em estruturas de pensamento pouco idôneas à
compreensão da fé. Se o filósofo, por sua vez, excluísse todo o contato com a
teologia, ver-se-ia na obrigação de apoderar-se por conta própria dos conteúdos da fé
cristã, como aconteceu com alguns filósofos modernos. Tanto num caso como noutro,
surgiria o perigo da destruição dos princípios básicos de autonomia que cada ciência
justamente quer ver garantidos.
O estádio da filosofia agora considerado, devido às implicações que
comporta na compreensão da Revelação, está, como acontece com a teologia, mais
diretamente colocado sob a autoridade do Magistério e do seu discernimento, como expus
mais acima. Das verdades de fé derivam, efetivamente, determinadas exigências que a
filosofia deve respeitar, quando entra em relação com a teologia.
À luz destas reflexões, é fácil compreender porque
tenha o Magistério louvado reiteradamente os méritos do pensamento de S. Tomás, e o
tenha proposto como guia e modelo dos estudos teológicos. O que interessava não era
tomar posição sobre questões propriamente filosóficas, nem impor a adesão a teses
particulares; o objetivo do Magistério era, e continua a ser, mostrar como S. Tomás é
um autêntico modelo para quantos buscam a verdade. De fato, na sua reflexão, a
exigência da razão e a força da fé encontraram a síntese mais elevada que o
pensamento jamais alcançou, enquanto soube defender a novidade radical trazida pela
Revelação, sem nunca humilhar o caminho próprio da razão.
Ao explicitar melhor os conteúdos do Magistério
precedente, é minha intenção, nesta última parte, indicar algumas exigências que a
teologia e, ainda antes, a palavra de Deus coloca, hoje, ao pensamento
filosófico e às filosofias atuais. Como já assinalei, o filósofo deve proceder segundo
as próprias regras e basear-se sobre os próprios princípios; todavia, a verdade é uma
só. A Revelação, com os seus conteúdos, não poderá nunca humilhar a razão nas suas
descobertas e na sua legítima autonomia; a razão, por sua vez, não deverá perder nunca
a sua capacidade de interrogar-se e de interrogar, consciente de não poder arvorar-se em
valor absoluto e exclusivo. A verdade revelada, projetando plena luz sobre o ser a partir
do esplendor que lhe vem do próprio Ser subsistente, iluminará o caminho da reflexão
filosófica. Em resumo, a revelação cristã torna-se o verdadeiro ponto de enlace e
confronto entre o pensar filosófico e o teológico, no seu recíproco intercâmbio.
Espera-se, pois, que teólogos e filósofos se deixem guiar unicamente pela autoridade da
verdade, para que seja elaborada uma filosofia de harmonia com a palavra de Deus. Esta
filosofia será o terreno de encontro entre as culturas e a fé cristã, o espaço de
entendimento entre crentes e não crentes. Ajudará os crentes a convencerem-se mais
intimamente de que a profundidade e a autenticidade da fé saem favorecidas quando esta se
une ao pensamento e não renuncia a ele. Mais uma vez, encontramos nos Padres a lição
que nos guia nesta convicção: « Crer, nada mais é senão pensar consentindo [...].
Todo o que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê [...]. A fé, se não for pensada,
nada é ». (95) Mais: « Se se tira o assentimento, tira-se a fé, pois, sem o
assentimento, realmente não se crê ». (96)
CAPÍTULO VII
EXIGÊNCIAS E TAREFAS ACTUAIS
As exigências irrenunciáveis da palavra de Deus
A Sagrada Escritura contém, de forma explícita ou
implícita, toda uma série de elementos que permite alcançar uma perspectiva de notável
densidade filosófica acerca do homem e do mundo. Os cristãos foram gradualmente tomando
consciência da riqueza contida naquelas páginas sagradas. Delas se conclui que a
realidade que experimentamos, não é o absoluto: não é incriada, nem se autogerou. Só
Deus é o Absoluto. Nas páginas da Bíblia, o homem é visto como imago Dei, que contém
indicações precisas sobre o seu ser, a sua liberdade e a imortalidade do seu espírito.
Uma vez que o mundo criado não é auto-suficiente, qualquer ilusão de autonomia que
ignore a essencial dependência de Deus de toda criatura incluindo o homem
leva a dramas que destroem a busca racional da harmonia e do sentido da existência
humana.
Também o problema do
mal moral a forma mais trágica do mal é considerado na Bíblia,
dizendo-nos que este não pode ser reduzido a uma mera deficiência devida à matéria,
mas é uma ferida que provém de uma manifestação desordenada da liberdade humana.
Finalmente, a palavra de Deus apresenta o problema do sentido da existência e revela a
resposta para o mesmo, encaminhando o homem para Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado,
que realiza em plenitude a existência humana. Poder-se-iam ainda explicitar outros
aspectos da leitura do texto sagrado; de qualquer modo, o que sobressai é a rejeição de
toda a forma de relativismo, materialismo, panteísmo.
A convicção fundamental desta « filosofia » presente na Bíblia é
que a vida humana e o mundo têm um sentido e caminham para a sua plenitude, que se
verifica em Jesus Cristo. O mistério da Encarnação permanecerá sempre o centro de
referência para se poder compreender o enigma da existência humana, do mundo criado, e
mesmo de Deus. A filosofia encontra, neste mistério, os desafios extremos, porque a
razão é chamada a assumir uma lógica que destrói as barreiras onde ela mesma corre o
risco de se fechar. Somente aqui, porém, o sentido da existência alcança o seu ponto
culminante. Com efeito, torna-se inteligível a essência íntima de Deus e do homem: no
mistério do Verbo encarnado, são salvaguardadas a natureza divina e a natureza humana,
com sua respectiva autonomia, e simultaneamente manifesta-se aquele vínculo único que as
coloca em mútuo relacionamento, sem confusão. (97)
Deve ter-se em conta que um dos dados mais salientes
da nossa situação atual consiste na « crise de sentido ». Os pontos de vista, muitas
vezes de caráter científico, sobre a vida e o mundo multiplicaram-se tanto que estamos
efetivamente assistindo à afirmação crescente do fenômeno da fragmentação do saber.
É precisamente isto que torna difícil e frequentemente vã a procura de um sentido. E,
mais dramático ainda, neste emaranhado de dados e de fatos, em que se vive e que parece
constituir a própria trama da existência, tantos se interrogam se ainda tem sentido
pôr-se a questão do sentido. A pluralidade das teorias que se disputam a resposta, ou os
diversos modos de ver e interpretar o mundo e a vida do homem não fazem senão agravar
esta dúvida radical, que facilmente desemboca num estado de cepticismo e indiferença ou
nas diversas expressões do niilismo.
Em conseqüência disto, o espírito humano fica muitas vezes ocupado
por uma forma de pensamento ambíguo, que o leva a encerrar-se ainda mais em si próprio,
dentro dos limites da própria imanência, sem qualquer referência ao transcendente.
Privada da questão do sentido da existência, uma filosofia incorreria no grave perigo de
relegar a razão para funções meramente instrumentais, sem uma autêntica paixão pela
busca da verdade.
Para estar em consonância com a palavra de Deus ocorre, antes de mais,
que a filosofia volte a encontrar a sua dimensão sapiencial de procura do sentido último
e global da vida. Esta primeira exigência, por sinal, constitui um estímulo utilíssimo
para a filosofia se conformar com a sua própria natureza. Deste modo, ela não será
apenas aquela instância crítica decisiva que indica, às várias partes do saber
científico, o seu fundamento e os seus limites, mas representará também a instância
última de unificação do saber e do agir humano, levando-os a convergirem para um fim e
um sentido definitivos. Esta dimensão sapiencial é ainda mais indispensável hoje, uma
vez que o imenso crescimento do poder técnico da humanidade requer uma renovada e viva
consciência dos valores últimos. Se viesse a faltar a estes meios técnicos a sua
orientação para um fim não meramente utilitarista, poderiam rapidamente revelar-se
desumanos e transformar-se mesmo em potenciais destrutores do gênero humano. (98)
A palavra de Deus revela o fim último do homem,
e dá um sentido global à sua cação no mundo. Por isso, ela convida a filosofia a
empenhar-se na busca do fundamento natural desse sentido, que é a religiosidade
constitutiva de cada pessoa. Uma filosofia que quisesse negar a possibilidade de um
sentido último e global, seria não apenas imprópria, mas errônea.
De resto, este papel sapiencial não poderia ser
desempenhado por uma filosofia que não fosse, ela própria, um autêntico e verdadeiro
saber, isto é, debruçado não só sobre os aspectos particulares e relativos
sejam eles funcionais, formais ou úteis da realidade, mas sobre a verdade total e
definitiva desta, ou seja, sobre o próprio ser do objeto de conhecimento. Daqui, uma
segunda exigência: verificar a capacidade do homem chegar ao conhecimento da verdade;
mais, um conhecimento que alcance a verdade objetiva por meio daquela adæquatio rei et
intellectus, a que se referem os Doutores da Escolástica. (99)
Esta exigência, própria da fé, foi explicitamente reafirmada pelo Concílio Vaticano
II: « A inteligência, de fato, não se limita ao domínio dos fenômenos; embora, em
conseqüência do pecado, esteja parcialmente obscurecida e debilitada, ela é capaz de
atingir com certeza a realidade inteligível ». (100)
Uma filosofia, radicalmente fenomenista ou
relativista, revelar-se-ia inadequada para ajudar no aprofundamento da riqueza contida na
palavra de Deus. De fato, a Sagrada Escritura sempre pressupõe que o homem, mesmo quando
culpável de duplicidade e mentira, é capaz de conhecer e captar a verdade clara e
simples. Nos Livros Sagrados, e de modo particular no Novo Testamento, encontram-se textos
e afirmações de alcance propriamente ontológico. Os autores inspirados, com efeito,
quiseram formular afirmações verdadeiras, isto é, capazes de exprimir a realidade
objetiva. Não se pode dizer que a tradição católica tenha cometido um erro, quando
entendeu alguns textos de S. João e de S. Paulo como afirmações sobre o ser mesmo de
Cristo. Ora, quando a teologia procura compreender e explicar estas afirmações, tem
necessidade do auxílio duma filosofia que não renegue a possibilidade de um conhecimento
objetivamente verdadeiro, embora sempre passível de aperfeiçoamento. Isto vale também
para os juízos da consciência moral, que a Sagrada Escritura supõe ser objetivamente
verdadeiros. (101)
As duas exigências, já referidas, implicam uma
terceira: ocorre uma filosofia de alcance autenticamente metafísico, isto é, capaz de
transcender os dados empíricos para chegar, na sua busca da verdade, a algo de absoluto,
definitivo, básico. Trata-se duma exigência implícita tanto no conhecimento de tipo
sapiencial, como de caráter analítico; de modo particular, é uma exigência própria do
conhecimento do bem moral, cujo fundamento último é o sumo Bem, o próprio Deus. Não é
minha intenção falar aqui da metafísica enquanto escola específica ou particular
corrente histórica; desejo somente afirmar que a realidade e a verdade transcendem o
elemento factível e empírico, e quero reivindicar a capacidade que o homem possui de
conhecer esta dimensão transcendente e metafísica de forma verdadeira e certa, mesmo se
imperfeita e analógica. Neste sentido, a metafísica não deve ser vista como alternativa
à antropologia, pois é precisamente ela que permite dar fundamento ao conceito da
dignidade da pessoa, assente na sua condição espiritual. De modo particular, a pessoa
constitui um âmbito privilegiado para o encontro com o ser e, consequentemente, com a
reflexão metafísica. Em
toda a parte onde o homem descobre a presença dum apelo ao absoluto e ao transcendente,
lá se abre uma fresta para a dimensão metafísica do real: na verdade, na beleza, nos
valores morais, na pessoa do outro, no ser, em Deus. Um grande desafio, que nos espera no
final deste milênio, é saber realizar a passagem, tão necessária como urgente, do
fenômeno ao fundamento. Não é possível deter-se simplesmente na experiência; mesmo
quando esta exprime e manifesta a interioridade do homem e a sua espiritualidade, é
necessário que a reflexão especulativa alcance a substância espiritual e o fundamento
que a sustenta. Portanto, um pensamento filosófico que rejeitasse qualquer abertura
metafísica, seria radicalmente inadequado para desempenhar um papel de mediação na
compreensão da Revelação.
A palavra de Deus alude continuamente a realidades que ultrapassam a
experiência e até mesmo o pensamento do homem; mas, este « mistério » não poderia
ser revelado, nem a teologia poderia de modo algum torná-lo inteligível, (102) se o conhecimento humano se limitasse
exclusivamente ao mundo da experiência sensível. Por isso, a metafísica constitui uma
intermediária privilegiada na pesquisa teológica. Uma teologia, privada do horizonte
metafísico, não conseguiria chegar além da análise da experiência religiosa, não
permitindo ao intellectus fidei exprimir coerentemente o valor universal e transcendente
da verdade revelada.
Se insisto tanto na componente metafísica, é porque estou convencido
de que este é o caminho obrigatório para superar a situação de crise que aflige
atualmente grandes setores da filosofia e, desta forma, corrigir alguns comportamentos
errados, difusos na nossa sociedade.
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Página atualizada em 18/10/98 |